Pular para o conteúdo principal

Lamentos de Menon por Diotima

Duas estrofes do hino "Lamentos de Menon por Diotima", de Holderlin, na tradução de Paulo Quintela. A primeira e a última. Toda tradução faz opções. Há uma tradução espanhola que talvez fosse ideal para o primeiro verso, que para o português ficaria assim: "Em vão vou todos os dias em busca de mudança/calam minha fala todas as trilhas da terra". No terceiro, seria "cimos gélidos", pois no romantismo - e principalmente nesse poema - um clima de frieza. Mas, no entanto, é um dos poemas que mais me "gelam o coração".


1

Todos os dias saio, sempre à busca de caminho,
   Há muito interroguei já a todos os da terra;
Além dos cimos frescos, todas as sombras visito
   E as fontes; erra o espírito pra cima e pra baixo,
Pedindo sossego; assim foge o bicho ferido pros bosques,
   Onde outrora ao meio-dia repousava seguro à sombra;
Mas o seu leito verde já não lhe restaura o coração,
   Lamentoso e sem sono o aguilhoa por toda parte o espinho.
Nem do calor da luz nem do fresco da noite vem ajuda,
   E em vão banha as feridas nas ondas do rio.
E  assim como debalde a terra lhe oferece a erva alegre
   Que o cure, e nenhum dos zéfiros acalma o sangue a ferver,
Assim, queridos! assim a mim também, parece, e ninguém
   Poderá tirar-me da fronte o sonho triste?

9
Assim, oh! celestiais! vos rendo graças, e enfim
   A prece de novo abranda o peito do cantor.
E como quando com ela estava no monte soalheiro
   Fala-me do templo um deus e me dá vida.
Quero viver, sim! já verdeja o campo! como de lira santa
   Vem um apelo dos montes argênteos de Apolo!
Vem! Foi como um sonho! As asas que sangravam estão
   Curadas já, rejuvenesce por toda parte a esperança!
Ainda há muito, muito de grande a descobrir, e quem
   Assim amou, vai - tem de ir! - pela estrada dos deuses.
E acompanhai-me vós, horas sacrais! vós, graves,
   Juvenis! Pressentimentos santos, ficai vós conosco,
Preces devotas! e vós, entusiasmos, e vós todos,
   Bons gênios, que gostais de acompanhar os que amam;
Ficai conosco até nos encontrarmos no solo comum,
   Lá onde os venturosos todos descem de bom grado,
Lá onde as águias estão, os astros, os mensageiros do Pai
   E as Musas, lá onde vêm os heróis e as amantes,
Lá, ou aqui mesmo, sobre uma ilha orvalhada
   Onde os nossos esperam, flores reunidas em jardim,
Onde os cantos são verdade, e as Primaveras são mais tempo belas
   E de novo um ano da nossa alma começa!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha sobre o filme "300"

Por Ana Paula Condessa

Todo filme tem seus méritos, seus pontos fortes, mas também tem furos e contradições. O filme 300, já em exibição, surgiu da história em quadrinhos “Os 300 de esparta” - criada e desenvolvida por Frank Miller. É impressionante a grandeza da produção do filme que chega a representação, com muita propriedade, por retratar a batalha que enfrenta o rei Leônidas -,os soldados espartanos, seus aliados contra o exército persa de Xerxes, na Batalha das Termópilas -, desfiladeiro da Grécia. Esparta - é uma sociedade que é toda voltada para a arte da guerra e todos os indivíduos, que dela fazem parte, são instruídos para tal. No filme é passado muito do que era Esparta e seu contexto, algo de muito valor para compreender a essência da Batalha das Termópilas - . A guerra é o meio de vida dos espartanos e, antes mesmo desta grande batalha que ficou para a história e, cujos métodos e estrutura de guerra foram usados por muitos anos em batalhas posteriores, eles moldaram um im…

ULISSES, de Tennyson

Depois que li esse poema toda minha concepção de poesia foi alterado. Não me satisfez a tradução que aparece no livro de Harold Bloom, Como e por que ler os clássicos, pois, para respeitar a métrica, acabaram cortando parte do enunciado - e isso refletiu na perda da dramaticidade. Fiz a minha adaptação livre a partir do espanhol. Auuuuuuau!!!!! Há uma tradução de Haroldo de Campos que saiu numa edição do Mais!


Fútil o ganho para um rei nada útil,
na calma do lar, à beira de penhas áridas,
unido a uma idosa esposa, a impor e dispor
iníquas leis a uma raça selvagem
que come, e amealha, e dorme, e de mim nem sabe.
A mim não resta senão viajar: beberei
a vida até o fundo. Sempre desfrutei
da fartura, e com fartura sofri, junto àqueles
que me amavam com amor ímpar; e, em terra,
arrastado pela corrente, as chuvosas Híades
agitavam o lúgubre mar: ganhei nome:
para sempre vagando com coração ávido,
vi, possuí, e muito conheci; cidades de homens
e costumes, climas, conselhos, governos,
nunca com desprezo, ma…