fevereiro 26, 2013

Miguel Sanches Neto, agradeço a leitura atenta do Vagem de Vidro e a carta generosa


Ricardo Alfaya, obrigado pela leitura e a gentileza da bela manifestação crítica



Oi, Salomão,

Chegou hoje à tarde seu Vagem de Vidro.  É uma obra densa, complexa, de estrutura singular.  Um livro de poesia de fato diferente.  Vc realiza uma colagem de textos e imagens numa velocidade vertiginosa, explorando inúmeros efeitos surrealistas, a começar pelo título; a quebra ou mesmo eliminação da pontuação formal acarreta por vezes a sensação de estarmos diante de um hipertexto – por sinal, a influência da Internet no seu fazer literário se evidencia em vários momentos.  Alguns poemas marcaram-me mais, como o que fala em Ulisses.  Destaco também “E se todos nós  decidíssemos pela ausência?” -  Esse poema, aliás, caracteriza uma das tendências que percebi em seu estilo: a criação de uma espécie de universo à parte, totalmente feito de palavras (signos), em que tudo é possível.  Algum dos seus apreciadores notou, com propriedade, a presença de um tom um tanto solene, grandioso, em seu discurso; por exemplo, no poema que começa por “A palavra definitiva”, há algo de bíblico no discurso; e aquela história de “corpo que repartes” evoca a passagem bíblica mais conhecida do antigo Salomão – só que, no seu poema, quem entra em cena é Prometeu; a parte do corpo a sacrificar não é o filho, mas o heroico fígado.  Enfim, é uma poesia personalíssima, muito instigante.  Difícil pretender esgotar a riqueza de seus significados e possibilidades com um único e breve comentário.  Porém, fica aqui o registro, não apenas do recebimento do livro, mas também do prazer que essa primeira leitura me proporcionou.  Parabéns.

Um grande abc,
Ricardo Alfaya

fevereiro 24, 2013

Memórias de Nilto Maciel



Quase mensalmente tenho recebido um livro novo de Nilto Maciel. Pensando bem: escrevi pouco (quase nada) sobre esta obra que já goza de espaço no registro da literatura brasileiro, mas ainda sem leitores. Ela tem sido lida quase que só pelos confrades. O que é uma pena, pois se trata de produção que goza de desenvoltura e de consciência inigualáveis. E ainda não será desta vez que irei fazer um artigo ou resenha sobre a obra de Nilto Maciel. Será apenas um registro circunstacial, de lembrança e memória de um amigo.
Um destes livros que ele me mandou é "Menos vivi do que fiei palavras". É de um sinceridade rara, que raia o perigo. Basta ver uma frase no prímeiro capítulo sobre o livro Os morcegos, do meu amigo José Godoy Garcia. "Nenhuma literatura sobrevive (...) se o escritor se deixa enlear nas malhas das circunstâncias". Nesta época, já alertávamos ao Godoy para o perigo de deixar explícitaa a crítica poética a figuras políticas do período (Kissiger, Delfim). Mas muitos registros foram mantidos no livro. O importante, no entanto, é que Godoy sobrevive. Muitos autores mencionados por Nilto Maciel, todos de seu convívio, acabaram num permanente limbo. Li e abono todos os seus registros.
É esta espontaneidade sábia que está faltando à crítica e ao jornalismo. Esta espontaneidade que alimenta e instiga a produção literária. 
Só fiquei pesaroso porque ele terá descartado de seus diários as referências à nossa convivência e, talvez, à minha poesia.Talvez estas referências não existam.  No período retratado (1986/1992), eu não publiquei  nenhum livro, apenas o livro Falo, que pode não ter coincidido com o inídio de seus diários. E há que ressalvar que ele não se atém ao cotidiano. Garimpou em seus diários apenas as referências às leituras e à literatura produzida em seu tempo. E, neste período, era habitual eu visitá-lo, oportunidade em que conversávamos enquanto meus filhos brinvacam com suas filhas - pequenas Iracemas traquinas em Taguatinga Norte.
Tenho muitas saudades do Nilto Maciel, do nosso convívio, pois a sua sagacidade alimenta os amigos. Conheço muitos diários. De Lúcio Cardoso, Gide, as memórias de Chateaubriand. Nilto: assim retrabalhadas, as suas só enriquecem um período da literatura brasileira. Um período que julgo estranho, pois tínhamos saído do boom da literatura latinoamericanas, sobretudo no conto e no romance, e a poesia não sabia se se enveredava pelo marginal ou pelo concretismo. E aí entra o seu pente fino arrancando com duras garras um estudo que nasce clássico.
Baturité, o abraço do amigo. Você sabe, né?

fevereiro 23, 2013

Livreiro

Surpreendi-me com a matéria que saiu neste sábado, 23.02.13, no caderno "Pensar & Agir", do Correio Braziliense, sobre a comercialização de livros no Brasil. Sobretudo sobre a sobrevivência da profissão de livreiro. A matéria surpreende pela paixão nela contida. Afonso Borges, o autor, não fica só no informativo. Transvere às palavras a sua paixão pelo livro e pelo conteúdo dos livros. Isso também é importante para a divulgação dos livros. Os jornais, as revistas, os poucos suplementos - não abordam mais os livros com paixão. Não fazem mais matérias intimistas. Os livros são abordados sempre com técnica. E o que transvere ao leitor a vontade de ler não é a técnica, mas algo que sobressaiu de outro leitor, algo que imprima uma intimidade com o livro antes mesmo de sua leitura. 
Vejamos o que Afonso Boges diz sobre poesia e Whitman dentro da matéria: "Poesia, esta raridade absoluta nas grandes livrarias brasileiras. E em pleno século 21, quando a neurociência prova que a velha arte de Withman faz o cérebro trabalhar à velocidade de fórmula 1 durante a leitura de um poema. Por que será?"
O livreiro passava a participar das preferências dos leitores. Brasília teve grandes livreiros. Alguns mais saudáveis, outros mais rabugentos. Todos estranhavam o Hargreves, da Casa do Livro, pois, para defender o bom livro, era chegava às raias da rabugice. Mas conseguia para os clientes os mais raros livros, num tempo em que as livrarias não estavam todas visíveis na virtualidade. "A Casa do Livro" começou a definhar quando Hargreves se negou a comercializar Paulo Coelho, entre outros bestseller.
Mas eu gostaria de mencionar ainda os livreiros Victor Alegria e o Ivan da Presença, pois todos tiveram grande participação na minha vida. Além de muitos outros balconistas de livraria. O bom leitor espera chegar numa livraria e ter alguém com quem trocar informações sobre os lançamentos. A minha experiência maior sobre o livreiro foi com o Salles, que fechou a Livraria Literatura para continuar sua paixão pelo livro com a publicação de edições de arte. Eu passava tardes inteiras na livraria só para conversar com ele e com outros escritores que acabavam se reunindo no local. O cliente (e eu era um destes) fazia às vezes muitas vezes de balconista. Lembro-me que ele pediu uns dez exemplaves do romance "Crônica da casa assassinada", de Lúcio Cardoso, que foram ficando abandonados na prateleira. Um dia eu decidi que aquele romance era muito bom para ficar na prateleira. Em dois sábados, em conversas com clientes, os dez exemplares foram vendidos. 
Acredito que estas paixões vão sendo extintas. O balconista agora está preparado para vender o que o cliente imagina querer ler. O balconista (que substituiu a presença do livreiro dentro da livraria ) não auxilia mais o cliente a criar imaginação. E o jornalista e o balconista precisam ter paixão pela letura para que a vontade de ler um bom livro seja transferida para o leitor. Acredito que a contratação, pelas grandes redes, de profissionais só para conversa com leitores, seria um trabalho enorme para a melhoria da qualidade da leitura. São muitos os escritores já idosos que estão precisando de emprego. Quantas vezes converso com clientes em livrarias que circulam perdidos sem saber o que escolher para uma boa leitura, e acabo dando orientações. A cultura é transferência de paixões.
Mas era só para saudar a matéria Afonso Borges! Alonguei-me demais! Boa leitura para todos. Sugiro Gonçalo M. Tavares. Um dos escritores mais inteligentes e instigantes dos últimos tempos!

fevereiro 13, 2013

Um poema do livro "Vagem de vidro"

Deixa um retrato
um pedaço de angústia
o desejo
a cola rachada da lombada

Deixa uma fresta
das janelas do corpo
um pedaço da paisagem
onde fixaste um foco

Deixa uma fatia
de limão sobre a ferida
uma brecha de meu corpo
a rasgar-se em tua boca

Deixa uma marca seca
na minha roupa
um vazio
na minha imaginação