março 20, 2014

Dia da Poesia





Em 21 de março, comemora-se o Dia da Poesia. Para mim, não traz nenhum diferença que exista ou não um dia para a poesia, pois eu penso que todo dia é dia de sol, de nuvem, de folha resistindo para não se esturricar na vibração da luz. Para mim, todo dia é dia de poesia.

Nem me preocupo se alguém, neste momento, esteja se ocupando ou desejando ou se embevecendo com a minha poesia. Ou com a poesia de qualquer outro poeta. O importante é que as poesias existam no mundo como o caruncho numa madeira. Ainda que não seja visto, o caruncho pode ser ouvido e faz o seu estrago. O importante é que a poesia, silenciosamente, provoque algum desconforto.

Como no conto de Max Beerbohm, o importante é que para mim seja uma recompensa o próprio ato de escrever poesia. O próprio prazer de encontrar-me dentro dos meus versos. Outro tem todo direito de encontrar prazer dentro de seu carro, ouvindo a mesma batida interminável. Talvez sinta algum prazer em não ter de se ocupar com as possibilidades dos símbolos, que apresentam outros significados além da própria batida. Tem todo direito de se gabar interminavelmente da própria libidinosidade. A poesia para mim é um gesto de excitação. E não preciso ficar mostrando o volume desta excitação a todo momento como faz o que está em seu carro e o que fica em sua porta em seu voyeurismo. Toda excitação, excessivamente exposta,

cria afastamento, inibe o prazer.

Encontrar um verso como "Hão de chorar por ela os cinamomos", para mim, é como se surgisse uma espécie nova no universo, na circulação de meu sangue. É como uma mulher que chega no ambiente com todo seu gesto vigoroso, deslocando a luminosidade das vitrines e ampliando a velocidade do ar nas respirações. E eu devia ter apenas uns quinze anos quando estes versos de Alphonsus de Guimarens me atacaram por trás, pois eu não estava preparado para a sua riqueza. Eu não sabia sequer o significado da palavra “cinamomos”. E nem dicionário eu tinha, ou google, para me elucidar. Mas os cinamomos estavam ali para criar outro universo no meu ambiente.

A poesia me trouxe muitos encontros. Todos eles regados de vasta sabedoria e amizade. Relembro alguns daqueles que já se foram. Drummond: encontro pela correspondência. Estão aqui em meus guardados as suas três cartas. Yeda Schmaltz: as suas cartas cuidadosamente desenhadas, o meu retrato na parede com a assinatura dela e os encontros sob a monguba de seu quintal. José Godoy Garcia: intermináveis contendas, seja em minha casa ou sentados em bancos de praças de cidades goianas. Esmerino Magalhães Jr.: o violão soando a "Barroquinha", e o vigor da leitura de meus poemas. Octávio Afonso, Fernando Mendes Viana. Ah! Tenho uma carta muito linda de Zila Mamede. Por que as editoras não se lembram de pôr um livro dela no mercado, numa edição bem bonita, destas de dar gosto como a de Jorge de Lima agora pela Cosac Naif?

A cada hora surge uma definição para poesia. Hoje eu imagino que a poesia acontece quando as palavras ganham carnalidade! Na poesia, os cinamomos não são mais árvores, pois choram a amada morta.

Aí! Amar a poesia não dói, não agride a urbanidade e, ainda, prepara o indivíduo para a amizade afetuosa


Um comentário:

Karla .. disse...

Que doce surpresa ..
Aos poucos, descobrindo mais do Poeta rs ..
Beijo,
;)