setembro 27, 2006

Passarei três dias em Bom Despacho (MG), numa feira cultural, a convite do escritor Jacinto Guerra. Participarei de uma mesa de debates de literatura. Retornarei da viagem com os escritores Alaor Barbosa e Napoleão Valadares. Nas horas de repouso, estarei estudando o processo poético com Antônio Cândido, através do livro "O estudo analítico do poema", da editora Humanitas.
Enquanto isso, deixo para os amigos o meu último poema:

Estive com gafanhotos das esquinas
eram de luzes nas folhas de prata
homens disputavam
as decisões do destino

De Anicuns trago novos bordados
e de trilhas da serra
nas roupas gotas de orvalho
Aprendi a fisgar em Aruanã
trago o brilho das fiadas de peixes
Outros trajetos de nuvens
Outros jeitos de ver a nudez
de achar poços nas barras
A caixeta feita com zelo
pus no bornal, em Santa Luzia
Em Palmelo a loucura nos cabelos
De Floripa vêm ripas de gelo
Com feixes de fogo eu estive
braças de bem, esconderijos de sal

Estive nos milagres de Muquém
em esquinas de greves
em disputas de destinos
Sangrei em todas trilheiras
Volto de Anicuns, de Palmíria
das cheias altas, estivas

setembro 21, 2006

A ARTE DA CALHORDICE

Desde o fracasso dos regimes socialistas, foi decaindo a importância do envolvimento social da obra de arte. E essa tendência mais recrudesceu com o sucesso dos movimentos de vanguarda. Passou-se a preocupar mais com a liberdade individual, que cresceu tanto que passou a prevalecer sobre a ética coletiva.

Não pregamos o policiamento da arte, mas o questionamento das vozes em que é feita a obra de arte. Dependendo da voz em que ela é composta, acaba servindo a interesses prejudiciais à formação do indivíduo e à pratica da sociabilidade. Ainda recentemente ouvi um texto que usa a voz de um elemento criminoso para desancar a paz. É preocupante, pois o texto serve à apologia da violência àquele que não está inserido no ordenamento da paz, pois o texto não apresenta um contraditório a esta voz que prega a apologia violenta.

Outro susto dentro de minha casa. Dois artistas de ampla aceitação popular apareciam na tela da televisão, com rostos esborrachados, transpirando a bebida e cantando uma música de apologia à cerveja. Acreditei que se tratava de uma propaganda contratada pela indústria do setor. Como o clip foi se estendendo, extrapolando os limites de um comercial, pude constatar que era uma música já inserida no gosto popular.

Portanto, não era a arte da breguice, mas a arte da calhordice. Leonardo e Zeca Pagodinho, talvez atraídos (ou mesmo remunerados) pelo mercado, tenham aderido a uma publicidade indireta numa área que mais dá prejuízos ao país: a bebida. Prejuízos com a saúde individual, com o ordenamento da família e a produção no trabalho. Adoeço todas as vezes em que passo pelas pequenas cidades de meu Goiás e noto a juventude adoecendo com "a latinha na mão". Lamentável que a arte se proponha à calhordice do chamamento comercial.

Especial para A VOZ, jornal de Silvânia

A Terra do Coração

Nasci à beira do rio Calvo. A fazenda de meu avô nem chegava a ter nome. Chamavam-na de Fazendinha. E só agora, quando convidado pela A Voz a falar sobre o 325º aniversário de Silvânia, comemorado em 5 de outubro, foi que me preocupei com o nome do lugar em que nasci. Ainda no Festival de Poesia de Goiás — depois de eu dizer no recebimento do Prêmio Goyaz de Poesia pelo livro Ruínas ao Sol que nasci às margens do rio Calvo — o poeta Gilberto Mendonça Teles ainda brincou comigo, alegando que eu não podia ter nascido perto de um rio, “pois Silvânia não tem rio”.
Saí de Silvânia há 35 anos, portanto só posso abordá-la com o olhar da juventude. E, se de juventude, olhar de inocência. Não é à toa que as minhas primeiras matérias jornalísticas foram publicadas em Silvânia com a afoiteza de um crítico ainda em formação. Nunca me arrependi daqueles comentários, pois eles contribuíram para atitudes administrativas à época —, mas hoje a minha abordagem se daria com maior leveza, pois a experiência nos conduz a tons esmaecidos.
Um de meus projetos será reunir aspectos históricos do município de Silvânia para produção de um texto que possa apresentar a cidade em alguma página da internet. Noutro dia, ao consultar a Wikipédia, pude notar que a cidade ainda não se apresenta com a sua grandeza no meio virtual. Datilografei umas três linhas e criei o verbete para a cidade. Só aí já assumi o compromisso de ampliar a sua divulgação, afinal, Silvânia não é só um quadro na parede ou um verbete na memória.
Como não me encontro fisicamente na cidade, perdi o contato político com ela. Lembro-me do Dr. Misac à porta da prefeitura articulando as campanhas políticas no período que antecedeu o regime militar. Agora a política não se dá apenas pelo comando dos mandatários, mas pelos meios de comunicação e pelos programas sociais. Em Silvânia não deve ser diferente. No entanto, com essas novas compreensões, a população deve se comprometer com políticos que coloquem a cidade nas rubricas orçamentárias.
O importante, para mim, é que a cidade ganhe maturidade cultural, e crie alternativas que não deixe a sua juventude apenas com a opção etílica. No meu caso, teve influência fundamental a existência de bibliotecas em funcionamento na cidade (a Biblioteca Municipal e a do Ginásio Anchieta). E os filmes de hoje não tem a mesma intensidade daqueles que vi em Silvânia com o olhar atento da juventude! Se não fossem essas bibliotecas, o cinema e o Ginásio Anchieta, neste momento, em vez de estar inventando estas linhas, poderia estar na beira do rio cavando valas para plantar batata ou para enfiar meu fracasso. Ainda noutro dia, conversando com o poeta Ronaldo Costa Fernandes, ele enfatizava que — mesmo que tenha um único leitor — uma cidade tem a obrigação de manter uma biblioteca.
Portanto, o que me preocupa é a formação cultural. E até nisso a cidade progrediu. A instalação da Rádio Rio Vermelho foi um avanço extraordinário para o desenvolvimento social; a ampliação da rede de ensino, inclusive com a instalação de uma faculdade, veio cimentar a capacidade de questionamento da população. E, a partir do Pallas, a cidade passou a se preocupar com o seu registro histórico, com a preservação do seu patrimônio... Até aquele período, registrava-se apenas a derrubada. Silvânia — se esse movimento tivesse começado há uns cinqüenta anos — poderia ombrear com as cidades de Goyaz e Pirenópolis em importância turística. Mas foram abaixo a Praça do Rosário, com seus sobradinhos, com sua igreja, sem esquecer que demorou a contar com boas estradas que a colocasse numa rota turística que motivasse a conservação de seu patrimônio.
Espero que alguém assuma a revitalização do cinema! Em vários municípios isso já aconteceu! A minha amiga Rosângela mantém o de Paracatu com o maior sucesso, com ingressos a dois reais para as escolas! E que os pais exijam que seus filhos leiam trinta minutos para cada hora que ficar no computador ou com os carros estrondando banalidade na avenida! A leitura nos conecta com o conhecimento e nos projeta para as realizações.

***

Não sei com quantos metros se mede um leito de água para estabelecer que ele é rio, ribeirão ou qualquer outro nome oficial que se tenha de dar. No entanto, os olhares da infância sempre vêem com maior grandeza do que os olhares do adulto. Se é córrego ou não, para mim até o rio Vermelho será para sempre um rio. As pessoas de minha infância não faziam essas distinções. Todo curso de água era rio; toda elevação de terreno era morro; todo ajuntamento de árvores era mata. E a terra do coração será sempre Silvânia.

setembro 15, 2006

Gosto dos poetas trágicos e objetivos, que enxugam o texto de todo percurso desnecessário. Assim é com a obra do grego K. Kaváfis, que têm toda a sua obra canônica editada agora no Brasil pela editora Odisseus, em tradução também objetiva de Ísis Borges B. da Fonseca. São 154 poemas de toda uma vida. Ou de muitas vidas, se vão se inserindo em outras vidas, basta ver a minha, que não é a mesma vida depois de ter contato com eles.

O meu contato com Kaváfis vem de bem antes. Desde que conheci o poema 14. Esperando os Bárbaros, que é conhecido em quase todas as línguas e por quase todos os homens, principalmente os poetas.

Mas tudo que eu disser será inútil. Já que o poemas podem dizer tudo por eles mesmos. Quem não treme diante desse poema de Kaváfis:


23. A CIDADE


Disseste: "Irei à outra terra, irei a outro mar.
Uma outra cidade há de achar-se melhor que esta.
Cada esforço meu é uma condenação fatal;
e está no meu coração — como morto — enterrado.
Meu espírito até quando ficará neste marasmo?
Para onde volte meu olhar, para qualquer lugar que atente
ruínas negras de minha vida vejo aqui,
onde tantos anos passei, e a destruí e arruinei".

Novos lugares não encontrarás, não encontrarás outros mares.
A cidade te seguirá. Às mesmas ruas voltarás.
E nos mesmos bairros envelhecerás;
e nestas mesmas casas encanecerás.
Sempre a esta cidade chegarás. Quanto a outros lugares — não tenhas esperanças —
não há navio para ti, não há caminho.
Assim como destruíste tua vida aqui
neste pequeno recanto, em toda a terra arruinaste-a.

Que encanto no diálogo de duas vozes, assim partindo de um mundo sem referenciais. Serve para qualquer país, qualquer desnorteamento ético. Encanecerás — ficar de cabelos brancos. Vamos ficando tão distante dos grandes vocábulos!

Ah! me deu vontade de fazer um poema sobre esta cobrança de uma melhor atuação em favor dos locais de que saímos. Eis o poema que ainda estou construindo:


Algo já fizestes por tua cidade
Andastes pelas grotas
pelas ruínas de suas minas
que uma cidade é antes
o que homem esgota e funda
e falseia: arrobas de ouro, sinetes
Nas crostas dos quintais
cavastes fundo para murações
Bebestes das águas
olhastes para os galhos
Ajeitastes na cumeeira as telhas
e murmurastes sob o céu
investido de sol e solidão
Fizestes: guardastes nomes
codinomes de cores, grená
inseticidas nas narinas
gritos nos muros
só para que tremesse
a mulher insone por ti
E no bornal não levavas
só as poucas moedas
Levavas o mofo, o descorar
da liturgia dos mortos
Partistes: e ainda que tenhas
a cabeça no torno
será sempre exigido de ti
outra gota de óleo
outra próxima lâmpada

setembro 13, 2006

Assim como fiz uma lista de livros preferidos, faço também a lista dos meus 10, que seriam 100 discos de música brasileira preferidos. É claro que ficam faltando Baden Powell, Nara Leão... Não posso colocar em ordem númerica, pois seria injusto com qualquer um deles. Se você não tem pelo menos 5 discos destes em casa a sua casa, me pedoe, está muito vazia:

@) Falso Brilhante, de Elis Regina, com músicas de Belchior. Mas e a Elis do "Bêbado e Equilibrista", e da parceria com Tom...
@ Construção, de Chico Buarque, que reconstrói o cotidiano de Noel Rosa. Mas e os três primeiros discos, e os do meio da carreira, oh meus caros amigos: tenham Chico inteiro.
@)Elizethíssima, de Elizeth Cardoso, pela perfeição da interpretação
@)Muito, de Caetano Veloso, pela maturidade da sonoridade brasileira
@)Alucinação, de Belchior
@)Travessia, de Milson Nascimento (a descentralização da música brasileira)
@)Foi um rio que passou na minha vida (1970), de Paulinho da Viola
@) Gente da Antiga (1970), de Pixinguinha, Clementina de Jesus e João da Bahiana (Do Pixinguinha pode ser qualquer um, mas se estivesse em catálogo). Não sei como as gravadoras brasileiras deixam discos clássicos fora de catpalogo!
@) Clementina de Jesus, de Clementina de Jesus (qualquer disco também é importante)
@) Vadico, disco homenagem ao compositor Vadico com vários músicos, pela Quarup. Sacanagem um disco destes ficar fora de catálogo!
@) Um de Rafael Rabelo, mas o que ele fez com músicas do Tom Jobim também está fora de catálogo. Escolha um você mesmo e não arrependerás.

A carta entregue na velhice

Quando li a trilogia da crucificação encarnada, de Henry Miller, fui atraído para a obra de Knut Hamsum. Principalmente para o romance Um vagabundo toca em surdina (há edição nova pela Itatiaia), que tem uma poeticidade extraordinária, e que influenciou não só Sexus, Plexus, e Nexus, mas quase a totalidade de obra de Henry Miller. Antes, tinha lido Fome, na bela tradução da coleção Nobel, por Carlos Drummond de Andrade. Hoje, ao pegar o livro, saltou na minha frente este parágrafo:

"Quando chega a velhice, deixamos de viver o presente e passamos a viver de recordações. Chegamos como uma carta ao seu destino; deixamos de ter caminho a percorrer. Resta-nos, unicamente, saber se a nossa passagem pelo mundo desencadeou turbilhões de penas e alegrias, ou se a nossa vida nos deixou uma única sensação."

Tenho medo de já estar ficando velho, pois a todo instante alguma sensação do passado quer sobrepujar sobre os turbilhões que preciso viver no presente.
Talvez ainda não esteja tão velho, pois o mesmo Knut Hamsum, no mesmo romance, diz que "a gente velha se lembra das datas". E quase me esqueço das datas do dia anterior.

Alguma manobra temos de engendrar para enganar a velhice, não deixar que ela bloqueie o caminho a percorrer. A manobra, para continuar o pensamento do romancista norueguês, consiste em continuarmos a escrever a carta para que seja encaminhada ao seu destino o quanto mais tarde possível. Pois, se dizemos: cumpri a minha missão; assumimos que a carta foi entregue. A manobra, portanto, é não esclerosarmos o pensamento, as relações, a nossa realidade.

Ainda noutro dia eu brincava com a minha neta e suas amigas: gosto de vocês. Pois com as pessoas velhas é só colesterol, catarata, diabete...

E para vencermos a catarata, o colesterol, a Lejânia Bello me ajuda com seu pensamento: "para isso há de ser criativo... ousar... desafiar..." Desafiar os próprios limites da esclerose, da catarata, do diabetes. Ainda recentemente visitei um casal muito idoso, que teve uma participação importante em minha vida — que não cabe aqui relatar. Ele resistia com a carta na mão — falou sobre política, puxou relembranças, mostrou-me detalhes do seu ambiente. Quanto a ela — não podia mais ousar. E não queria assumir isso, pois, apesar de "poder", ela não levantava o rosto para ninguém. Naquele instante eu reconheci que ela entregou a sua carta. E eu fui um dos destinatário de boa parte de seu conteúdo.

Já que será inevitável a entrega da carta ao seu destino, que até lá — com todas as manobras que consigamos tecer — possamos entregar um conteúdo que nos torne digno de poder abaixar a cabeça. O seu conteúdo terá de interferir de forma ferina na nossa descendência. Nossos descententes compreenderão que aquele que abriu as estradas de seus destinos, dando a própria estrada que percorria, pode abaixar a cabeça, sem humilhação, para refletir e descansar. E não desejarão arrancar de nós novas forças.

Mas como eu pretendia apenas divulgar Knut Hamsum, transcrevo aqui o primeiro parágrafo do mesmo romances (Um vagabundo toca em surdina). Veja como os caminhos devem anunciar sempre um mundo renovado, mesmo quando nascem com novas cores de nossos pensamentos:

"O ano se anuncia bom para as frutas selvagens: amoras, mirtilos, uvas brancas. Não se pode, evidentemente, viver de pomos silvestres, mas a sua presença empresta ao bosque um ar festivo. E quantas vezes nos refrescam a sede e nos matam a fome."
"Foi no que ontem pensei
."

setembro 10, 2006

Eu, Fernando Mendes Viana e o coração



E Fernando Mendes Vianna enaltecerá sempre o coração:

CANÇÃO DO CORAÇÃO

Coração, cavalo verde
Com espumas, vento e mar.
Coração, cavalo verde,
teu galope é navegar.

De esmeralda, este cavalo
me conduz até o gral.
Meu destino é galopá-lo
e desvendar o animal.

Ó cavalo da esperança,
que ânsias na sua crina!
Que importa se ele me cansa:
galopá-lo é minha sina.

Coração, cavalo verde
com espumas, vento e mar,
coração, cavalo verde,
teu galope é navegar.

Pequena lembrança de Fernandes Mendes Vianna

Se eu e Ronaldo Costa Fernandes soubéssemos que não mais teríamos oportunidade de voltar a encontrá-lo, não ficaríamos ali estáticos na Livraria Cultura, no sábado que antecedeu ao seu falecimento, fazendo promessas de marcar encontro com o amigo Fernando Mendes Vianna.

Antes, em 4 de setembro, ao ir à Feira do Livro de Brasília para o lançamento do livro Meninos, eu li, de Alan Viggiano, ele me abraçou com o afeto dos grandes poetas.

No dia seguinte, à noite, ele telefonou para a minha casa para expressar a satisfação de ter conhecido a poesia do meu livro Ruínas ao sol, que Tânia, carinhosamente, tinha lido para ele, já que nos últimos tempos padecia do agravamento da deficiência visual. Fez questão de dizer, no entanto, que o problema não o estava afetando, pois aproveitava para ter outras experiências com a vida. Falou uns vinte minutos. Foram os minutos mais elogiosos que a minha poesia já mereceu. E estes minutos mais se prolongaram, pois, em seguida, ligou para Ronaldo Costa Fernandes e continuou o enaltecimento ao nosso livro.

Fico com a frustração de ele nunca ter escrito uma resenha sobre algum livro meu. Quando lancei Caderno de desapontamentos — em um de nossos encontros, ele buscou em todos os bolsos do paletó uma resenha que teria preparado para esse livro. Citou essa resenha — talvez imaginária — em vários de nossos encontros. E agora lamento também nunca ter escrito nada sobre a sua poesia. Talvez meu inconsciente julgasse que eu nada pudesse acrescentar para a consagração de uma poesia já amiga e dileta de tantos críticos importantes, tais como Walmir Ayala, Moacyr Felix e José Guilherme Merquior.

Na noite de 10 de setembro, depois de um telefonema de João Carlos Taveira, a perda do amigo, a perda do poeta, a perda do animador dos encontros de escritores — seja na Associação Nacional de Escritores, nos lançamentos ou nas residências dos amigos — dói no meu coração. A literatura de Brasília perde um dos seus fundadores! E um dos seus animadores. A poetisa Cristina Bastos, no dia do sepultamento (11 de setembro) ainda lembrava que, “se a festa estivesse desanimada, era só chamar o Fernando que ela ficava boa”. E as novas gerações de escritores do Centro-Oeste perdem um incentivador, pois Fernando Mendes Viana sentia prazer em conhecer uma poesia nova e em conviver com os novos poetas.

Fernando Mendes Vianna, que foi acometido de um infarto após tomar o café da manhã e voltar para o seu escritório de poeta (foi encontrado às 10 horas, já sem vida, na poltrona em que habitualmente escrevia e fazia suas reflexões), começou a publicar em 1958, e seu último livro, A Rosa Anfractuosa (Brasília: Thesaurus) é de 2004. Sua poesia foi duas vezes premiada pelo Instituto Nacional do livro. E sei que permanece inédita grande parte de sua produção, sobretudo os poemas de maior densidade erótica. Em diversas ocasiões ele me disse que tinha dificuldade para selecionar os poemas que comporiam o novo livro. A sua poesia é clássica, fundada no rigor da métrica e da metáfora limpa, destes textos que mantêm viva a língua da tradição.

Será sempre lembrado pelas palestras repletas de digressões, pelas intervenções intermináveis nas palestras dos amigos e pelos recitais perfeitos, em que era presença obrigatória o poema “Canção do coração” —, e eles foram realizados em diversos lugares de Brasília. Hotel Nacional, bares, livrarias… Numa das últimas Terças Literárias promovidas pela Associação Nacional de Escritores, em que foi expositor, homenageou a poesia do amigo Anderson Braga Horta. Como faltou luz no dia, a palestra se realizou na sala de recepção da entidade, com os convidados em volta de Fernando Mendes Viana. O palco foi perfeito para a exposição entrecortada de informações, de que ele era mestre. A Tânia ficou à flor da pele, pois, em duas horas de conversa, o Fernando ainda não tinha entrado na poesia do Anderson. Mas as suas digressões nunca eram inúteis, se permeadas de história, filosofia, metapoética e experiência pessoal.

Agora eu lamento ter provocado apenas “um” encontro com ele em minha casa. Todos os meus familiares tinham viajado. Só nós dois ficamos na casa. Até de madrugada ele sustentou conversa útil, repassando as suas experiências com a poesia e com a cultura da Espanha, já que morou dois anos naquele país. Eu deveria ter amanhecido haurindo de sua experiência, de seu conhecimento e inteligência, pois, depois que deitei, pude notar que ele circulava pela casa com dificuldade para dormir. Certamente a poesia o mantivesse animado. Ou alguma ausência de mulher.

Era grande amigo de José Godoy Garcia — e nunca provoquei um encontro entre os dois poetas em minha casa. Talvez evitasse estar com os dois num mesmo encontro — pois não sobraria nenhum vácuo na conversa para eu me expressar. Eram donos de diálogo sábio, agitado e cordial. Agora — eu que já não tenho a companhia do Godoy há cinco anos — terei de passar as minhas noites em branco sem a oportunidade de novo encontro em minha casa com Fernando Mendes Viana, para que ele circule insone na madrugada, imantado pelos chamamentos da poesia.

setembro 02, 2006

Lançamento do livro Ruínas ao Sol


Agradeço a todos que estiveram na Feira do Livro de Brasília para o lançamento do meu livro Ruínas ao Sol, ou que contribuiram na viabilização do livro e na divulgação do evento.
Ainda recentemente, num café com o poeta e romancista Ronaldo Costa Fernandes — amigo especial que está de aniversário —, ele me dizia que se existir um leitor numa cidade, as autoridades dessa cidade tem a obrigação de manter uma biblioteca.
Eu também posso dizer que, enquanto tiver "um" leitor amigo que nos incentive e nos faça companhia na festa de um livro, ainda compensa continuar escrevendo poesia —, ainda tenho a obrigação de continuar buscando novos caminhos para a linguagem poética.
A poesia não tem compromisso só com a emoção, ou com a comunicabilidade imediata com os leitores. Assim como as ruas e as casas precisam dos jardins e de novas mãos de tinta, a língua precisa da tintura da poesia para ampliar as suas vestimentas de beleza. Manoel de Barros diz que a poesia é como a minhoca que dá fertilidade ao solo da língua. Assim, entendo que o poeta tem de continuar a sua missão, mesmo que essa missão pareça a de um louco que fique dando cabeçadas "numa parede calosa e muda", como digo num poema inédito, que sairá no Safra Quebrada, meu próximo livro — será editado até o início do próximo ano em comemoração dos 25 anos de edição de A Moenda dos Dias, nosso primeiro livro.

A POESIA, PARA MIM É UMA MISSÃO COMO A DO FAROLEIRO, DO FERREIRO, DO ESTUDANTE... E UMA MISSÃO PRAZEIROSA, pois sempre somos surpreendidos com construções que julgávamos impossíveis.

E até o lançamento do SAFRA QUEBRADA!!!!!

Foto: apareço com o amigo Wil Prado.





Aqui aparecem comigo amigos especiais:

1)Ronaldo Cagiano e Rosangela Vieira Rocha

2)Robson Araújo e Herondes Cézar (a quem o livro também é dedicado);

3) e Fábio Coutinho.

Aqui está a família.
Acima: no primeiro plano, o César; sentados, aparecem a nora Geiliana, o Rui, que já é da família, a Francisca (minha esposa), e a Maria Antônia (nossa Toinha). A Lídia e a Carol deviam estar nessa foto, mas ficaram em casa se preparando para o dia de escola seguinte.
No meio, a neta Maria Clara.
Abaixo: a minha neta Laura Beatriz e sua amiga Izabela.

Aqui aparecem muitos amigos pessoais.
Acima: o Arthur, depois de mim aparece seu pai Ronaldo Alexandre, compadre, a quem o livro é dedicado, em seguida vem meu afilhado Diogo Alexandre e a sua namorada Raquel — neta do poeta Augusto de Campos.

No meio: são meus leitores da quadra. Tomaram o ônibus sozinhos e foram ao meu lançamento. Só esse gesto justifica ter feito o livro. A Larissa, a Ludmila (que estava de aniversário) e o Albert. Bjões procês.

Abaixo: a valentia da Assessoria Parlamentar do Ministério do Trabalho. A Kathiane, o assessor Sílvio Arthur Pereira, a Lili, nossa adjunta, a Noelma e sua filha Natália.