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Giorgio Caproni

Algumas publicações não podem passar desapercebidas. E uma delas é o livro da UFSC "A coisa perdida", que traz a poesia do italiano Giorgio Caproni e o estudo de Agmbem sobre o poeta. É uma poesia enxuta, necessária. Reserve logo o seu exemplar.

 Dois poemas:

Lembrança

     Lembro uma igreja antiga,
ermida,
na hora em que o ar se alaranja
e cada voz se greta
sob a arcada do céu.

    Estavas fatigada,
e sentamo-nos num degrau:
nós dois mendigos.

    No entanto o sangue fervia
de maravilha, ao ver
cada ave mudar-se em estrela
no céu.

Tudo

     Queimaram tudo.
A igreja. A escola.
O município.

                  Tudo.

     Até a relva.

                     Até,
com o campo-santo, a fumaça
tênue da chaminé
da fornalha.

                            Ilesa,
alvorece apenas a areia
e a água: a água que treme
à minha voz, e espelha
a esqualidez de um grito
sem nascedouro.

                            A gente
não sabe mais onde fica.

     Queimada também a tasca.

Também o ônibus.

                             Tudo.

     Não resta sequer o luto,
no cinza, a esperar a parva
(inexistete) palavra.

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