1 de maio de 2019

Jorge Luis Borges

Manuscrito encontrado num livro de Joseph Conrad

Nas trêmulas terras que exalam o verão,
o dia é invisível de puro branco.  O dia
é uma estria crual numa gelosia,
um fulgor nas costas e uma febre na paisagem.
Mas a antiga noite é profunda como um jarro
de água côncava. A água se abre para infinitos rastros,
e em ociosas canoas, de cara para as estrelas,
o homem calcula o vago tempo com o cigarro.
A fumaça apaga cinzentas as constelações
remotas. Logo perde pré-história e nome.
O mundo não passa de umas quantas imprecisões.
O rio, o primeiro rio. O homem, o primeiro homem.

Tradução: Salomão Sousa

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Salomão Sousa sente-se honrado com a visita e o comentário

https://www.blogger.com/blog/post/edit/4843398825678420679/452811239808696688

Uma leitura de Robert Walser

Comecei antes do Natal de 2025 a leitura do pequeno livro "Jakob von Gunten", do suiço Robert Walser, escritor admirado por grande...