12 de janeiro de 2014

Resenha no Jornal Opção

Sutis palavras
“Das Palavras”, de Itamar Pires Ribeiro, é um livro de rara sabedoria, recarregado com a eterna sutileza da lírica, um divisor de águas na poesia goiana no universo pós-gótico, pós-Pio Vargas
Arquivo pessoal
Itamar Pires Ribeiro, autor do livro “Das Palavras”, prêmio Bolsa de Publicações
Cora Coralina
Salomão Sousa
Especial para o Jornal Opção
Determinados livros existem e, às vezes, temos de circular anos a fio até nos encontrarmos com eles. Circulei mais de 13 anos antes de me encontrar com o livro “Das Palavras”, de Itamar Pires Ribeiro, editado em 2000 após receber o prêmio Bolsa de Publicações Cora Coralina 1999. Durante a leitura, depois de encontrá-lo, eu saí emocionado de muitas de suas passagens, dos ritornelos de seus versos, que se repetem e repetem palavras:
“Não suponhas que as rochas te ouçam
esculpe a estátua, e continuará a ser rocha
acrescida de sonho e trabalho humano, rocha”.

Se Edival Lourenço faz premonições sobre a velocidade que o homem moderno vai assumindo na modernidade, a poesia de Itamar Pires Ribeiro, neste livro, se dá com serenidade, quase um cântico, quase um salmo em cada poema. É um diálogo amoroso do autor com o leitor e consigo mesmo. Basta ler a confissão da própria metapoética que Itamar faz da própria trajetória poética, que está no poema “As palavras — XVI”: 
“Se duendes, fadas,
deuses e demônios,
velhos mitos arcanos
infestam teu poema
arranca-os, arranca-os à faca,
joga fora as velhas tolices e vê:
tuas palavras vêm de onde vem tua semente,...
tua classe e teu tempo (...)”.

O poeta alastra em si o abandono de uma linha gótica que imperava na poesia goiana para irrigar-se com palavras humanas, que tornam este mundo real, rocha e lírio.

Neste livro, saiu enriquecida a poesia de Itamar Pires Ribeiro ao renunciar à poesia gótica, que conhecemos no “Livro de Heitor”, de 1990. Depreendemos que “Das Palavras” foi construído com espontaneidade num momento de iluminação. Das iluminações que construíram as “Elegias de Duíno” e alguns cantos de Friedrich Hölderlin. As iluminações permitem fraquezas, vazios, até mesmo incongruências construtivas. De repente uma vírgula faltou num verso que irá se repetir mais adiante, com a vírgula.

E não é só um livro carregado de questionamentos espontâneos, mas de construções de ágeis arranjos. Não aparecem rimas explícitas, versos escandidos, mas presente um constante andamento sem obstruções. É o que é a poesia. Cheio de referências, pois todo bom poeta é bom leitor. Shakespeare, na reconstrução “Resta o silêncio”. Konstantinos Kaváfis, na citação dos bárbaros. Carlos Drummond, na reconstrução da pedra no meio do caminho com a repetição exaustiva do verso “as coisas são mais obstinadas”, num poema de bela plasticidade e conteúdo.

As palavras, na construção do poeta, progridem de uma inutilidade para intervir nas coisas, com as rochas e lírios fluindo independente do homem e das palavras, para desaguar na necessária utilidade do cântico, onde as palavras, já organizadas, interferem no mundo. “Por teu cântico tudo se move”. Intervenção num crescendo:
“Todas as falas humanas,
todas elas entrelaçadas
um sutil instrumento que nos anuncia”.

Livro de rara sabedoria — acredito que divisor de águas na poesia goiana no universo pós-gótico, pós-Pio Vargas —, pois recarregado com a eterna sutileza da lírica, “Das Palavras” merece palco maior com reedição criteriosa, bem revista. Tirar algum “hão” para dar clareza ao sujeito da oração, algum verso com maiúsculas após vírgula ou algum imperativo “grita” sem a vírgula que o antecede. Detalhes que não prejudicam, mas que, numa nova edição esmerada, acrescerá limpeza e credibilidade a uma poesia que já merece todo crédito. Qual o próximo livro que me espera?
Salomão Sousa é escritor e crítico literário.

11 de janeiro de 2014

Leo Barbosa






Salomão, li seu livro "Vagem de vidro". Impressionado com o manejo seguro da palavra que você possui. Sua poesia é dotada de precisão. As palavras soam fortes e você faz uso de recursos pouco comuns na maioria dos poetas, o que te confere uma voz muito peculiar, ainda que, naturalmente, carregue traços de clássica expressão.
Fiquei estupefato ao ler um pouco da sua história, do quanto você perseverou diante de tantos obstáculos e da sua itinerância. Diante desse farto material de vida, sua poesia não poderia ter motivação maior. Por isso que você é um poeta de fôlego.
Tua poesia também se mostra muito madura porque passeia por pelo viés crítico-político-social sem soar piegas, o que é extremamente difícil de ser feito. A linguagem seca, que tem como ambiente o rural/campestre é um tanto semelhante ao João Cabral de Melo Neto, mas você consegue ser mais sensível, sem se mostrar exacerbadamente cerebral. Isso é bom. Quer dizer que você se entrega à poesia sem cair nas sedutoras esparrelas do verso as quais somos comumente conduzidos quando escrevemos em primeira pessoa.
Na sua poesia não há lugar-comum e linguagem e cenário formam um simbiose bem realizada.
Lendo o outro volume, o “Safra quebrada”, é nítida a necessidade que havemos de ter em revisitar sua poesia. Não são herméticas, mas nos chamam a releituras porque as metáforas possuem a multiplicidade de sentidos que não cedem a uma facilidade pueril cometida por tantos poetas contemporâneos. É preciso calma para passear em seus versos. Você é exigente, então seu leitor também deve ser para que possa assimilar suas construções sintático-semânticas e filosóficas, a exemplo deste verso de “Inquietude”: “Inquietante é quem pune/ ávido por cometer o crime” ou “Somos desconhecidas brenhas/ de onde sai a fonte limpa/ Malditas luzes para esclarecer/ aquilo que já somos puros”.
Sua poesia areja a seara poética contemporânea, que, em sua maioria, quando não está carente de referências, perde-se em uma torre de babel de estilos e formas. Eis o seu mérito: de não estar em nenhuma dessas tendências.

(*) Leo Barbosa, professor e poeta, autor de “Lutos Diários” (Ed. Patuá, SP, 2013), dentre outros, é colunista do Correio da Paraíba (escritorleobarbosa@hotmail.com). Poeta novíssimo, com voz fortíssima. Asseguro que, se progredir dentro da linguagem que praticou nos dois livros que tive acesso, certamente será um dos poetas que irá nortear o futuro na poesia brasileira. Para quem está com 25 e poucos anos, tempo ele tem para isso. Agradeço de coração a leitura que ele fez de meu livro. É uma impressão de quem domina a compreensão da poesia e seu fazer.

A poesia de Antonio Moura



Para descobrir o que se produz de poesia no Brasil nos últimos anos, é necessário olhar para outras fronteiras; e, acima de tudo, indagar o que se espera da poesia no momento em que a questiona. Não adianta questioná-la esperando que ela seja construída com fluência idêntica a de outras épocas. Cada poeta flui a poesia do seu próprio tempo. Se alguma idiossincrasia é notada na poesia de alguma época – que pode ser a época atual − é porque no homem presente existe a prática de alguma idiossincrasia a ser captada.
Do Norte, chega a contribuição de Antonio Moura. Poeta pronto, de fazer inveja. Se alguma postura for exigida da poesia brasileira vindoura, não há dúvida de que a poesia do futuro é a que Antonio Moura constrói agora. Nela não há idiossincrasias, rasgos ou manchas que a macule.
O livro “A sombra da ausência”, de 2009, pela Lume Editor, é um milagre na poesia brasileira produzida recentemente. Não é à toa que Antonio Moura, que iniciou na poesia em 1996, com o livro “Dez”, vem merecendo acolhida em outras línguas. “Rio silêncio”, de 2004, seu terceiro livro, além de traduzido para o inglês por Stepan Tobler, acaba de ser saudado pela revista Tride Magazine. Ele informa que, além de estar prevista a publicação de novo título para breve, também está programada uma seleção de sua produção para este ano numa edição em catalão, com tradução de Joan Navarro, com título já definido como “Após o dilúvio e outros poemas”. Além de estar sendo traduzido para o espanhol por Victor Sosa, poeta já lançado no Brasil e que merece ser re-conhecido.
             Os dois primeiros livros de Antonio Moura, o segundo, “Hong Kong & outros poemas”, de 1999 – com experiência de desconstrução e de efeitos de visualidade – contribuíram para a descoberta de um verso de rara construção interna. São estas as qualidades que devem ser aguardadas e exigidas da poesia atual (e já pronunciadas nos poemas de Antonio Moura): fuga ao simples colorido do real, abandono confessional da lírica amorosa, ou das óbvias partições das palavras. Se do paraense Antonio Moura fosse exigida conexão da poesia com a natureza que o cerca, não teria existido essa possibilidade de uma poesia realizada com raras invenções. Em qualquer territorialidade, a poesia tem de ser buscada não pela natureza local, mas num somatório de experiências do habitat e dos extratos externos. Talvez a circulação de Antonio Moura por outras territorialidades tenha agregado a universalização à sua poesia.
            Após o mundo transitar pela alteração da visualidade urbana, com seus neons, designs que interferem da sala de estar ao lavabo, com a natureza empurrada para distâncias inalcançáveis, a poesia herdou novas flexões. A construção em si mesma, com a pureza do que o tema se propõe, com acúmulo de referências e de possibilidades de transgressões do significado. Um evoluir, versos que num instante quase se conclui a não exauriu a totalidade das imagens ligadas às anteriores.  A possibilidade d’o canto que sai da sombra do pássaro, numa sombra que deve ser o próprio poema, pois este, ao se mistificar em palavra, não incorpora fisicamente nenhum real, mas sua ausência na luz do significado.  
Se algo aproxima a poesia de Antonio Moura à de Drummond é o sentimento do mundo. Independente da territorialidade, que está acima do mineral no Pará, mas líquida, ela transparece o sentimento do mundo construtivamente em cada verso enquanto viagem, interlocução com o homem, diálogo com a interpretação mística. Assim como muitos poemas de Drummond, também muitos de Antonio Moura certamente integrarão o cânone da poesia brasileira. Este do fruto, com a plasticidade do “o” oval de fruto, com sua ontologia:

          O
fruto sobre a relva está ali,
esplêndido – rei – dourado.

Mas, ao apanhá-lo, como tudo,
tem – podre – o outro lado.

Ao contrário do que se ensina aos estudantes nalgumas localidades do Brasil, a lírica de Antonio Moura abole o outro que poderia estar em frente ao poema construído. Veja-se o poema “Heloisa, 1963 – 1977”, que pode ser uma namorada, uma prostituta, uma amizade, um fruto. Não há um referencial. Talvez uma árvore paraense. O primeiro verso pode remeter a qualquer separação: “Não demorou muito a separação”, que irá se repetir como penúltimo, após intercalar “aroma” e “pétalas, pálpebras/caem e reúnem-se ao chão”, para a grande chave: “Entre o Céu e a Terra, a reconciliação”. Engana-se aquele que julga que a lírica é a volição do eu enquanto presença do outro. A lírica é volição do eu enquanto presença no mundo. Se há volição com o outro é porque este outro é parte integrante da territorialidade mítica do mundo.
            “A sombra da ausência”, em que pese a multiplicidade dos temas, das localidades em que os poemas se constroem ou são construídos, sustenta unidade, na cautelosa construção, que não são arrancadas com artificialidade, mas espontaneamente encontradas na imagética do autor. Sem loucura, pois na poesia não é o poeta que deve ser louco, mas as palavras que devem sair ensandecidas de suas mãos. É um dos raros poetas que segue pela cartilha de João Cabral de Melo Neto: construir até não existir vácuo a ser preenchido, ou notado como falha. Até onde poderia reconhecer alguma incompletude, os versos ainda assim carregam a sua funcionalidade. No poema inicial, que dá título ao livro, dos versos finais (O céu se ensombra, o azul fica./Em alguma dobra das pálpebras/da íris/dos cílios, sua luz habita) podiam ser retirados os artigos. O poema ganharia em maior profundidade sem a nomeação da presença do eu (a luz fica. Em alguma dobra de pálpebra/de íris/de cílios).
Se aqui se silencia sobre a perfeição do livro “Rio silêncio” é para não exceder na regalia ao autor de uma poesia já com tanta gala!
            Qual o próximo livro me aguarda para Sherazade soprar em meus ouvidos?

@ Salomão Sousa

7 de janeiro de 2014

Preâmbulo homérico


        

Venho do horizonte das aventuras, sereias
a percutir o canto nas fábulas do vento. Venho
das batalhas, aprendiz de ser civil, de ser livre.
Desembarco na linha do tempo,
onde convoco para o chat a filha de Zeus,
frequente nas mãos de Rilke, de Dante,
em Jorge de Lima e sua invenção
já inventada em Quasimodo. Invoco-a
de súbito para a tertúlia dos falidos,
dos inválidos da noite do entendimento.
          Advirto-a. Não são as sereias e seu canto,
mas estampidos, mas nos ouvidos 
os roncos de arranques, de rotações,
arrotos de bêbados e de parceiras bêbadas.
Se ouvires, não é a chuva.
É o sexo público aguado nos capôs.
          Invoco-a para a travessia do portal,
território virtual onde a história
não passa de civilidade extinta,
de perdida textura de terra,
anúncios de desânimo, destroços,
frescuras de nádegas expostas.
Cada qual com a advertência na janela. 
Trago o bornal vazio das efígies dos Césares,
dos Bórgias, dos Aquiles temíveis.
Se faraó da linha do Nilo, se estampa frigia,
sigo retangular, compartilhado
em toques frios na impessoalidade do plasma.
Advirto a esta amada filha das aventuras.
Sou apenas o espartano degolado!
Só o alexandrino encartado numa mensagem
a percutir os ossos na energia perecível.
Inútil para ressoar num cobre de zinabre ancestral,
fútil para afirmar que a vida existe.
Filha imperecível de Zeus, se é o que nos resta,
que o canto se valha dos arrotos,
dos arranques, dos megatons dos grunhidos.

Deusa, puxa o plug se é para a sereia
ausentar o canto da linha de meu tempo.

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Experiência e preocupação políticas

O tempo ficou curto. Será que ainda dá tempo de firmamos uma consciência sobre a ação política que precisamos? A compreensão da política exi...