31 de janeiro de 2023

Filme Tár

Levei meus netos ao cinema para assistirmos ao filme Tár (o título talvez remeta ao cineasta Béla Tarr), que concorre ao Oscar em várias categorias. Por diversas razões, fui atraído ao cinema. A personagem é esquizofrênica, é maestro, a música é de Mahler, e o roteiro não é trivial. Num primeiro momento, o filme certamente terá sido cansativo para meus netos (12 e 15 anos), pois na primeira hora o roteiro inclui cenas paradas muito longas dedicadas a debater o cotidiano dos personagens, além de inclusão de assuntos muito sutis sobre o universo da música sinfônica (clássica). Esses diálogos serão bem ásperos para o expectador que não for íntimo da história da música sinfônica. Acredito que alguns diálogos são bem dispensáveis até mesmo para redução do tempo de duração do filme (quase três horas). Depois de uma hora, o filme passa incluir tensão psicológica, sem nenhum obviedade até o final, que avançam para questionamentos bem atuais (lesbianismo, assédio, convicções autoritárias de comportamento social), com consequências bem amargas. Eu retornaria ao cinema, mas chegaria uma hora atrasado. Mas recomendo, sugerindo inclusive que as pessoas ouçam antes a Quinta Sinfonia, de Mahler, e o Concerto para Violoncelo, de Elgar. Há referências bem marcantes sobre Marlon Brando e Karajan, que muitos expectadores certamente sairão boiando da sala de cinema. É uma obra de referências, necessárias, senão o interesse pela cultura só irá se arrefecendo. Não me arrependo de ter levado meus netos. O de 15 anos gostou da tensão dramática. Eu também, somando-se, é claro, as referências culturais sutis,

que não serão alcançadas pelo expectador não afeito ao universo cultural. 

15 de janeiro de 2023

A desconstrução pela alteridade

Como seria se eu estivesse do outro lado?
Qual seria o meu prazer
em quebrar o relógio do tempo,
furar uma pintura de Di Cavalcanti
ou defecar num pequeno monólito?

Por mais de quarenta anos eu fui íntimo de algumas das obras danificadas durante o ataque terrorista às sedes dos Três Poderes. Por inumeráveis vezes, para descanso ou para aguardar um amigo ou autoridade, sentei-me nas cadeiras de Oscar Niemeyer, tendo como vista de horizonte o jardim interno da Câmara dos Deputados com paredes de azulejos de Athos Bulcão. Por vezes, a água da chuva; por vezes, os jardineiros organizando as ramas. Eu, Marlan Rocha e Orlando Tejo discutindo a transposição do Rio São Francisco e a obra de Patativa do Assaré.

Edgar Morin diz que após a queda de Hitler, foi perdido o prazer de ter contato com a Poesia. E este é o meu desencanto. Como retomar o assento com um amigo que passou a estar enamorado do autoritarismo? Que, certamente, esteve a ponto de me denunciar por ter conhecimento para não me deixar encantar pela nova mercadoria do liberalismo (a mentira)? Para que eu me encante por alguém, os seus pensamentos precisam apresentar alguma jusante com os meus, como no Tao, onde as águas se encontram. Queiramos ou não, as águas vão dar no mesmo vale.

Carregamos mais angústia, nestes momentos, do que vontade de escrever e de retomar amizades que admirávamos e foram infestadas por algum vírus daninho. Um ator declarou à imprensa esse seu mesmo sentimento: um fascista não merece ser artista. Se eu me bandeasse para a loucura de domínio do poder pelo militarismo, esse seria o meu sentimento. Eu me sentiria indigno de ser artista, indigno inclusive de participar das entidades culturais. Iria me sentir indigno de ter amigos.

Nestes dias de estupefação política, revi alguns poemas e me ocupei com filmes europeus, sobretudo de Agnès Varda (essa intérprete das imagens de construção poética quando da abordagem do cotidiano). Agnès Varda é exemplar em demonstrar que não podemos nos deixar ser engolidos pela depressão. Sempre alcança uma alegria a partir do depoimento mais desagradável de um entrevistado ou do encontro com a derrota de um desvalido.

Ainda assim me assola o desânimo. Um vizinho retorna do QG, com o carro todo embandeirado e manifesta de forma deseducada o seu perfil fascista. Põe o som automotivo nas alturas para mostrar que não está preso e, em seu ponto de vista, para afirmar que a sua razão não foi abalada. Aquieto-me, pois num clima similar ao hitlerismo-stalinismo, podemos ser atingidos como ocorreu com os prédios dos Três Poderes.

A poeta Kamilly Barros me envia uma mensagem animadora.

Apesar dos ataques dos que não têm o fair play, ele (o ano de 2023) será vermelho-esperança. (...) E que haja muita poesia em nossas vidas.

Digo-lhe que, no meio desse pandemônio em que estamos, a sua mensagem é brisa de bálsamo e que, certamente, vamos nos encontrar no decorrer desse ano. E fiz alguns questionamentos sobre minha leitura atual de Edgar Morin.

Só nos localizamos no mundo com indagações. O que é importante para mim, em que acreditar, em que pensar, onde eu estou, quem eu sou, são perguntas de Morin. Temos de fazer as nossas:


O lado do outro é meu lado?
O que desejo interessa ao desejo do outro?
O que faço é uma contribuição
para o processo de avanços da Civilização?
Será que ainda nos interessa sermos civilizados?

Morin adverte que “uma verdade parcial é suficiente para erros globais” e que “a verdade total é um erro total”. E assim temos de ficar com Popper: a razão é aquela que decidimos juntos, pois só a razão comum nos interessa. “Sigamos juntos, então, tu e eu”, como inicia o belo poema de Eliot.

Complemento as minhas dúvidas, que foram a razão desses rascunhos desconexos. O que adianta o conhecimento que adquiro se ele não contribui para construir a harmonia social ou o ordenamento político-social? O conhecimento fechado em si mesmo, que não participa, não faz nenhuma demolição, assim como não adianta uma força represada num músculo. Aquele que quer domínio, sempre procura rechaçar quem sabe. E quem está cego não compreende o processo e fica tão siderado com as verdades absorvidas através do massacre da mentira, que passa a se sentir num hospício, apesar de não desistir de julgar-se dono de todo espaço de poder. Passa a nos odiar com tamanha profundidade, mas, na impossibilidade jurídica de nos eliminar, sai de sua casa para vir urinar em nossa porta. (Sempre recorro a essa imagem forte, pois ela ocorreu de fato, apesar de eu não me encontrar em casa no instante da prática do ato.)

Quem sabe não pode se intimidar. É mais confortável adotar o silêncio, mas as ameaças são idênticas se adotamos o silêncio ou o pronunciamento. Pelo menos o pronunciamento gera alteridade. A alteridade é o confronto dos indivíduos, com suas dúvidas, suas realidades, de onde são sacadas descobertas e esclarecimentos. Com a alteridade, sentimos que não podemos sair por aí a sacar pedras e cobras e lagartos. Sendo assim, ainda que impere profunda animosidade ou risco, não podemos perder a disposição de participar do diálogo e do confronto crítico com o outro. A alteridade é um confronto sem armas. Um personagem infantil de Agnés Varda diz que gosta de pescar, mas sem pegar o peixe. Quem dialoga não se preocupa em impor, mas em encontrar.

A amiga Kamilly Barros complementa, destacando que o meu “sentido de Civilização é o cuidado com o outro, da atenção, da gentileza, é um bálsamo para mim (Kamilly), uma brisa, e para todos os que recebem esses gestos tão delicados e que repercutem dentro de si”. Para ela, as indagações de Morin são fundamentais, pois “nos levam a indagar se a Civilização não precisa estar pautada mais na alteridade do que no Poder, para conciliar desejos tão díspares e não nos machuquemos. Uma alteridade que nos sustente uns aos outros”.

Kamilly lembra que está na faculdade de filosofia fazendo estudos que “tratam da construção de si a partir do embate com o social”. Ela prossegue refletindo se os modelos atuais de Civilização não estão funcionando sem pensamento crítico e se eles não poderiam sem desconstruídos. Ao final de sua mensagem, ela conclui que alteridade tem de fazer parte dos modelos de Civilização para que possamos sentir que são as nossas criações que nos dão Poder.

Importante lembrar que a alteridade só pode ocorrer no embate de grupos divergentes para ser eficaz. Quando pensamos entre iguais, não reconstruímos o que pensamos, não desejamos que o outro participe do Poder e muito menos nos sentimos integrados no sentido de nacionalidade. Só o embate divergente desconstrói certezas infundadas que foram instaladas em nosso consciente. Ou, se nossos espasmos carregam certezas, esses serão acolhidos para construção de espaços comuns e pacíficos. Só indivíduos sadios − sem contaminações, que não partam de patrocínio de interesses setoriais − constroem democracias respeitadas e sadias. A democracia não é uma mercadoria exposta na vitrine a ser comprada com a cotação do dia ou que se imponha com cassetete.

8 de janeiro de 2023

O envenenamento político da nacionalidade

A vida, para existir, tem de se manifestar através da ação e do movimento. No entanto, os seres que se movem ficam expostos aos predadores.

Conscientizei-me sobre a questão do envenenamento político numa manhã em que me deslocava entre cidades de Brasília. Enquanto eu aguardava o ônibus, uma senhora chegou ágil à parada (até ágil demais para a idade que aparentava), ornada com uma roupa muito peculiar, daquelas que aparecem nas figuras femininas da pintura denominada Os comedores de batata, de Van Gogh. O vestido florido, rodado, rosa, limpo, com a touca ampla confeccionada com o mesmo tecido. Uma senhora digna de ser acolhida e amada. Para honrar o encontro, elogiei-a pela elegância. Mas, ato contínuo, ela respondeu que de nada adiantava apresentar-se com elegância, pois estava “envenenada”. Demorei a compreender a aspereza dolorida de sua resposta. Depois de muita conversa, ela confessou que o resultado das eleições presidenciais de 2022 acabara com a sua vontade de viver.



Ficou perigoso pensar não só sobre política. Ninguém quer ser confrontado nos seus pensamentos sobre religião, família, história do País, comportamento social, e até mesmo no próprio campo de minha atuação (a Literatura). Muitas vezes eu me surpreendo odiando o pensamento que outros emitem sobre essas questões. Não me resta outra alternativa senão reconhecer que é real a existência de um esquematizado programa de envenenamento da forma de compreender a sociedade e de pensar os seus destinos. Esse programático projeto de envenenamento da sociedade busca manter os indivíduos à margem da compreensão do seu real papel dentro da organização política do país. Por se ver à margem do processo, intoxicada pela desinformação, a senhora da parada de ônibus se encontra sem razão para viver.

Certa vez, fiz a anotação do aforismo, que serve de epígrafe a este texto, para ser aproveitado no momento em que viesse a escrever um poema ou um artigo. O poema nunca foi escrito e a amplitude do conteúdo da expressão de minha autoria continuou a me instigar sempre que reflito sobre as divergências que surgem quando os indivíduos manifestam seus interesses e conhecimentos. A expressão ganhou maior vigor quando passei a me expor nos momentos de apresentar interpretações sobre o processo político ou sobre outras áreas das atividades humanas, pois as reações são ameaçadoras para aqueles que analisam o vandalismo da ação política, numa demonstração de que o homem se transformou no predador do próprio semelhante.

Os predadores não ameaçam só cidadãos conscientes da real necessidade do ordenamento democrático, mas ficam de prontidão para destruir os espaços que asseguram e representam a democracia (tais como autonomia e sedes dos Poderes). Como odeiam o conhecimento, pois sabem que ele traz ordenamento, atuam para minar as estruturas da educação, das artes e da imprensa, com rede social livre para veiculação de mentiras. Os predadores políticos ficam de prontidão para hostilizar, intimidar e aniquilar o conhecimento e – o que é incompreensível e aterrorizante − sempre dispostos a eliminar, fisicamente, aqueles que mantém postura crítica divergente da linha oficializada através de táticas obscuras pelos ocupantes e defensores do poder autoritário (através de fake news e discursos desestabilizadores).

Inconformados com os desarranjos administrativos e com a incapacidade de obter conhecimento para compreender e estimular o ordenamento sociopolítico, aqueles que se alinham às correntes autoritárias passam a atribuir aos adversários a responsabilidade pelos próprios fracassos, sejam eles familiares, religiosos ou econômicos. Na maioria das vezes, os fracassos são fictícios e são armados por pregações conservadoras ultrapassadas, conforme orientação estimulada por especialistas estrangeiros (cite-se Steve Bennon) para atuação desestabilizadora da verdade. Os adversários − diante dessa fraqueza dos adeptos do autoritarismo em realizar seus desejos e em eliminar as frustrações daí adquiridas – passam a ser seus inimigos. Os envenenados incorporam uma verdade fictícia e, para defendê-la, colocam o próprio corpo em ação (e em risco para si e para o outro). Com essa carga de frustrações, os cidadãos despolitizados (veja-se o caso da senhora da parada de ônibus) passam a ser presas fáceis para se aprisionarem a um envenenamento político pelos setores econômicos e daqueles que se instalam no poder ou dele auferem benefícios. Se passam a viver envenenados, não podem ser contrariados por nenhum pensamento adverso daqueles bordões por eles incorporados. Não são mais cidadãos, mas zumbis depressivos, dispostos a ações descabidas e criminosas.

Nesse processo, o país passa a ser refém de propostas autoritárias ultrapassadas, com o chamamento do “estamento militar” para garantir à força o poder sob o argumento falacioso de que a democracia deve ser tutelada, conforme prega claramente o general da reserva Otávio Rêgo Barros em artigo publicado na Folha de S. Paulo, em 13.2.2023. Ele diz claramente que o “controle civil objetivo” dos militares passa pelo reconhecimento d”os interesses e necessidades do estamento militar”. Assim, o país vai convivendo eternamente sob a ameaça da tutela militar, pois a cadeia de “interesses e necessidades” nunca se esgota. Assim, todos vão colocando os interesses pessoais e de categorias acima da nacionalidade.

Enquanto a sociedade se debate no envenenamento instaurado por esse esquema obscuro, aqueles que pagam para manter a rede de envenenadores vive faustosamente à sombra do caos. E é nas sombras que eles riem de todos que se estertoram, comendo uns aos outros. É nas sombras que controlam e incitam os envenenados para depredar em nome de aproveitadores da riqueza nacional. Bem fazem as emas que se batem em fuga quando são ofertados a elas produtos da mentira. Poderíamos dizer que as emas têm mostrado bem mais sabedoria do que muitos humanos que não sabem reconhecer quando estão sendo passados para trás em seus direitos.

Podemos deduzir da manifestação da senhora da parada de ônibus (talvez emergida da pintura Os comedores de batata) que atua no país um processo maquiavélico de deterioração da política –, processo esse que passou a perder seus principais fundamentos (sobretudo o foco na administração) para centrar-se nos interesses de políticos profissionais, que existem só porque são bancados por grupos econômicos ou porque acharam extratos sociais dispostos a dar credibilidade aos seus discursos de ódio ou de pragmático conservadorismo. Esses discursos são falaciosos, pois não exigem nenhum compromisso de alteração de estruturas econômicas ou de realização de investimentos em infraestrutura e educação. É incompreensível que uma senhora, que nunca teve acesso à formação que lhe permitisse formar compreensão consciente sobre a organização do Estado, possa perder a razão de viver só porque essas camadas usaram canais aos quais ela tem acesso para deturpar a sua apreensão da organização da sociedade. É um esquema torpe, desumano, inspirado nos governos totalitários responsáveis pelas maiores tragédias da História, orientado por figuras nefastas como Steve Bennon.

Nunca o país teve um grupo (em atuação descarada), que não se ocupa em trabalhar pela coisa pública, mas em atender, com falsificação obscura, os interesses de grupos. Tão logo sobem ao parlatório, investe contra minorias. Tão logo fecha um negócio internacional, retorna ao país com as malas recheadas de joias.

Até homens de boa índole se deixam contagiar pela lábia das argumentações falsas e se juntam ao processo de derramamento de veneno. Ao engrossarem o caudal de envenenamento, os homens de boa índole, que compreendem a organização da política, só aumentam o caos que deixa a nacionalidade em risco. O caos arrasta e contamina todos. A História vai cobrar caro. Aqueles que se somam a esse processo serão desmascarados quando for retomada a normalidade. A ocupação do poder acontece de forma cíclica e os inimigos da democracia saem sempre carimbados como inimigos da Nação. É bom não tirar da consciência que a História carimba com tinta inapagável.

Lembro-me da manipulação do eleitorado pela elite tão logo foram convocadas eleições pelo governo que assumiu com o Golpe de 1964. Eu não tinha 15 anos, residente ainda em Silvânia (GO). Lembro-me de meu pai (analfabeto e sem direito a voto) ser convocado para trabalhar (sem remuneração) no comitê da ARENA. Ele sempre aparece na minha memória descarregando caminhões com dezenas de latas de querosene cheias de doce de leite. Eram dias de fartura paga pela elite para que a Ditadura não fosse reconhecida como tal, pois se escondia atrás de um falso manto democrático ao convocar e realizar as eleições contaminadas por hábeis legalidades forjadas. Eu mesmo ainda vivia alheio às maquinações voltadas para a manipulação dos interesses dos eleitores, sendo aqueles dias de fartura uma parte delas. Não enxergava que cada porção de alimento servida naqueles galpões integrava o sutil processo de compra de votos. O mesmo processo voltou a ser usado – velho e batido canto de sereias −, diante dos quartéis no ano de 2022. Só que em 2022 não era a compra de voto, mas a negação da validade do direito de votar.

A elite econômica continua a usar os mesmos artifícios empregados naquelas eleições do pós-Golpe de 1964 ao manter pessoas inocentes nos acampamentos para que seus interesses continuem assegurados. A elite, sobretudo oriunda dos proprietários de terra, não se desgarra do esforço para instaurar o poder autoritário que banque seus interesses, por mais que o processo das eleições esteja ultrapassado e proclamado, com realização e resultados reconhecidos por diversos organismos e nações como limpos e legais.

Então, é o caso de refletirmos: por que preferimos chegar ao ponto de desejarmos matar aquele que pensa diferente de nós, em vez de buscarmos refletir juntos para construção de uma razão comum? Karl Popper relembra que Robinson Crusoé, solitário em sua ilha, sempre terá razão em tudo que pensar, mas será contestado quando outro indivíduo instalar-se ao seu lado.

Retardei por meses o início da escritura desse raciocínio sobre a incompreensão, que beira à agressividade, das pessoas quanto à postura que adotam perante as questões políticas, religiosas, entre outras. As pessoas não se entendem quando se encontram fora de seus grupos. Há exemplo ao meu redor. Uma afilhada minha, ao fazer caminhada portando broche de um candidato, quase foi exterminada por dois jovens que a perseguiram até um local isolado de seu trajeto. Julgavam que ela não poderia diferir do direcionamento político deles.

O indivíduo não se conforma mais em divergir, mas passa a acreditar que tem direito de praticar a violência visando eliminar aquele que lhe opõe com outra postura de pensamento. Quando busca eliminá-lo, o espaço do predador não corre o risco de ser ocupado pelo oponente. Mas é importante ter vivo na memória que a Civilização se constrói com as experiências afirmativas obtidas pelo ato de agir e de pensar, que se mostrem favoráveis à melhor convivência social. Como bem lembra Harari, as Civilizações definem estruturas de poder, religião, produção de bens, educação, cultura e de uma infinidade de outras áreas, para que os homens possam viver em harmonia. Karl Popper esclarece que estas estruturas devem ser definidas pelo conjunto de todos os indivíduos, pois, se forem impostas por um líder, a voz de todos fica apagada pelo jugo do autoritarismo. Para Popper, não basta que a estrutura seja liberal, ela tem de ser também democrática, onde cada indivíduo participe e se beneficie das ações que emanam do poder.

O ódio

Foi oportuno que tenha acontecido o retardamento da redação deste texto com a abordagem dessas questões. Eu poderia ter sido pressionado pelo ódio em minhas argumentações. Faltava algum complemento que me levasse à compreensão dessa fúria que desorienta, enfeza, torna-o violento e até mesmo leva o indivíduo a se divertir com esta postura urgente e raivosa de vômito do ódio individual. O ódio não é mais só uma postura política, mas uma demonstração de uso da energia vital. Na impossibilidade de amar, de estar feliz por compartilhar o mundo ao lado do outro, pois, com a perda da conexão do ordenamento social, coube ao homem atual “odiar” para afirmar que existe.

Mas temos de reconhecer que só o ódio é insuficiente para validar a nossa presença no mundo. O ódio não é um sentimento destinado a ordenar o prazer de existir. O prazer de existir está no acesso aos bens da natureza, na produção de bens econômicos, no usufruto dos equipamentos públicos e dos arranjos de convivência social. A questão não é odiar, mas participar para que a política assuma a sua funcionalidade: trabalhar pela coisa pública e não pelos interesses partidários e garantia da amamentação de figuras públicas. Na afoiteza de avançar sobre o oponente com mecanismos autoritários, o ódio passa a gerar conflitos e crimes no seio da sociedade. Os resultados só poderão ser positivos se a política correr pelo caminho inverso. Se a ação política lança mão de mecanismos de participação, onde todos tenham o direito de serem incluídos na construção da razão (ver Popper), abre-se a possibilidade de convivência cordata, harmoniosa, todos podem festejar e conviver juntos.

O indivíduo não tem mais com que se ocupar para gastar a energia corporal – guerras, trabalho braçal, esportes que exijam esforço físico − e, então, passa a se divertir em desestruturar a sociedade. Poderíamos dizer que o indivíduo passou a ser inútil, pois só há utilidade em existir quando validamos a existência com o trabalho destinado à criação de espaços onde possamos nos sentir ajustados. O que assistimos são indivíduos desestruturando a compreensão das questões político-sociais e, quando não é efetiva a sua ação, monta acampamento diante do trânsito daqueles que se mantiveram íntegros no posicionamento de resistência às propostas autoritárias. Esse que se posta diante do trânsito não está defendendo a si mesmo. No afã de pôr a vida para existir, com ação e movimento em defesa de objetivos escusos, passa a ser o predador de indivíduos de sua própria nacionalidade, de sua própria comunidade e até da própria família, sem saber que está alimentando interesses de grupos obscuros, de difícil visibilidade.

Ao se encontrarem envenenados, os indivíduos passam a hostilizar as classes sociais desfavorecidas, culpando-as de quietismo, preguiça e desleixo, responsabilizando-as por se encontrarem na queda. Fica fácil a responsabilização dos pobres pela própria pobreza para limpar a culpa dos gestores pela inoperância. Inventam que defendem processos democráticos com tutela militar, inventam inimigos, disseminam até mortes fictícias para os líderes políticos que se opõem às suas teorias aterrorizantes, já que suas ações foram insuficientes para arredá-los do seu caminho. A morte do oponente se torna o último artifício para os envenenados. Têm consciência de que estão na contramão da legalidade e − como se fossem meninos birrentos − não tiram o pé da lama, se a ela se adaptou. Não aceitam ser contrariados em seus pensamentos e ainda criam terminologia para defenestrar os oponentes. Os envenenados são zumbis que ficam encarregados das descargas de mentiras de seus líderes obscuros. Alguns zumbis desfrutam do conforto de suas propriedades enquanto defendem a eliminação dos desfavorecidos. E a cantilena, para eles, deve ser validada a revelia de todo conhecimento que o Homem construiu com trabalho e batalhas em sua longa caminhada pela História para existência da Civilização.

As conexões de Kurosawa

O complemento que me faltava para compreensão desse processo de envenenamento social veio do filme Rashômon (lançado em 1950 e que levou o Oscar de filme estrangeiro de 1952), de Akira Kurosawa. Além de propor muitas outras questões pertinentes para debate do desconforto político/existencial desse tempo de caos administrativo, o filme serve de alerta para o clima de descrença com o processo político ao mostrar que fica insuportável confiar nos resultados das ações humanas quando elas fracassam (em todas as frentes) no atendimento dos anseios da sociedade. Em consequência, ao ficar sem atendimento, a sociedade também deteriora a forma de escolha e de defesa dos seus representantes. Pela voz de seus personagens, Kurosawa, ao abordar a descrença do homem com os desarranjos de seu tempo, sobretudo com a violência, enfatiza que, “se você é bonzinho, não pode sobreviver”, e, de forma ainda mais aterrorizante, que até “o demônio (acaba) fugindo da ferocidade do homem”. Podemos dizer o mesmo do quadro de descrença que ocorre nesses momentos de franca deterioração dos resultados do trabalho dos políticos e de seus gestores.

Diante dessa impossibilidade de acreditar que possam ser beneficiados pelas políticas públicas, tornou-se factível para os indivíduos intimidar e repudiar os opositores, renegando os atos humanos praticados tanto no passado quanto no presente e no futuro. E, julgando insuficiente essa conjectura, inventam situações que os opositores – hipoteticamente − poderão adotar para prejudicar a Nação. O homem passa a desacreditar no futuro da humanidade, tornando-se ele mesmo um ser enfurecido capaz de se envolver em crimes os mais hediondos. Extingue-se a crença que o ordenamento do processo político, pela democracia, possa ser favorável à nacionalidade. O envenenamento mata a confiança do indivíduo na política e transforma-o num depressivo social. Precisa haver esforços para reversão nessa compreensão, com grande estímulo à prática da alteridade – onde os cidadãos possam conviver com trocas de divergências. Isoladas em suas casas e em redes sociais (como Robinson Crusoé), cada pessoa se vê dona da razão disposta a eliminar o outro. Uma Civilização se constrói e se mantém viva através do choque de divergências e com escolhas que atendam e tranquilizem todos.

Ainda que a informática não fosse no seu tempo fator de formação do comportamento do homem, o cineasta Akira Kurosawa alcançou ser visionário na abordagem dessa perda de conexão dos indivíduos com as questões afirmativas da Humanidade. Por ser um crítico das consequências do pós-guerra para o mundo, que resultaram em deterioração da qualidade de vida e das razões para se ter esperança no futuro, quatro de seus filmes abordam os impactos dessas questões sobre as ações humanas. O filme Viver (1950) trata da perda da conexão do serviço público para atender as necessidades da sociedade. O filme Homem mau dorme bem (1960) questiona, impiedosamente, as consequências da corrupção. O filme O barba ruiva (1965) trata da desconexão da elite com os problemas das classes menos favorecidas, que ficam sem atendimento dos serviços públicos essenciais, mostrando a necessidade de o homem se reaproximar da realidade para compreender a importância do próprio trabalho; e, conforme mencionado anteriormente, o filme Rashômon, ou Às Portas do Inferno (título em português que deixou de ser adotado, pois rashômon virou expressão para definir a dificuldade de verificar a verdade de um fato).

Certamente, outros títulos de Kurosawa, de forma direta ou não, possam remeter a essa desconexão política com os arranjos sociais, como é o caso de Dersu Uzala (1975), que trata do ajuste da vida humana à natureza, ensinando que essa interação apresenta ao homem o sentimento de pertencer ao Planeta.

Julgamos oportuna a inclusão de um parágrafo para enfatizar que não fazemos filmes, poesia, artigos e reportagens só por divertimento, nem lemos poemas ou assistimos filmes só para ocupação lúdica, pois a obra de arte traz iluminações para que possamos despertar em nós o sentimento de validade da vida. Na arte, encontramos sinais que nos levam à compreensão de situações que muitas vezes nos assolam de forma tortuosa. O artista que se deixa envenenar pela deterioração política, assim participando do processo obscuro, enfraquece a própria obra e invalida a possibilidade de poder estar presente no processo crítico. Inclui-se no processo de desvanecimento das boas relações entre os indivíduos, com prejuízo até para a saúde das amizades.

Assustador ter à nossa frente a leitura que Kurosawa faz da corrupção no filme noir japonês Homem mau dorme bem. Aquele que trabalha na política só para si e seu grupo torna-se corrupto, deteriora não só o orçamento público, mas perde o pudor do próprio ato de existir, destruindo (ou eliminando a família) e pondo-se à disposição dos líderes venais, fazendo genuflexão diante deles como se estivessem incorporados de santidade. A corrupção vicia e alicia. Coloca a sociedade em conflito e, enquanto os indivíduos se odeiam por não compreender as razões do desordenamento das questões de Estado, a elite e seus representantes ficam livres para agir conforme seus interesses. Passam a boiada e vão dormir o sono como se fossem os justos.

Quanto ao filme Rashômon, nele Kurosawa nos mostra que a interpretação de um fato é montada de acordo com o interesse de cada parte envolvida − o que monta uma obscura verdade, já que cada um apresenta só o ângulo que lhe favoreça. E muitas vezes incide sombras sobre a verdade que o incrimine (sombras estas que podem conter sigilo de cem anos). A interpretação se agrava com a intimidação da parte que se vale da maldade e da mentira para validar seu posicionamento e justificar sua ação. O indivíduo que vai se adaptando a esse canal de interpretação, torna-se uma espécie de caranguejo, que só consegue viver no lamaçal e acha que não viverá se optar por outras possibilidades de ver a realidade e nela fazer-se presente. O indivíduo vira um zumbi, pois passa a existir sem independência, pois movido pelos cordéis manipulados pelos seus mandatários.

Pelos seus personagens, Kurosawa (há mais de setenta anos) profetizava esse sentimento de desconforto que leva as pessoas a não se compreenderem e a passarem a se hostilizar. “Não entendo nada. Não consigo entender.” Diante dessa incompreensão, os envenenados passam a ver todos à sua volta como bandidos, sem reconhecerem que foram forjados pelos seus líderes para serem instrumentos de eliminação de seus opositores. “E os bandidos caem sobre nós todas as noites.” Mesmo repletos de inconformismo, não podemos validar mentiras. Quem assina o laudo da mentira torna-se cúmplice daquele que dela se beneficia.

Temos de nos manter atentos de onde vem o veneno autoritário para dele nos imunizarmos e dele nos vermos livres. Estarmos atentos para o conteúdo das informações, pois só monta a mentira aquele que tem interesse em tirar vantagens ilícitas dela. Se tivermos de nos expormos, mantermo-nos alertas contra os predadores e os envenenadores. A inoperância e a subserviência, que é o que esperam de nós, deixam-nos expostos à derrota. Não há nenhuma atitude revolucionária (que é a ação de eliminar o desfavorecimento social) onde há gasto de energia para intimidar ou para torturar e provocar eliminação. Nesse caso, atuam apenas os interesses obscuros do elitismo criminoso (que não quer se desgrudar de suas benesses). O que ficou delimitado como Democracia é a garantia da permanência do processo crítico, que nos mantém vivos e livres e nos incentiva a promover realizações que favoreçam a todos. A depredação não traz lucro ao que paga pela quebradeira, ao que se omitiu para que ela ocorresse, nem ao que se vendeu para levá-la a afeito. Não podemos nos permitir sermos cegados pelo envenenamento para depredarmos os recursos de manter viva a democracia.

27 de dezembro de 2022

Alguma memória de minhas atividades literárias em 2022:

Comecei o ano de 2022 com este texto, que vale também para 2023:

Ler é a melhor maneira de avançarmos em nosso humanismo, com experiências emocionais, históricas e civilidade. Quem lê, vai se preocupar bem menos com armas e em chutar outro homem. Mereça o título de humano, leia. O rato não lê e não escreve.

Às vezes julgamos que não fizemos muito, quando vamos fazer o levantamento de nossas atividades ao final de um ano que termina. As paisagens são quase sempre as mesmas, os percevejos aparecem sempre nas mesmas árvores e nas mesmas camas. No entanto, o olhar refaz o ângulo e tudo parece que está em novas vagens. Não me espanta nem mesmo ter sido apagado pela Wikipédia sob o argumento de que se trata de “personalidade sem relevância” – dá o título de um livro de memórias. Sofri bastante com as ameaças totalitárias, mas resisti com angústia, pois o Brasil não merece a desonestidade de pessoas de boa índole, que passaram a apoiar a insanidade. Me perguntei sempre: amigos ficaram também insanos? Mas a poesia sempre me trazendo conforto... Perdi a minha mãe, o meu primo Sansão, que foi um dos raros amigos de minha infância, além de amigos, como Alan Vigiano. Mas mantenho a esperança nos novos tempos. Para que esses novos tempos floresçam, plantemos confiança, afeto e mãos empenhadas em participar da construção. Confiemos em nossa capacidade de contribuir para que os novos tempos correspondam à nossa esperança. Juntemos já as nossas mãos.

Participei das seguintes publicações:

1) Em agosto, no Jornal da ANE, publicação do meu artigo “Os pulmões cheios de Gás Lacrimogêneo”.

2) 2° número da Revista da Academia de Letras, Artes e História de Silvania (ALAHS), publicação de poemas de minha autoria.

3) Revista nº 7, da Academia de Letras do Brasil, publicação do meu artigo “Legado de resistência de Cecília Meireles”.

4) Já está pronta a antologia Brasilidade, do Coletivo de poetas, organizada por Menezes y Moraes, para lançamento na abertura de 2023. São três poemas de minha autoria.

5) Coletânea Poesia Salva, Salve Poesia!, organizada por Valter Silva, com três poemas de minha autoria.

6) Antologia Cena Poética 8, publicada em BH, organizada pelo amigo Rogério Salgado a oportunidade de participar da antologia com três poemas.

7) Antologia Tempos adversos, organizada pelo Celeiro Literário Brasiliense, com lançamento de gala. Brasília-DF, também com dois poemas.

8) Antologia Poemas e poetas na Ilha da Magia, pela editora Artecultural, Florianópolis, também com dois poemas.

9) 28. 6 – Circulou meu artigo Consciência e trapaça ou até quando Mr. Hide?, no site Jornal Opção, editado pelo amigo Euler Belém

10) Permiti a publicação integral de dois livros de crítica no Jornal de poesia, portal pioneiro de divulgação da literatura brasileira, com prioridade na crítica e na poesia. É uma honra participar desde o início desse projeto vitorioso, mantido heroicamente por Soares Feitosa.

Alguns eventos:

1) Na Live INSTAPOESIA, do Programa Cruzeiro em Letras, outorgou-me certificado por justa distinção literária. Agradeço ao Pietro Costa a homenagem.

2) Descobri que desde 2019, circula a terceira edição do histórico livro A Poesia em Goiás, de Gilberto Mendonça Teles. A primeira edição é de 1964 - eu ainda estava sendo alfabetizado. Só agora tive acesso à essa nova edição e pude notar que fui mencionado no novo prefácio preparado pelo autor. Notei um erro na edição: os autores mencionados no prefácio não estão relacionados no índice onomástico. Uma pena, pois as menções aos novos autores terão de ser localizadas no ato da leitura.

3) Na edição de fevereiro do Jornal da ANE, saiu a resenha de Sônia Elizabeth Nascimento Costa “As biografias espalhadas pelas páginas de Cascos e Caminhos”.

4) 12.4 - Leonardo de Magalhaens apresentou minha poesia no Youtube, belo estudo do meu livro Vagem de vidro. Gratidão eterna! O artigo está publicado no blog https://leoliteraturaescrita.blogspot.com/2022/03/vagem-de-vidro-poesia-adensada-de.html?m=1&fbclid=IwAR2GEHurcvUGP29uwq8A0F2uKo6v582-zdJ046qeqwm0Q4W66LfxBOdTSzw

“Assim um von Schiller, um von Goethe, um Victor-Hugo, um de Balzac, um Thomas Mann, um Hermann Hesse, um Drummond de Andrade, um João Cabral de Melo Neto, um Ferreira Gullar, um Antonio Miranda [1], grandes autores por serem grandes leitores, atentos e vorazes, e assim um Salomão Sousa, com vários títulos com sua autoria, desde final dos anos 1970. Vivendo entre livros, nos corredores de estantes e volumes convidativos, pronto para acessar letras e linguagens, outras épocas e universos./ Assim a obra Vagem de Vidro [2013] enquanto exemplo de leituras acumuladas, intertextualidade, metaliguagem em muita erudição. De faro, podemos adentrar os mundos da mitologia greco-romana, ou das narrativas bíblicas, com soberanos egípcios, ou reis babilônicos, e também poetas renascentistas, primeiras utopias, e até agências de espionagem. Eis aqui uma Obra a completar uma década e merecedora de uma leitura atenta./ Os temas sobre os quais se dedica os poemas densos de Vagem de vidro são os mais variados. As preocupações do Autor são muitas, desde a condição humana a metafísica, desde a vida rústica a correria nas cidades, desde as figuras mitológicas aos labirintos do dia-a-dia. Sem mencionarmos os metapoemas... Aqui faremos alguns recortes, destacando alguns em lugar de outros. Longe qualquer possibilidade de tratar aqui de todas as cores e as nuances do arco-íris./ É a partir de imagens selecionadas do cotidiano, em flashes e polaróides, cuidadosamente recortados e colados que o Poeta apresenta a nossa condição, ou melhor, a Condição humana, sempre diante de algo lá fora, cercado de mercadorias e promessas, entre os direitos e os deveres.”

5) 21.04 - Uma leitura de meu livro Bifurcações, pela escritora Amanda Kristensen. Não há nada mais valioso para um escritor do que ouvir: “Quero levar a sua obra para onde eu for!”.

6) 29.02 – Publicação do meu poema “O grão seco” no jornal Poiésis, por Camilo Mota.

7) Compareci ao lançamento do livro Trem da memória, com a bela poesia de Nirton Venâncio.

8) Compareci ao lançamento do livro Assim não vale, com a poesia de Noéla Ribeiro.

9) Compareci ao lançamento do livro O itinerário do curativo, com a contínua poesia de Nicolas Behr.

10) 2.12 - Mostra Visual de Poesia Brasileira - Poesia em Movimento - Curadoria do poeta Artur Gomes, na Biblioteca Municipal de São Francisco de Itabapoana-RJ;

11) 3.4. - Circulou no portal O Jornal Opção, editado em Goiânia por Euler Fagundes De França Belém , um artigo de João Carlos Taveira , que muito honra e dá transparência à trajetória de minha atividade de poeta. O artigo também foi publicado no Jornal da ANE – Associação Nacional de Escritores, edição de Junho.

12) 21.10 - Compareci à Bienal do Livro. Está no parque da cidade. Esqueceram de criar facilidade para quem chega de ônibus. O visitante se desloca da parada de ônibus e dá de cara numa portaria fechada e tem de dar volta ao pavilhão. Essas coisas precisam ser pensadas e executadas. Era melhor catraca. Tirar ingresso dificulta para o visitante. É preciso facilidade e não dificuldade. A Bienal é feira de livro e é necessária.

13) 14.12 - Quinta-literária na Associação Nacional de Escritores, com palestra de Sandra Maria Fontoura Queiroz abordando a poesia feminina de Goiás. Reencontro com as Rosy Cardoso Rose e Elizabeth Abreu Caldeira Brito.

14) 7. 10 – Compareci à Associação Nacional de Escritores para o lançamento do livro sobre Dostoievski, de Vera Oliveira. Encontro com os amigos José Anchieta Oliveira e Nirton Venancio . Aproveitamos para desanuviar a tensão com conversa profunda.

15) 11.8 – Compareci ao lançamento do livro A invenção do passado, do amigo Ronaldo Costa Fernandes, na Associação Nacional de Escritores, oportunidade de encontro com o amigo Wil Prado, grande romancista.

16) 26.6 – Participação do recital do Coletivo de Poetas, com Ádyla Macial, no Digitalina. Curadoria de Menezes y Moraes e minipalestra de Jorge Amâncio.

17) 18.6 – Comparecimento à Feira do Livro de Brasília -- Um dos eventos mais necessários para uma cidade é um feira de livros. Acho até que as cidades deveriam ter feira permanente de livros. Para incentivo à leitura, às conversas culturais, aos encontros amigos.

Fui duas vezes à Feira do Livro de Brasília. Ela tem de passar por uma total reformulação. A feira tem de estar integrada ao calendário de eventos da cidade para que a sua organização ocorra de forma permanente. A feira vem ocorrendo de forma improvisada, com total descaso dos governantes. No improviso, não há tempo para definição dos livreiros participantes, não há tempo sequer para montagem dos estandes e mesmo para montagem do pavilhão. Os feirantes e os visitantes ficam expostos ao sol e, se chover, os livros irão à deterioração. Uma garota passou a mão sobre um livro e achou que ele emanava calor, pois não viu que o sol incidia sobre ele. O livro emana calor, mas não merece exposição direta ao sol. Ninguém sabe quem vai expor, o restaurante é um fracasso e sequer funcionou no primeiro dia. O que vemos é a exposição dos mesmos livros em todos os estandes. Não há diversidade. Os livros ofertados são os piores do catálogo nacional. A feira tem de atrair expositores com diversidades. Não é só a questão do desconto, da gratuidade do livro, mas também do livro raro, do livro belo, novo, bem acabado. Um expositor de livros em outras línguas. Quero a feira anual, mensal, permanente, mas com diversidade e um espaço agradável à visitação. Não sabemos quais palestrantes estão convidados. Não há um site para consulta. Ainda teremos essa feira imaginária e necessária. Com computadores na entrada para consulta do espaço, com pessoal para recepção do visitante. Contamos com um futuro governo que entenda essa necessidade e compreenda a importância do livro ao sol, mas o sol que leva luz à imaginação. Mas todo livro tem sua luz para dar.

18) 1.6 - Escrevi um haikai, que fica perdido por aqui:


Esteja atento à natureza.
Os insetos mais estranhos aparecem
nos melhores palácios.


19) 23.3 – Assisti ao "Drive my car", filme japonês que concorre ao Oscar. Foi oportuno assisti-lo, pois seu existencialismo, construído a partir da peça O tio Vânia, de Tchekhov, nos leva a lembrar que a existência é construída com maldades paralelas e que, em algum momento, as culpas e dores serão reconhecidas e deverão ser perdoadas. Hoje eu assisti outro filme que concorre ao Oscar como documentário. O indiano "Escrevendo com fogo", sobre um jornal digital mantido com resistência só por jornalistas mulheres. Comovente. A borboleta não tem nada a ver com a postagem, apenas estava à beira do caminho do meu passeio vespertino perto da linha de trem que contorna a minha quadra.

20) 8.3 - Participei da Live da Academia de Letras do Brasil, com Anderson Braga Horta, Marcos Freitas, Kori Bolívia, Márcio Catunda e Flávio Kothe. Fiz uma pequena introdução sobre poesia e li 4 poemas novos sobre o nosso conturbado tempo de conflitos.

21) Fui reeleito como tesoureiro da Academia de Letras do Brasil;

22) Fui eleito como Diretor de Biblioteca da Associação Nacional de Escritores.

23) Ricardo Alfaya manifestou-se sobre meu livro Vagem de vidro:

“Chegou hoje à tarde seu Vagem de Vidro. É uma obra densa, complexa, de estrutura singular. Um livro de poesia de fato diferente. Vc realiza uma colagem de textos e imagens numa velocidade vertiginosa, explorando inúmeros efeitos surrealistas, a começar pelo título; a quebra ou mesmo eliminação da pontuação formal acarreta por vezes a sensação de estarmos diante de um hipertexto – por sinal, a influência da Internet no seu fazer literário se evidencia em vários momentos. Alguns poemas marcaram-me mais, como o que fala em Ulisses. Destaco também “E se todos nós decidíssemos pela ausência?” - Esse poema, aliás, caracteriza uma das tendências que percebi em seu estilo: a criação de uma espécie de universo à parte, totalmente feito de palavras (signos), em que tudo é possível. Algum dos seus apreciadores notou, com propriedade, a presença de um tom um tanto solene, grandioso, em seu discurso; por exemplo, no poema que começa por “A palavra definitiva”, há algo de bíblico no discurso; e aquela história de “corpo que repartes” evoca a passagem bíblica mais conhecida do antigo Salomão – só que, no seu poema, quem entra em cena é Prometeu; a parte do corpo a sacrificar não é o filho, mas o heroico fígado. Enfim, é uma poesia personalíssima, muito instigante. Difícil pretender esgotar a riqueza de seus significados e possibilidades com um único e breve comentário. Porém, fica aqui o registro, não apenas do recebimento do livro, mas também do prazer que essa primeira leitura me proporcionou. Parabéns.”


24) 25.02 – O poeta Gerson Pereira Valle, que mantém sempre atenção crítica à literatura de seu tempo, apresenta esta resenha sobre nosso último livro. Faltam-me palavras que possam expressar o meu agradecimento, mas sobra emoção pela manifestação de tamanho carinho por nossa obra.

O poeta Salomão Sousa é um dos marcos literários da capital federal. Sua poesia possui uma originalidade marcante. Neste ano em que se comemoram 100 anos da Semana de Arte Moderna, que quebrou os cânones do então parnasianismo, Salomão Sousa merece um exame melhor de sua obra, quando se constata a liberdade do verso encaminhá-lo ao mesmo tempo que para metáforas e outras figuras como para a narrativa ou reflexão mais encontradiças na prosa. Mas, que nele ganham a graça de uma espontaneidade que traz em si o diferencial poético numa forma em nada tradicional. Em 2022, Salomão Sousa publicou um livro em que apresenta sua redação caminhante para várias direções entre a poesia e a prosa, “Bifurcações – memória, resistência e leitura”, Baú do Autor, Brasília. Há poemas em várias páginas, como há artigos, resenhas literárias, crônicas e mesmo ensaios. Mas, dentro de seu estilo de poesia de destacada liberdade e fruição lírica os textos não expressamente poéticos deles não destoam na continuidade da leitura, dando-lhe, ao contrário, uma benfazeja impressão de repouso, para logo prosseguir nos raciocínios e observações várias em prosa. Tal como um míni-poema-em-prosa que encabeça uma página solitariamente, e que parece referir-se à própria concepção de obra: “Nunca perdemos nada, simplesmente passamos para outra realidade, com experiências adversas aos nossos desejos. Talvez o trem tenha entrado na bifurcação errada.”

As composições passeiam entre observações personalíssimas sobre o “algoritmo”, por exemplo, “Acabar com o xingamento ajuda a Civilização”, “Processo crítico em tempos de legalização da mentira”, neste último já se aproximando de posicionamentos políticos como em “O que é um fascista?” onde perpassa por obras de, entre outros, George Orwell, Hanna Arendt, Theodor W. Adorno, “Exercícios para exorcizar o autoritarismo”, com afirmativas como “Sempre que alguém insulta, vitupera, ameaça, xinga e chuta ou se julga dono de toda cognição, deixa em dúvida se não esconde uma cauda sobre as vestes”. Em “Para não chocarmos com o fracasso” nos coloca diante da crise política observando que “O mundo está degradante por irmos desaprendendo a amar, pois falar em perda do humanismo não é suficiente”.

Memorável é o artigo “Legado de resistência de Cecília Meireles”, que deveria ser divulgado largamente com o fim de propagar a vida e obra da grande poetisa e educadora. Apresenta a colaboração jornalística perseguida no Estado Novo, junto ao trabalho desenvolvido com o educador Anízio Teixeira. Suas viagens, seu conhecimento de línguas que a aproximou da literatura inglesa, francesa, italiana, espanhola, alemã, russa, hebraica e da escrita nos dialetos do grupo indo-irânico, traduzindo Rilke, Virginia Woolf, Lorca, Tagore, Maeterlinck, Anouilh, Pushkin, bem como, em 3 volumes, “As mil e uma noites”. Enfim, cito apenas tais detalhes para aguçar a curiosidade, havendo muito mais informações e reflexões que necessitam sua leitura.

Outro poeta modernista também apresentado em várias de suas facetas é Manuel Bandeira, no texto “Muros”, que foi o discurso de posse de Salomão Souza na Academia de Letras do Brasil.

Por todas as questões aqui levantadas, concluo por sugerir a leitura do livro em pauta, como dos mais destacáveis lançamentos do início deste ano de 2022.

25) 18,2 - Da poeta Mariana Vieira, do Rio de Janeiro, recebi pela rede social esta mensagem que só as grandes almas nos enviam:

O Cerrado brasileiro me trouxe grandes amigos.

Não sei se são aquelas flores exuberantes, ou aquele céu (que só existe por lá mesmo) ou mesmo se esta afinidade decorre da mesma visão que temos sobre a necessidade de transpor a aridez aguda da vida.

O fato é que @salomaosousapoeta é parte deste rol de amigos que sempre surpreendem e que me dilatam a alma para que a arte se acampe em campos mais largos.

De modo que, chegar em casa e receber esta riqueza é simplesmente indizível.

Prosa e poesia reunidas em prol da denúncia deste estado de coisas e de indignidades que assolam um país aviltado pelo autoritarismo.

Mais do que isso, a obra revisita a história tendo como guia o meu amigo poeta.

Mais do que isso e mais do que tudo, escritos pelo gentil, culto, generoso e talentoso Salomão Sousa

Obrigada, meu amigo poeta, pela obra e pelo afeto que nos unem.

Algumas leituras:


1) Charles Dickens – Nicholas Nickliby - Ler um romance de 900 páginas dá trabalho, pois nos desacostumamos à concentração. Não é o melhor romance de Dickens, mas desnuda para nós a velhacaria da sociedade londrina, ainda que pese o pouco número de personagens. Mas centra na ganância humana. O homem mata os próprios familiares para angariar riqueza. Como Balzac se vale de seu coringa Vautrim, aqui Dickens cria os personagens de boa índole para salvar os desafortunados. Tirando alguns momentos que possam parecer piegas (aliás, piegas) agora na modernidade, nunca podemos desprezar a acuidade de Dickens. São lapidares seus diálogos. As palavras são exatas. Veja a frase: por que não construímos uma única lareira e ficamos juntos. Para ser compartilhada por duas almas, teria de ser uma única lareira. Leia Dickens, gente, e talvez compreendamos os momentos em que devemos ser melhores.

2) A Sociedade aberta e seus inimigos, de Karl Popper; e Homo Sapiens, de Harari - Após a leitura de Popper e de Harari, fiquei bastante cético. Por mais que Popper construa uma narrativa para que os homens façam escolham que cumpram a racionalidade, pergunto-me se a irracionalidade também não atenderia o conceito da razão já que esta é um contrato de um grupo. Desde que a irracionalidade adota um comportamento, temos de assumir que este comportamento irracional também ganha uma validade racional. A razão é construída com indivíduos que se confrontam face a face. Com as individualidades encarceradas no mundo virtual, a razão está sendo adotada com unilateralidade, a lá Robinson Crusoé. E toda razão unilateral leva ao ódio, que por sua vez leva à violência. A razão unilateral não admite perder, pior, não admite que o outro possa participar do processo. O jurídico existe para fazer valer a razão, mas os irracionais trabalham para derrubar essa barreira, pois se julgam donos de validades incontestáveis.

3) Várias Leituras do longo poema “Cadáveres”, de Nestor Perlongher. Cheguei a traduzir uma parte, mas já há outras traduções facilmente disponíveis. Uma surpresa enorme. Uma energia violentíssima contra o crime dos regimes ditatoriais.

4) Assisti ao filme "O som da montanha", do japonês Naruse, baseado em livro do Prêmio Nobel Kawabata, o personagem principal, ao olhar um girassol, diz que deveria ser permitida a algumas pessoas a retirada do cérebro em alguns casos, para ser lavado. Acredito que a lavagem cerebral não é suficiente. Quando há perda de compreensão da razoabilidade, nem injeção de conhecimento em pó ajudará na adoção de atitudes justas por aqueles que sujaram o cérebro ao longo da vida. Nascemos com o cérebro limpo, mas devemos atuar duro para que ele seja preenchido como o crescimento de um girassol, caso contrário, crescerá como um bolo de lodo. A este lodo renegarei sempre, por mais que se pinte de amarelo para me enganar. Ou enganar a Nação.

5) Simon Bolivar – O libertador da América. Livro de biografia. Eu não entendia nada de Simon BOLIVAR. Impecável esta biografia. Estou lendo como uma história de terror. Como a América foi sacrificada pelos espanhóis, que carnificina, que espoliação dos bens! Só homens que se desprendem de tudo, de seus bens e de sua família, são os que constroem suas pátrias. Ficou um único legado execrável de Bolivar - o afã de poder dos militares caudilhescos. A todo momento os militares se julgam donos do poder, sem passar pelo voto.

6) Esboço para um Auto-retrato, de Bernard Berenson. Guardei um livro por bastante tempo. Tinha lido sobre ele e comprei uma meia dúzia de exemplares para quando quisesse presentear um amigo. Surpresa ao terminar a leitura e encontrar aquilo que desejo na velhice. A boa leitura é aquela que nos complementa ou corresponde àquilo que somos e desejamos. B. Berenson bateu comigo.

7) Li o livro Cristina, hija de Lavrans, de Sigrid Undset, que ganhou o prêmio Nobel de 1928. 1223 pgs. A história se passa na alta Idade Media (1384 +), quando a Igreja tinha total domínio sobre os indivíduos. Adoro ler autores do Nobel, pois é inevitável que suas obras carregam humanismo. Não há edição no mercado brasileiro. Parece que nem foi traduzido por aqui. É um novelão, com uma heroína bem feminista para seu tempo. “Neste mundo, onde os seres só se unem e engendram novas gerações sob a atração das paixões da carne, a dor e as decepções são tão inevitáveis como as geadas outonais. A vida e a morte separam os amigos assim como o inverno derruba as folhas das árvores. "

8) Relatório ao Greco, de Nikos Kazantizakis - A minha primeira leitura do ano de 2022. Foi um grande desafio e um grande auxílio para eu me pacificar diante deste momento egocêntrico que vivemos. Kazantizakis, como bom grego, firma o pé na vida, afirmando que não podemos ficar reféns de deuses castradores das emoções. Os deuses gregos não são fixados em humilhar, mas em enviar o homem para conquistar e embater. Não li muito Kazantizakis. Conhecia os filmes Zorba o Grego e A última tentação de Cristo. Agora li Zorba e este seu relatorio/testamento, que funcionam como conflito memorialista. Talvez a leitura contribua para eu escrever um artigo sobre a postura atual do indivíduo diante do outro. É comum ouvir: não gosto de quem não gosta de mim? Mas temos de perguntar: o que faço para o outro gostar de mim? Qual a minha sedução? Vou ler o livro O infamiliar, de Freud, para tentar complementar essa compreensão. FREUD analisa O conto de areia, de KLEIST, e nem sei bem se o tema trata dessa questão de algumas pessoas desejarem se posicionar não-familiar. E ser não familiar é ser nao-comunitário, não-civilizado? O civilizado procura sempre a harmonia, já que o pecado, para Kazantzakis é a quebra da harmonia. Mas é assunto demais, vamos em frente. mas vejam aí: sempre que alguém dá um salto, ele está usando a energia de todos aqueles que vieram antes dele.

Obs.: vários eventos e leituras não foram registrados. Agradeço a todos que participaram desses momentos.

1 de agosto de 2022

Livros para epocas fascistas

Sugestões de leitura para etapas históricas contaminadas por autoritarismo ou totalitarismo:

1 - Morrer sozinho em Berlim, de Hans Falada. Romance doloroso, que retrata as agruras de um casal no cotidiano do nazismo de Hitler. Mas resistem sob risco de não sobreviver. Linguagem fácil e dura.

2 - Topologia da violência e Psicopolítica, de Byung-Chul Han. Análise da sociedade de conflito em época de desconexões de compreensão.

3 - 1984, de George Orwell. Romance distópico sobre o governo de controle da sociedade.

4 - Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt. Análise do totalitarismo de Hitler, Mussolini e Stalin. Aqui estão os princípios que norteiam a construção dos governos autoritários e totalitários. Linguagem fácil.

5 - O jogo das contas de vidro, romance de Hermann Hesse. Livro denso e de leitura arrastada. Publicado em 1946, escrito durante o nazismo. Há uma revolta contra o conhecimento pois o conhecimento se descasa da vida em épocas de construção de fascismos. Só é possível equilíbrio com conhecimento da natureza e espírito. Se for só natureza, descambamos para o fascismo, para a violência, mas também só espírito há ausência de ligação, de ajuste com a realidade.

6 - As folhas de relva, de Walt Whitman. Poemas sobre o homem livre, fundadores da democracia americana. Livro de cabeceira para todos. Várias edições disponíveis. Tanto a da Martim Claret e a da Hedra são ótimas. Tem até uma edição para crianças, com uma seleção de poemas.


26 de fevereiro de 2022

Poema

Antes fosse a solidão, essa que não deseja
ruído, rugido, fricção de esteiras
e martelar em estacas a fixar arames
Antes chegasse o pelotão
com a incumbência de plantar velames

Tem de partir tão rápido quem procura
a reserva de cômodos e de quintais
onde secar lençóis e edredons
e continuará sem endereço
Tem de ter início um novo povoamento,
reserva de adereços da festa pátria

Antes não fosse o abandono,
esse que não arrancasse as folhas
e que não apresentasse instrução
para que as castanheiras virem carvão
Alguém deseja compreender
o que se obtém com umas braças de terra
e nem as palavras instruem
como se desfazer das crianças mortas

A bomba traz o decalque de instrução
Derruba dez andares e não sobrevivem
homens animais percevejos
numa determinada adjacência
E completa com o certificado de garantia
se não explodir há direito de reposição

Antes não houvesse a reposição dos loucos

6 de fevereiro de 2022

O que é um fascista?

Este texto integra o livro Bifurcações – memória, resistência e leitura.

O que é um fascista? Quando é que acontece a construção de uma sociedade fascista? Há a prática criminosa de injúria social quando uma parcela da sociedade é acusada de possuir “baixa cognição” para negar-lhe participação no debate político? Tenho recebido amiúde esses questionamentos de pessoas que desejam se esclarecer sobre essas questões.

Alguns eventos sugerem a necessidade de análise da postura de segmentos da política e do comportamento da sociedade brasileira no início desta terceira década do Século XXI quanto a reivindicações de instauração de limites obscuros à Democracia. Vem se impondo a necessidade de questionar se está em andamento a construção de uma sociedade totalitária, pois é inegável que há uma voluntariedade autoritária ativa.

Aqui não se analisa o afã da elite brasileira, conforme se pode apurar da trajetória republicana, pela busca contínua pela tutela da democracia pelos militares. Aí já seria outro questionamento: há democracia tutelada, com imobilização da participação política de segmentos da sociedade?

No entanto, é possível notar que há preocupação crescente de parcela da população, sobretudo por indivíduos que não se encontram na elite, em buscar resposta para questões políticas para compreender o que significa ser “fascista”. E é necessário ter sempre presente que só com argumentação há enfrentamento para que a democracia – que garante a cidadania (direito de participação política e de acesso ao emprego, à educação e aos bens) –, não sofra invasões e esmorecimento.

Tal como o nazismo e o stalinismo, o fascismo foi um segmento do totalitarismo, que causou sérios danos à Itália, com reflexos na Europa e no resto do mundo. Por seu aspecto raivoso, com um líder de ufanismo popular e exibicionismo sobre a motocicleta, o termo passou a ser empregado para qualificar governos autoritários e totalitários centrados na figura do líder, com abolição dos demais poderes e que se voltam – com ódio – contra os opositores. Os governos totalitários, após devidamente instaurados, sempre eliminam fisicamente seus opositores (veja Ruanda, a Alemanha nazista, Stalin e Mao).

Para implantação de um governo de exceção, há o afã em tentar a eliminação dos Poderes Judiciário e/ou Legislativo sob o argumento de que eles não contribuem para o andamento da democracia. Há predomínio da força militar, que se investe no direito de julgar e executar civis. No caso brasileiro, foi enviado parecer da Advocacia-Geral da União ao Supremo Tribunal Federal solicitando permissão para que civis sejam julgados pela Justiça Militar e, ainda, a elaboração de parecer pela Funarte com conteúdo religioso e de afronta às manifestações “antifascistas” para negar recursos para projetos culturais.

Se não bastasse a intimidação da imprensa livre, com ataques físicos a jornalistas, há a desfaçatez de apresentação de proposta legislativa visando legitimar a prática de divulgação de fake news para manipulação da sociedade através da mentira. Há, ainda, adoção de terminologia para desqualificar os opositores, alegando que uma camada da sociedade, portadora de “baixa cognição”, não merece manifestar-se politicamente.

Não pode passar despercebido o aparelhamento do Estado com a presença de militares, sejam na ocupação de postos chaves do Governo (com elevadas sinecuras), ou na concessão de benefícios, tais como acumulação de vencimentos e empréstimos a baixo custo para aquisição de casa própria, para atraí-los como guardiães do chefe do Poder Executivo.

Em 1944, quando estava no auge o governo de Mussolini, de onde surgiu o termo “fascismo”, George Orwell escreveu o pequeno ensaio “O que é fascismo?”. O autor registra que nos Estados Unidos, naquela época, foi realizada uma pesquisa com 100 pessoas para responder a pergunta. Para demonstrar a falta de envolvimento das pessoas − em qualquer época e em qualquer país, por mais democrático que ele seja e com compreensão dos mecanismos da política −, chegou a ser apresentada resposta definindo o fascismo como “pura democracia”. Orwell reconhece que, na época em que escreveu o artigo, ainda não estava cunhada definição clara e popularmente aceita para a palavra e sugeria que ela fosse usada “com certo grau de prudência”. E complementava: “não degradá-la ao nível de xingamento”.

Desde que Mussolini foi dependurado nas traves de um posto de combustível e depois jogado numa vala ao lado da mulher e que Hitler desapareceu no monturo (locais em que é descartada a maioria das figuras totalitárias), o significado de fascismo passou a ser esmiuçado por estudiosos, sobretudo por Hannah Arendt em seu definitivo livro As origens do totalitarismo. Portanto, o fascismo, tal como o nazismo e o stalinismo, é uma corrente do totalitarismo, na qual o governo fica “totalmente” centrado na vontade do governante. O líder, além de linguagem de xingamento e de ameaças de desmobilização política do país pela intimidação, define aparato militar para se proteger e eliminar ou silenciar do seio da sociedade todas as correntes opositoras, além de permitir que a população tome conhecimento apenas daquilo que interessa ao establishment e vá manter o líder à força no Poder.

No totalitarismo, o líder (mito) exerce todos os poderes, com domínio ou abolição do Legislativo e do Judiciário, bem como instala departamento de comunicação para enganar a população, deixando o povo sem conhecimento da realidade política. Basta ver o que vem registrado nos preâmbulos dos atos institucionais da ditadura brasileira de 1964. Os chefes militares, autoritariamente, afirmam que resolveram manter a Constituição de 1946 e as atividades do Congresso Nacional, no entanto, legitima a “revolução” através de atos unilaterais. O próprio ato se acusa como autoritário, pois o Legislativo, que soma a diversidade democrática de uma Nação, é descartado na edição dos atos. No preâmbulo do AI-1, a ditadura já entra de sola afirmando, despudoradamente, que ela mesma cuidará de fazer as leis que ela executará:

Fica, assim, bem claro que a revolução não procura legitimar-se através do Congresso.

No preâmbulo do AI-2, a ditadura (mais despudoradamente) se autolegitima e se confessa totalitária ao descartar a discussão do ato com os demais poderes:

b) a revolução investe-se, por isso, no exercício do Poder Constituinte, legitimando-se por si mesma.

Não pode ser negado que só se constrói um Governo totalitário com a vontade de alguns estratos da sociedade, que desejam tirar proveito de um universo administrativo livre de travas judiciais, de sinecuras salariais ou de liberalidades comerciais e industriais. Esses estratos elegem e protegem o líder, que assegurará a execução de suas reivindicações (destruição do meio ambiente, redução de direitos trabalhistas, alta do dólar, pauta conservadora (e daí para frente). Esses estratos não se preocupam com o preço que o país paga por suas benesses, tais como perda de direitos individuais, de direito de manifestações políticas e por reivindicações salariais. Os detentores da produção econômica não correm risco com ações judiciais ou com efeitos inflacionários.

O regime totalitário se dá o direito de invadir as casas, determinar como a sexualidade deve ser praticada, qual religião é oficial, chegando à prisão e eliminação de opositores. Sem se envergonhar, os mantenedores do totalitarismo assegurarão até alguém ser atirado ao monturo que estão trabalhando para garantia da democracia. Os pequenos ditadores mantêm vivo o ditador.

Desde o artigo de George Orwell, vários significados foram sendo incorporados ao conceito de “fascismo”, assumindo-se até como expressão de menosprezo para xingamento dos líderes autoritários ou totalitários, basta ver que tanto governistas quanto situacionistas passaram a repudiar o termo “antifascista”, pois ninguém se enxerga “fascista”.

Quando os três poderes estão em funcionamento pleno, não há totalitarismo (fascismo). No entanto, sob o manto de um discurso de messiânico conservadorismo, há esforço para esvaziar as competências dos poderes Judiciário e Legislativo, dirigindo-lhes críticas para redução da credibilidade de suas ações. O autoritarismo se cobre com os símbolos nacionais para enganar a Democracia. Quando o nome da Democracia é usado em vão, do autoritarismo para o totalitarismo é um passo. Compete à sociedade cerrar a passagem ao líder autoritário para que esse passo não seja avançado.

Cabe uma observação final sobre o que consideramos o aspecto mais terminal das práticas do autoritarismo, aquele que preconiza as consequências mais intimidadoras. Trata-se de estabelecimento de terminologia que desqualifique a parcela da sociedade que se opõe à instauração do regime de exceção.

O filólogo Victor Klemperer, no livro LTI: a linguagem do Terceiro Reich, analisou o uso da linguagem para estabelecimento do nazismo. Para ele, “o nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões e frases impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas inconsciente e mecanicamente”. O jornalista polonês W. L. Tochman, no livro Hoje vamos desenhar a morte, revive o genocídio dos tutsis, em Ruanda, através de entrevista das crianças que sobreviveram após ficar dias escondidos debaixo dos corpos mortos dos pais. As crianças relembram que o som de um crânio ao ser partido por um facão é o mesmo de uma cabeça de repolho ao ser cortada abruptamente ao meio. Ambos livros mostram as terminologias que foram sendo implantadas na Alemanha e em Ruanda para desqualificar raças e etnias e, assim, fossem justificados e executados os genocídios. Suspendi a leitura do livro de Tochman, pois começaram a surgir tremores em meus lábios em razão do descontrole de minhas emoções provocado pelo horror das cenas.

Importante também a análise de Theodor W. Adorno sobre a propaganda fascista a partir da teoria de Freud sobre o narcisismo. No autoritarismo moderno, o narcisismo foi substituído pelo egocentrismo, onde o amor passa a inexistir e a figura ameaçadora passa a se concentrar no próprio indivíduo. No fascismo (leia-se hoje autoritarismo), para Adorno, as técnicas do demagogo e do hipnotizador (leia-se líder autoritário) coincidem com o mecanismo psicológico através do qual os indivíduos são levados a se submeter às regressões que os reduzem a meros membros de um grupo.

Nesse processo, os indivíduos seguem o líder autoritário, que os cega através de manipulações publicitárias. Os seguidores (muitas vezes pagos para montar e disseminar mentiras) se põem apartados, conscientes da própria ruindade (perda da razoabilidade), transferindo para os opositores o fracasso pelos resultados da prática política, chegando a dizer que eles possuem “baixa cognição” (forma de tratamento intolerante contra pobres e opositores) e julgando com direito de puni-los e eliminá-los.

Ao quantificar que os pobres e os integrantes da oposição possuem “baixa cognição”, tentam imputar que os indivíduos das categorias sociais aí inseridas são “idiotas” (ou de qualquer outra qualificação pejorativa, talvez “ratos”, como ocorreu em Ruanda). Sob o manto dessa terminologia erudita – eivada de criminosa injúria social –, alegam que os opositores não merecem ser cidadãos. Objetivam, assim, ação abortiva, de eliminação, de forma a assegurar o domínio de uma elite mesquinha e má, atuante para manter parte da sociedade à margem da economia e do conhecimento. O conhecimento (cognição) eleva a capacidade crítica para participação da vida política e econômica – e o acesso ao conhecimento sempre foi negligenciado (deliberadamente) pela elite.


(*) Salomão Sousa, poeta e funcionário aposentado do serviço público federal após trabalhar por mais de 40 anos na área de assessoramento parlamentar.

8 de dezembro de 2021

As biografias espalhadas pelo livro "Cascos e Caminhos"

Salomão Sousa,  poeta incrível, de linguagem rara, preciosa, sem facilidades, sem comodismos. Mais uma vez usufrui o prazer de ler uma obra desse autor tão apaixonado pela poesia, a ponto de desnudá-la com carinho, competência e altruísmo. Seu verbo, embora soe cru, áspero (aos menos avisados) é de uma simbologia e força que merece todos os nossos aplausos e reconhecimentos. E digo, sem pestanejar: é um dos poetas que mais gosto de ler no meu cotidiano. Em anotação de papel colocada no inicio do livro Cascos e caminhos, avulsa, Salomão já nos adverte (e isso constatamos na leitura de cada poema) que “Trata-se do meu livro mais pessoal, mais íntimo dos percursos de minha vida. Os poemas recuperam traços da memória e das observações instantâneas do que emergia à beira de minhas ocupações. O que me apodrece é o que me recupera, é o que salva a lembrança...” Penso que o poeta em evidência deve habitar bem próximo do meio ambiente, matas etc já que sempre em suas postagens refere-se aos pequenos insetos que adentram sua casa, como hospedeiros, já no fim da existência, assim como caminha fotografando tudo aquilo que é belo e pequeno na Mãe Natureza, o que passa muitas vezes desapercebido aos olhos humanos que não enxergam a essência das coisas. Ou seja, Salomão Sousa é uma espécie de Manoel de Barros nas searas de Goiás.

Encontro uma “ressaca de mundos” no poema "Biografia do natimorto", assim como curvo-me diante da constatação de misérias e morticínios em "Biografia do jirau em dois tempos", embevecida com versos desse nível: “...O inseto não é insone e para eclodir o parasita sabe quando./Sabe quando há água e quando há sangue./A criança é uma vitória contra o aborto...”(pg.18). E surto, no bom sentido, claro, com tão rica retórica: “...Um homem/não é um prego para estar quieto/fixo num tarugo, para deteriorar/na ferrugem...” ("Biografia do quarto seguida de algumas adjacências" -pg.20).  E, com sapiência, nos diz: “...Quem arrasta a estrada para o lodaçal/não inventa outros jeitos de sair do charco...”("Biografia da estrada" – pg. 27). E deslinda o corpo, essa geografia marítima que temos como invólucro: “Pertence ao corpo mover-se sob/nossos pensamentos, ordens que lhe atribuímos/sem consultar a fruição do sangue...”("Biografia do corpo" – pg. 30). Uma verdadeira obra prima, leitores, o poema "Biografia da bacia antes de ser floreira" (pg. 34), bem escrito, coordenado, inspirado e suado. Os poemas de Salomão Sousa trazem aconchego, passado, vida vivida e relembrada, remontando presenças, pretéritos. Salomão não é o viajante pleno, estrangeiro, mas canta sua aldeia colocando nela todo o universo. Isso é bonito, salutar. Gosto disso. Tudo que disse está,  por exemplo, em "Biografia da travessia do arco-íris" (pg.38), belíssimo, assim como na  singeleza objetiva de "Biografia do balcão", onde é sentimento: “...Quem limpa o balcão aprende o que é a janela,/o que são os seios a repousarem no peitoril...”(pg.39). Como não destacar a grandiosidade de um poema como A "Biografia de Jeron"i (pg.49), assim como a Biografia da avó índia: “...Ter uma avó índia/é ter um corpo ao qual assemelhar-se/e também mãos a encher uma despensa...”(pg. 53). Louvo a "Biografia da cidade visível" (pg.55), e descubro a impotência humana diante da grandeza da natureza, assim: “...A romãzeira enfia um galho ao solo/ e desse caule se renasce./ E não consigo esse reverdecer;/essa sucessão de frutos...”( pg.60). E a pepita de ouro em forma de verso: “...A flor não dispara o projétil.”("Biografia das parcelas" – pg. 82). Isso de ir contra a maré, de ser sublime, humanamente racional na racionalidade de ser humano: “...Quem incendeia pode estar contrariado/com nosso facho/nossa aceitação do pássaro...” ("Intervalo para o encaixe" – pg. 96).

Como o heterônimo Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa, Salomão Sousa ama a natureza e todos os seus elementos, mas sabendo que ela é o que é e o que podemos ver dela, sem invenções ou romantismos demasiados. É irmão das plantas, dos insetos, mas no simbolismo deles, nas estruturas, veias, sangues, dejetos, existência, enfim. Nada quer mudar e nem idealizar. Muitíssimo válido. A arte da capa, de Carlos Alberto, tem uma velha ferradura no meio de uma espécie de lixo ou amontoados de coisas inúteis (úteis). A orelha tem assinatura de Alexandra Vieira de Almeida e Wil Prado. Uma boa fortuna crítica no final e selo da Gráfica Serafim. Reitero que Salomão Sousa é um dos grandes poetas que leio e releio. E a cada releitura novas descobertas. Nada engessado por aqui.


Sônia Elizabeth (poeta e prosadora)

20 de outubro de 2021

Fábio Santiago

O livro Versos Magros, de Fábio Santiago, alagoano que reside em Curitiba, está disponível na página da Kotter Editorial. Trata-se de uma editora que tem publicado bons poetas. Tem em catálogo também o livro Intramuros, pela Penalux.

Trata-se de um poeta que já palmilhou um bom pedaço do caminho da poesia. Como o título bem indica, Versos Magros, e o formato espacial da poesia, Fábio Santiago ajusta os textos em recortes que possibilitam a extinção do discurso, com uma retórica que não está preocupada em cativar, mas com a obrigação de não se desfilhar da filologia da história contemporânea e da paisagem por ele vivenciada. Há momento inclusive de aventura pós-concretismo. Mas a poesia que vem das pós-vanguardas, nesse choque com a elipse comunicativa das redes sociais, não dá para negar que novos rumos tenham de ser traçados para a poesia atual e, sobretudo, para a que virá. No entanto, Fábio Santiago consegue se safar desse universo enganoso da comunicação explícita das redes. Confirma o seu tempo, pois escolhe se diferenciar. Não excede na afetividade, experimenta neologismos, e não teme aproximar-se da realidade para limpá-la com “líquidos cor de urina”. É uma poesia sem gracejos, que se firma pela objetividade.



 

Kamilly Barros

O livro _emissões-, de Kamilly Barros está disponível na página da editora Absurtos.

Trata-se de uma poeta que merece ser lida com atenta observação, pois não se conforma com as facilidades expressivas da realidade. Para abordar as mesmas realidades à disposição de todos outros criadores contemporâneos, escava a estrutura da língua, desequilibrando-a, bem como as emissões da cultura atual vindas das redes e das ruas, aventurando outras rotas e notações. É uma poeta que não se conforma em dizer o que está posto. É uma poeta que busca ‘o fora de lugar da fala’, já que produzir é um compromisso de desvirtuação e não de reprodução.

4 de julho de 2020

Pedra negra sobre uma pedra branca

César Vallejo

Morrerei em Paris com aguaceiro,
de tal dia eu já tenho lembrança.
Morrerei em Paris - e não fujo -
Talvez uma quinta-feira, como é hoje outono.

Quinta-feira vai ser, porque hoje, quinta-feira,
que proseio estes versos, os úmeros deixei na pior
e, jamais como hoje, voltei,
com todo meu destino, a me ver só.

César Vallejo morreu, espancavam-no
todos sem que ele nada lhes fizesse;
nele davam duro com um pau e duro

também com uma soga; são testemunhas
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos...


Versão: Salomão Sousa

https://www.blogger.com/blog/post/edit/4843398825678420679/452811239808696688

Folder do lançamento do livro

A poesia não deixa de ser uma fidelidade ao que amamos. Continuo fiel à poesia em A NOITE ESCURA DOS CRISTAIS PERDIDOS, que nasce acolhido...