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REORGANIZAÇÃO DO PROCESSO CULTURAL

Texto que escrevi especialmente para a próxima edição do jornal "A VOZ", de Silvânia (GO):

Estive em Silvânia a convite do PALAS para fazer palestra no Omelete Cultural. Fábio Coutinho, grande amigo daqui de Brasília — advogado, intelectual conceituado, membro de entidades culturais da Capital, descendente da família de Afrânio Coutinho — a meu convite e do PALAS, também compareceu à cidade preparadíssimo para palestrar (graciosamente) no mesmo evento. Ele saiu de Brasília de manhãzinha somente para apresentar o oportuníssimo tema “Constituição e cidania”.

Em que pese a divulgação através de convites individuais, da convocação dos estudantes e professores, e de debates no Giro da notícia, as palestras foram canceladas por total ausência de público. Excetuando os membros do PALAS, não compareceu sequer “um” ouvinte para recepcionar os pales-trantes convidados.

Com a suspensão da palestra, passei toda a manhã do domingo na frente da UEG, e, enquanto as crianças participavam das atividades infantis e os bem-te-vis faziam alvoroço no dia de chuva preguiçosa, fiquei refletindo sobre o comportamento do homem pós-moderno (não só do silvaniense) — já que esse era o tema que abordaríamos em nossa palestra abortada.

Sentado ali na frente da UEG, com a maravilha de um flamboaiã florido atrás de um muro (quem não compareceu à palestra, poderia pelo menos ir lá, num gesto humano de beleza, contemplar o flamboaiã), reli várias vezes o poema de Kaváfis, que iria ilustrar a minha palestra. O poema mostra como o indivíduo que não constrói a vida na sua pequena cidade também a destrói no resto do mundo. E algo doía dentro de mim: quanto jovem se destruindo em tantas cidades brasileiras e ficando sem a possibilidade de conquistar o resto do mundo.

Nas reflexões, lembrei-me de todas as minhas leituras sobre a condição da pós-modernidade, sobretudo dos livros de Gilles Lipovesky. Lipovesky, em seu recente livro A sociedade da decepção, trata do indivíduo que se frustra por não ter se envolvido com o processo cultural do seu tempo — e não da decepção menor de ficar abandonado num evento, no ex-bairro das Pedrinhas, onde passei tantas vezes carregando os livros de minhas primeiras leituras, quando saía pelos fundos do ginásio.

Pensamos ali na manhã chuvosa o quanto é frustrante constatar que a inapetência cultural tenha chegado às pequenas cidades como Silvânia. Po-demos prever que, sem se envolver com o questionamento de seu tempo, a atual geração de jovens vai se transformar nos homens “decepcionados” com o mundo futuro, pois, pela ausência de participação, pela ausência de formação cultural, é uma geração que não estará preparada para construir o mundo que será a sua casa no futuro. Só não me decepciono com aquilo que construo. Se hoje sou um alcoólatra, amanhã terei um organismo doente; se hoje eu não me preocupo com a formação, terei menos possibilidade de construir a economia e a política futuras. Entendemos, inclusive, que os pais também são criminosos quando não motivam e não exigem a participação cultural de seus filhos. O filho sem cultura é o candidato ao alcoolismo, à droga, ao roubo, à morte no trânsito, à balbúrdia urbana. Os pais têm de levar os filhos pela mão até a cultura. Caso contrário, outras mãos vão levá-los para destinos bem menos promissores e, com certeza, totalmente desesperadores.

Há muito tenho me preocupado com o egocentrismo da pós-modernidade, mas acreditávamos que se tratasse de fenômeno restrito às grande metrópoles, onde se concentra a informatização e o enclausuramento do indivíduo para fuga da violência. (O egocêntrico da pós-modernidade —só mesmo para entendimento— é o indivíduo que acredita que tudo está atuando só para ele, portanto o “eu” é o centro, que ele não precisa participar, que não precisa atuar, que não precisa ser agente de modificação do mundo, pois acredita sempre que o “outro” está preparando o paraíso para ele. Aí vem a decepção prevista por Lipovesky em seu novo livro: como a totalidade dos homens são egocêntricos, homens sem participação humana, que não se preocupa com ordenamento político, a sociedade entra em total desarranjo, e todos acabam numa tremenda decepção. Portanto, além de apostar no fracasso do outro, o indivíduo da pós-modernidade não está se construindo culturalmente.)

Não era meu propósito escrever este artigo. Nenhum rancor me move a fazê-lo. Até dos eventos frustrados nascem as flores amorosas da aprendizagem. Move-me a admiração pelos jovens que se agrupam no PALAS. Tanto o movimento é importante que tenho amigos hoje bem realizados que saíram da primeira edição do PALAS. Um jovem que participa de uma entidade, aprende a trabalhar em equipe, a dividir questionamentos, a pensar o seu local na sociedade. Em equipe, o jovem quebra o próprio egocentrismo.

E digo mais: persistam. Se cuspirem nos vinte, se forem esbofeteados pelos 300 — persistam. Não temam atuar dentro e fora da cidade. Como diz o poeta, vocês são imprescindíveis.

Se dez aprendem a fazer uma flauta numa oficina; se as crianças dançarem e rirem e se abraçarem, não terá sido em vão o Omelete Cultural. A nova juventude tem de nascer assim: pela dança e o canto das crianças.

Venho sugerindo aos parlamentares goianos — poderia ser para todo o território nacional, mas é em Goiás que está a identidade do meu DNA — que preparem cartilhas a serem distribuídas a todos os municípios, com indicativos de projetos que criem opções culturais para a juventude. Revitalização de cinemas, criação de cineclubes caseiros, ofertas de aulas de música, incentivo à criação de centros de dança — por aí, por aí —, até a motivação para o surgimento de agremiações juvenis voltadas para a cultura (tipo assim, PALAS).

Não teremos a reorganização da identidade nacional, e muito menos de uma identidade política, sem reorganização do processo cultural.

Comentários

Anônimo disse…
Seria um carma dos homens da capital!?
-Não...Pura hipocrisia de pessoas que preferem
mediocridade do que cultura!
Aquele "galo pequeno" estava cheio.
Mas não por ausência de publico a banda radiococa
tambem não se apresentou!!
E o nosso guitarrista tambem saiu de brasilia
especialmente para tocar no evento!
Mas, provavelmente não merece ser lembrado!
Somos apenas mais uma banda de rock infiada em silvania!
Gabriel disse…
Toda forma de arte é válida, e toda validez é arte.
carol ribeiro. disse…
eu admito que tive vergonha e tristeza ao ver que nao haveria público. senti suor escorrer em vão. junto com os comentarios impiedosos que tivemos que suportar calados. comentarios de gente que sempre quer peixe na mao, mas nunca se contenta com a nossa forma de pescar.

eu sinto lá, em silvania, o exagero da pos-modernindade ou a ausencia total de cultura. e nessa linha tênue, tentamos nao ser covardes. ao menos o palas tenta dar um jeito. mas o pior de tudo, é a falta de reconhecimento.
por outro lado, houve quem elogiasse e fizesse criticas construtivas. quem ajudasse, quem participasse, quem se gabasse. houve quase de tudo, só não houve a participação que deveria haver.
mas respeitamos isso. e nao nos cansaremos assim. sabemos que foram anos pra que as pessoas se tornam tão alheias e temos esse tempo em troca.

o respaldo do fabio, seu e de tantos outros foi ignorado por gente ignorante. por isso, é perdoavel. e por isso, pensei em me desculpar em nome dos silvanienses alienados que deveriam ouvi-los, mas resolvi me calar pra nao cometer nenhuma besteira, como eles.

de qualquer modo, eu me orgulho em saber que pudemos contar com voces, por saber que se importam e que há gente que ainda valorize as coisas que constroem.

obrigada, de coração; abraços.

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