janeiro 28, 2012

Agnès Varda

Assistir nesta noite de sábado o filme “As praias de Agnàs”, autobiografia da Agnès Varda, complementou alguns questionamentos meus sobre a família e as relações entre os indivíduos. Logo no início, a cineasta diz que vai falar dela, mas terá de falar d”os outros, que me instigam, me motivam, me questionam, me apaixonam”. Agnés Varda lembra que desejou fazer um filme feliz, em certo momento da vida. No entanto, mostra-nos que é impossível a constante felicidade. Perdemos objetos, surge a guerra ou a doença grave, falamos ou ouvimos palavras ásperas, que surgem descarregadas de amor. Mas resta a esperança da demência, da senilidade, do esquecimento para encobrir a vergonha, justificar as nossas loucuras. E o esquecimento permite a retomada do amor para voltarmos a acreditar na perene felicidade voltará, que nunca mais será quebrada. Uma pena que estes filmes sejam tão pouco projetados e raramente vistos. Ai! Agnés Varda, às vezes “não falar é uma forma de afeto”, quando alguém se avizinha da morte após definhar com AIDS ou não avolumar o descrédito do amor. No entanto, eu complemento as palavras da cineasta: se não falar é uma prova de afeto, falar é a forma de iniciar ou manter um projeto. Bela a fala final do filme, com a cineasta toda colorida, dançante, junto dos filhos e netos, estes todos de branco, anunciando que “a família é o que se agrupa e se compacta”. Quando o filme estiver nos cinemas, isto é, se ele entrar na programação, poderemos ir juntos.

janeiro 25, 2012

Coro de uma peça de Sófocles

 Estou organizando uma antologia de poesia. Este poema abaixo, que é um coro da peça "Antígona", de Sófocles, é um dos que irei incluir. Se alguém conhecer alguma tradução de domínio público ou for mestre em grego e desejar fazer uma nova tradução, por favor, fazer contato.


Muitos prodígios há; porém nenhum
maior do que o homem.
Esse, co’ o sopro invernoso do Noto,
passando entre as vagas
fundas como abismos,
o cinzento mar ultrapassou. E a terra
imortal, dos deuses a mais sublime,
trabalha-a sem fim,
volvendo o arado, ano após ano,
com a raça dos cavalos laborando.

E das aves as tribos descuidadas,
a raça das feras,
em côncavas redes
a fauna, apanha-as e prende-as
o engenho do homem.
Dos animais do monte, que no mato
habitam, com arte se apodera;
domina o cavalo
de longas crinas, o jugo lhe põe,
vence o touro indomável das alturas.

A fala e o alado pensamento,
as normas que regulam as cidades
sozinho aprendeu;
da geada do céu, da chuva
inclementee sem refúgio, os dardos evita,
de tudo capaz.
Ao Hades somente
fugir não implora.
De doenças invencíveis os meios
de escapar já com outros meditou.

Da sua arte o engenho subtil
p’ra além do que se espera, ora o leva
ao bem, ora ao mal;
se da terra preza as leis e dos deuses
na justiça faz fé, grande é a cidade;
mas logo a perde
quem por audácia incorre no erro.
Longe do meu lar
o que assim for !
E longe esteja dos meus pensamentos
o homem que tal crime perpetrar!

Antígona. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica e Centro de Estudos clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 1992.

Party, de Manoel de Oliveira

Assistir um filme de Manoel de Oliveira é sair da indolência. É impossível não desencadear um processo de questionamento da realidade ao seguir a sabedoria que ele inclui em cada fala de seus filmes. Assustei-me quando fui tardiamente pela primeira vez a um de seus filmes ("Um filme falado"), e o único que até hoje vi no cinema. Hoje, saquei o filme "Party" de uma caixa comemorativa do centenário dele, que encomendei diretamente de Portugal. Um filme que é para ser um tour de força dos sexos entre dois casais, se transforma numa análise existencial da burguesia, do relacionamento amoroso, do vazio existencial. Tanto que para estes eflúvios de inteligência, os personagens talvez nem sejam personagens, pois eles levam os próprios nomes dos atores (Michel Piccoli, Irene Papas, Leonor Silveira e Rogerio Samora). Leonor Silveira e Rogerio Samora, em 1996, estavam belos no sentido pleno da beleza. Já naquele ano, Manoel de Oliveira já enfatizava que a fidelidade já se transformara em algo cansativo; que o ócio esvazia o prazer. Só vendo para crer, para pensar e ver a beleza, esta beleza que independe de correrias, mas quase contemplativa. Manoel de Oliveira é cinema, é poesia na melhor inteligência poética de um Fernando Pessoa.   Ver a página de Manoel de Oliveira.

janeiro 13, 2012

Poema do cão

Sem muitas viagens

furações e velas

encontrarás no outro

a saliva amarga

a mordida ácida

a palavra amarga

tendo na própria boca a losna



Sem muitas viagens

remoções e brocas

encontrarás no outro

o canino agudo

a pesada pata

se com a própria boca rosnas

janeiro 11, 2012

Poema para alguma chuva

De um único dia que tivestes mantido
com artigos de penúria, de esperas
de outros equilíbrios, gemas, moedas partidas
que já escorriam por outros enxurros,
de um quebrável desejo que nem pressentias.


Desejo do barro de ruir, da árvore
de escorregar por uma encosta.
Raios esfoliavam-se ao longe, pendiam
das montanhas as grandes tampas
dos teus pressentidos túmulos
e nem vias.


Estendia-se em côdeas de lama o pão
que nem partistes com irmãos afugentados,
submersos sob teus cabelos, sob teu leito,
com pássaros agora em outras portas,
A roda partida nas poças que escondiam
a trama do estouro, a frigidez da rês morta.


Há o mundo todo com tantas vias
e toda a chuva jorra sobre ti
sem que tenhas almejado ser
o grão para todas as águas
ou o Nabucodonosor dos grandes templos.


Na areia da história Nefertiti cresce.
Outra montanha aguarda Tomé
que para enfrentá-la já se encaminha
desimpedido, ciente que nenhuma chuva,
nenhuma torrente de barro o desmembrará.


Tudo irradia contra,
pedras móveis, a raspa de uma parede.
mas é por um dia.
Convenhamos. Depois de escrito
tudo acontece noutro sopé pleno de barro,
noutro topo, noutro dia.

janeiro 02, 2012

Abertos os salmos, as portas, as janelas.

Abertos os salmos, as portas, as janelas.
E as tochas ávidas pelos territórios,
as horas felizes em alerta,
os santos também genuflexos.
As frutas aguardam as entregas,
de suculentas quase se rasgam, abertas.
O país um ponto a mais na tabela.
Os sóis em seus giros, a poeira assentada,
os botões que se entreabrem,
os seios, as fissuras dos músculos, as veias;
as costuras com os melhores pontos,
os números todos unificados no universo.
As rimas podem ficar quietas,
amparadas em seus zelos;
as palavras podem aguardar
um pouco sossegadas nos corpos.

Os pais, os filhos e seus pássaros e mariposas
caminham em direção
aos dias lavado e costurados,
asas e mãos confiantes, acesos de sol e alegria.