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Devo interromper a leitura do livro Balanço Final, de memórias de Simone de Beauvoir. Sempre fui retardando a leitura de um livro desta romancista companheira de Sartre. É muito enumerativo sobre o seu cotidiano, e acabou não me sendo atrativo.
Mas não podemos deixar de reconhecer que nos grandes reformadores das contutas humanas sempre estão latentes as grandes afirmações. Logo no início do livro há uma frase que me interessou sobremaneira: Usei minha liberdade para desconhecer a verdade do momento que vivia.
O excesso de liberdade que o homem (e a mulher) conquistaram — desde a revolução que Simone de Beauvoir contribuiu para a renovação das relações humanas — acabou por gerar contradições perniciosas para o homem da pós-modernidade.
Há uns quatro anos, por ocasião das comemorações da Semana do Livro, convidado a proferir algumas palavras numa escola pública de uma cidade satélite de Brasília, pude me deparar com situações agravantes que o uso da liberdade tem provocado no andamento das instituições e no comportamento humano. Antes do início do evento, notei que os jovens, em grandes grupos, apanhavam as carteirinhas de estudante e deixavam aa escola. Perguntei para a direção se os estudantes não estavam convocados a permanecer no evento. Disseram-me que os estudantes têm o direito de parmanecer ou de se afastar da escola — em nome da liberdade — no momento em que lhes aprouvessem. E, assim que começou o evento, os palestrantes tinham de usar da palavra diante de uma balbúrdia que os tornavam inaudíveis. Quando chegou a minha vez, simplesmente fiquei calado. Todos foram obrigados a se silenciarem. Disse-lhes que era um convidado e que, se não queriam me ouvir, poderiam ter me poupado de me convidar. E todos me ouviram.
Portanto, como a própria Simone de Beauvoir reconhece, a liberdade não pode ser invocada para quebra de disciplina ou mesmo para que as instituições educadoras — seja ela a família ou a escola — não possam interferir na formação de jovens. Aquele que usa o nome da liberdade para desrespeito da convivência harmoniosa, da elegância, da cortesia — não é livre. É um egocêntrico licensioso. A liberdade não ultrapassa o respeito às normas. Se uma escola tem uma lista de condutas, o jovem não pode ultrapassá-las. A casa têm uma disciplina a ser seguida. Os pais e os educadores existem para afirmar as condutas que o homem livre deve seguir, e não para permitir a licenciosidade. Se a escola e os pais se furtam desse papel só podemos esperar o aprofundamento da crise egocêntrica em que o homem vem se metendo, com geração de violência e perda de elegância.

Comentários

Anônimo disse…
http://www.youtube.com/watch?v=6gmP4nk0EOE&eurl=

Um link para quem é desencantado com textos da internet...

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