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Tenho seguido à risca a decisão de não entrar em conflito crítico. No entanto, a minha compreensão quanto ao filme Babel, que assisti a uns quinze dias, não coincide com a opinião competente de amigos e da crítica especilializada.

É pouco dizer que o filme do mexicano Alejandro González Iñárritu faz uma advertência à política internacional dos EUA. Que tudo de ruim que eles promovem contra outros países acaba se voltando contra eles mesmos. Em razão da defesa de uma mensagem não podemos esconder (ou calar) as deficiências da composição de uma obra de arte. Só a mensagem não valida uma obra.

Não deixamos de reconhecer que as diversas ramificações da história, assim como em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, acabam se ajustando bem na intenção final do autor. Cada personagem, com sua história desgarrada — seja da mexicana, da japonezinha, dos tunísios e marroquinos, ou mesmo dos americanos — funcionam bem isoladamente ou no contexto geral. Para mim, o que melhor funcionou foi a parte japonesa, pois tratou da questão da afetitividade de uma jovem deficiente auditiva com a carga de preconceito que a cerca. Iñárritu poderia fazer um filme só sobre essa temática.

No entanto, o filme peca na montagem, na criação de personagens (veja-se o caso do tunísio que circula junto com Brad Pit, falta-lhe carnalidade) e na escolha de cenas desgastadas e inúteis. Em Os sonhadores, quase mando Bertolucci para o limbo por trazer uma cena de masturbação ridícula. Agora em Babel a cena não só se repete — como se fosse uma novidade a iniciação sexual do adolescente através da maturbação — quanto vem acompanhada da ridicularização da família com o desnudamento de uma garota pelo próprio irmão. Não discuto a questão ética deste tratamento da postura sexual da adolescência — apenas não creio na existência de grandeza e de inventividade em cenas desgarradas iguais a estas (será que foram os americanos que levaram prática da maturbação para o Marrocos, já que o filme está criticando os EUA?).

E outra falta de inventividade na composição do enredo em Babel: no instante do desespero do personagem americano, perdido no Tusísia, com a esposa baleada, sem alternativa para encontrar um hospital, os responsáveis pelo "guion" não conseguem desenvolver uma intensidade narrativa e descambam para a burrice de ensandecer o personagem, que fica dando socos-chutes-empurrões a torto e a direita. A ação que se quer dar ao filme, neste caso, acaba terminando apenas em ridicularia, ainda mais que ela se repete, com as mesmas nuanças. Portanto, em Babel, as ridicularias são uma freqüente.

E para encerrar a notação das cenas de ridicularias: desnorteado na montagem, e mesmo no fluxo narrativo, Iñárritu (ou sei lá quem o auxiliou) se perde numa das cenas finais. Arrasta-se com a personagem baleada, sem saber onde acomodá-la, já que o próprio enredo já não sabia onde ia parar. Parece-me: enchimento de linguiça numa história que poderia ter melhor carnalidade criativa, já que a mensagem é oportuna.

Comentários

...não vi esta babel,mas não deve ser diferente das outras linguas...prometo se ele se tornar cult um dia vejo na telinha e dou meu pitaco...
Anônimo disse…
De dar inveja aos críticos dos jornal do Correio Brasiliense.

Um grande beijo,

Jackie.
Anônimo disse…
De dá inveja aos críticos dojornal do Correio Brasiliense.

Um grande beijo,

Jackie.

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