março 31, 2007

A segunda sessão de cinema

Legenda: Donaldo Mello, João Carlos Taveira, Ronaldo Costa Fernandes, Robson Corrêa de Araújo, Fábio Coutinho, Antônio Miranda e eu (Salomão Sousa)


Neste último sábado de março,
quando o País enfrenta a paralização dos aeroportos,
e as cigarras ainda não cantam,
mas as abelhas ainda fazem mel,
ainda que colhendo agrotóxico em meio néctar,
amigos vieram à minha casa
para mais uma sessão de cinema.
O nosso propósito é o conhecimento
de filmes clássicos e raros,
sem exibição no País
ou há muito tempo fora das salas
dos cinemas da cidade.
Desta feita, assistimos "O Homem de Aran",
de Robert Flaherty, que se insere no rol
dos documentários ensaiados. Flaherty
é pioneiro nesta modalidade de fazer
cinema com "Nanook". Hoje existem
exemplos também bem sucedidos,
tais como "Camelos não choram"
e "ABC África", de Abbas Kiorastami —
um dos cineastas de minha predileção.
"ABC África" pode ser um filme
das próximas sessões
de nossa sala de raridades.
Nos documentários ensaiados,
o cineasta têm o domínio dos aspectos da vida
que deseja abordar. No caso de "O homem de Aran",
o aspecto negativo do homem da localidade
focalizada é abolido. O homem é bom.
Poderia até ser refilmado para afirmação
de que o homem atual também pode ser bom.
Na próxima sessão, é minha intenção
exibir "O Thiassos", de Theos Angelopoulos,
cineasta grego, com legenda em espanhol.
Ainda não assisti o filme,
e acredito que ele ainda não foi exibido no País,
apesar de ser de 1975. Trata-se — apesar de ser
obra de ficção — de uma análise da história do
teatro. São quatro horas de filme, mas é, certamente,
com a perfectibilidade de Angelopoulos,
obra prima imperdível.
Recebi grandes amigos para a sessão de
"O homem de Aran". Antônio Miranda,
que é o primeiro dirigente da Biblioteca Nacional aqui
em Brasília. Na próxima quinta-feira, ele já começa
as atividades na Biblioteca, com um recital em homenagem
ao poeta Fernando Mendes Viana, de saudosa amizade.
Ronaldo Costa Fernandes, que está na Fortuna Crítica
de meu livro "Safra quebrada", que lançarei em 15
de maio, no Cape Diem, aqui em Brasília, e que
vem de concluir — poxa, ainda não tenho autorização
para divulgar ... Fábio Coutinho, que vai dominando
com o seu carisma o grupo de escritores de Brasília,
e que de cara já entrou na chapa da nova diretoria
da Associação Nacional de Escritores, cuja eleição ocorre
neste mês de abril. Donaldo Mello, que entrou nestas amizades
pelos braços de Ronaldo Cagiano, que não esteve entre nós
nesta audição. E os amigos que estão sempre aqui,
com ou sem sessão de cinema: João Carlos Taveira,
Herondes Cézar (que partiu mais cedo e ficou fora da
foto quando me lembrei de fazâ-la) e Robson Corrêa de Araújo,
que fez as fotos que ilustram o "Safra quebrada".
As boas amizades devem ser regadas
com boa arte, boa conversa e boa comida.
Revivemos as quitandas de Goiás.
Para o lanche, preparamos "mané pelado"
e pão-de-queijo com manjericão.
Até a próxima sessão.

março 17, 2007

Praticamente fechada a arte final do meu livro Safra quebrada.
Gosto de textos confesionais que os autores fazem acompanhar os seus livros.
Preparei o meu para vir como posfácio de minha reunião de poesia.
Está aí abaixo, já com alterações propostas por alguns amigos.
Será que está piegas? Irrelevante?
Dê a sua opinião. Pode ser aqui mesmo, como comentário.

Reflexões do autor

Desde que me decidi a apresentar, estimulado pela amizade zelosa do amigo Vassil Oliveira, a produção de mais de três décadas de poesia, de forma revisada, sempre estive consciente de que não tenho o direito de desvirtuar as experiências intuitivas (quase instintivas) que — reconheço — impregnam meus primeiros livros.
Originário de uma região em que as famílias — quase todas constituídas de analfabetos — usavam vocabulário ainda da época do colonizador, com palavras arcaicas num uso fonético arrastado e em frases quebradas e entrecortadas, mas com a mágica da densidade da natureza, demorei muito a criar a consciência da tradição da poesia brasileira para que pudesse nortear rumos para alguma poética pessoal. Só fui ter explicações conscientes para a minha dificuldade para a formulação de longos períodos e descobrir a velhice do meu vocabulário quando, na década de 90, empreguei o termo “fussura”. Não constava dos dicionários brasileiros. Só iria encontrá-lo num velhíssimo dicionário impresso em Portugal. Assim, se algum leitor achar estranho o aparecimento de alguma palavra arcaica em minha poesia, não é por preciosismo que ela está ali, e muito menos as repetições de frases cheias de cortes.
Até perto dos quinze anos, não tive outro livro entre as mãos além da pequena cartilha que meu pai buscou na cidade para que eu fosse alfabetizado, e dos livretos de cordel que ficavam guardados a sete chaves no baú do quarto de meu avô. Foram muitas as noites em que, sentado ao pé da fornalha, li aqueles folhetos misteriosos para os peões e as pessoas da família, enquanto meu avô debulhava o milho que, logo de manhãzinha, as galinhas esperavam buliçosas ser jogado em chuva no terreiro. Não existiam livros nas casas que freqüentei na infância.
Aprendi mais com a natureza. Quando, com a linguagem goiana da infância, digo “mais”, indico que não havia nenhuma instituição para orientar a formação — não havia nem mesmo alguém para me apresentar um poema, quanto mais querer que me fosse indicado rumo à uma poética. Quando uma criança, por decisão própria, mostrava interesse pelos estudos, julgavam-na inteligente — um prodígio, todos passavam a dizer que “poderia até ser padre”. Tratava-se da tradição familiar, e mesmo da irresponsabilidade político-administrativa, de julgar que cada qual era responsável pelo próprio destino, mesmo quando a questão envolvia crianças.
E a cultura familiar ainda não vive a mesma situação? Tenho testemunhado disparates — os quais prefiro calar —, pois, se falo, correrei o risco de ser chamado novamente na polícia. Prefiro recomendar a todos que sejam cautelosos na formação dos filhos e com a inserção da cultura dentro da própria casa. Sem a convivência com livros, discos, discussões culturais, estímulo orientado e vigilante à educação, a visão das futuras gerações não será animadora. A família brasileira ainda não adquiriu o hábito de trazer a cultura para dentro de casa, e por isso não sabe que a casa está bem menor e bem mais vazia sem a presença de livros e de outros objetos culturais.As próprias pessoas, na convivência com a cultura, se sentem maiores, já que passam a enxergar com menos pobreza. Com a cultura, o indivíduo não enxerga mais só com a busca do valor da utilidade, mas com o valor do prazer estético. E ninguém aprende atribuir valor estético sem viver a cultura, cotidianamente, em casa e fora dela. Quem não tem a força do imaginário — que só a cultura dá —, tem de substituí-la pela força do punho.
Era dentro da natureza que o homem tinha de se resolver — arrancar sustento e beleza. Aprendi, antes de qualquer coisa, que tudo tem nome. Os pássaros, os objetos (sovela, formão, rabicho), as cobras (caninana), as árvores (assa-peixe, vinhático, imburana)… E que a linguagem mantinha paralelo com a natureza. Bastava dizer “sua caninana” para indicar o gênio peçonhento de um indivíduo! Ouvia a mãe, depois do dia de labuta, reclamar: — Parece que me passaram no engenho. Era impossível não entender que ela se sentia sugada de toda seiva, só no bagaço. Com a natureza, aprendi a liberdade. Ninguém me impedia de me movimentar pelas capoeiras, pelas trilhas dos morros, raspando em cobras e touros. Mas, se avançava demais, feria-me. Ainda me lembro dos lanhos quando ajudei a Delfina a arrastar um tamanduá meio vivo, de que ela ia aproveitar a carne para a alimentação. Meio morto, o tamanduá ia abraçando as touças de capim e raspando as garras em nossas pernas. As minhas mãos trazem as estrias dos cortes destas experiências. Quem não se fere, julga-se onipotente. Sem as marcas da experiência não há lembranças ou limites para a liberdade.
O Modernismo já alcançara a concentração de Jorge de Lima e Cassiano Ricardo e eu ali, debaixo das laranjeiras, ouvindo os desafios do andarilho Vicente, que exigia que eu tagarelasse com ele em rimas — já que não podemos chamar de versos aquela nossa arenga. Ninguém para me trazer os clássicos gregos ou latinos — só a pequena lição de rima de meu pai, que não tolerava as repetições em “ão-ão-ão” das músicas sertanejas.
Inquieta-me passar os olhos pelas inscrições tumulares e imaginar: “Aqui jaz Salomão Sousa.” E, na placa, constar que nasci na Fazendinha de meu avô materno, à beira do rio Calvo (Silvânia, Goiás), que ali vivi até os 12 anos de idade. Entre bois, entre gravatás.
Talvez, para alguém que está no túmulo, referência como esta sirva para reavivar as imagens que alguém registrou de uma localidade numa determinada fase da vida. Só nisso a morte me inquieta: apagar a memória, pois acredito que as lembranças que temos da infância são o nosso paraíso. Como apagar o cheiro das flores de moça-branca que enfeitavam o presépio de minha tia Criola?
E me indago se a placa será encomendada por um amigo ou por incumbência de algum parente. Depois, ela ir se esfumaçando com a ação da chuva e do sol ou por ação de um traficante de pedras tumulares que irá levá-la ao mercado negro, num contributo para apagamento da memória do pouco que terei feito durante a vida. Não acredito que a literatura garanta a imortalidade, pois o livro é perecível, e perecível qualquer outro meio de armazenamento de textos — e mais perecível a horda dos herdeiros do humanismo, que é onde residem aqueles que arquivam o acervo cultural da humanidade. E perecível a pedra tumular que, roubada, irá enfeitar a parede de um templo, ou servirá para a inscrição de ornamentar outro túmulo.
Ainda criança, sentia-me inquieto quando retornava das bandas do rio dos Bois, vindo das cevas do meu pai, de caçadas de tatu ou da anual visita à fazenda do Zequinha para chupar jabuticabas, e passava rente ao Cruzeiro — local em que fora fincada uma cruz gigantesca, de madeira sem lavrar, que servia de marco onde eram enterradas as crianças mortas com poucos dias de nascido, ou que já chegavam ao mundo sem vida. Não consigo esquecer de minha tia Criola se lamentar ao saber que animais silvestres revolveram a cova rasa onde fora enterrado um dos seus natimortos para se alimentarem do corpo pequenino. Sentia minhas carnes sendo destroçadas sempre que avistava aquela cruz apodrecida no meio das árvores da restinga. Só de lembrar sinto os nervos se contraírem em dentes afiadíssimos.
Imagino outras inscrições em meu túmulo — deixa saudades. Estas também irão se apagando no decorrer dos anos. Quem irá se lembrar daquelas crianças destroçadas, depois de mortas, nas covas rasas daquele Cruzeiro? Volto a indagar: por que nunca escrevem num túmulo que o morto em questão deixou inimigos, que seu nome ficava na gaveta para esquecimento já em vida, que foi um assassino de juventude, um fomentador de egocentrismo ao impedir a entrada de cultura na própria casa, ou adepto de políticas totalitárias.
Quase ninguém pratica ações com o fito específico de deixar saudades ou causar repúdio aos inimigos. Sei que escrevo por um prazer pessoal antes de qualquer compromisso com a sociedade ou com a língua. Quando, enterrado em repartições públicas sob o peso aterrorizador dos governos militares, e eu compunha em silêncio os poemas que integrariam meus livros, sabia que a poesia não libertaria ninguém que estava sendo preso — apenas tentava encontrar ou reviver alguma beleza para sobrevivência. Fiquei emocionado ao rever aqueles poemas para a montagem desta Safra quebrada, e constatar que não foram inúteis — pelo menos para reavivar a experiência daquele momento eles poderão ter serventia, e, de alguma forma, contribuem para relembrar “o ar negro” que pairava sobre todos nós naquele momento histórico do país. E não temo chamar de “quebrada” a minha safra, pois ela seria muito mais farta — certamente — se para mim outra formação tivesse sido oferecida. E quantas outras safras seriam mais férteis se tanta juventude não ficasse entregue à própria sorte nesse país! Quando jovens pobres, vidas desgarradas; quando jovens abastados, desgastados pela incultura de vícios óbvios! Grande parte da juventude do meu Estado de Goiás já está comprometida no futuro pelo alcoolismo. Quem não sabe que isso não é poesia?
Muitos poderão indagar sobre a necessidade de eu mexer nestes guardados. Fui motivado pela experiência de ouvir de meu filho, num dia em que fiz palestra na Associação Nacional de Escritores e, de forma livre, abordar episódios de minha vida. Espantou-se de viver ao meu lado e não saber que eu tivesse passado por aquelas situações. Vindo da tradição de narrações orais, não me sinto envergonhado em deixar por escrito estas abordagens. Dificilmente a história de minha família será remontada, já que ninguém deixou nada por escrito. Sequer correspondência. E nenhum registro iconográfico. Desconheço que alguém tenha mandado me fotografar antes dos meus quinze anos. Guardo uma única relíquia daquela fase de minha vida: a toalha bordada por minha mãe, com a qual fui batizado. Ali não está o meu nome. Mas o dela. Sem saber ler — no afã de grafar e talvez perpetuar um pouco mais o próprio nome — pediu a alguém para desenhá-lo e, assim, compô-lo em ponto-cruz. E o nome de Maria Delmira de Sousa vai se eternizando a partir daquelas letras enfeitadas pelas linhas coloridas enquanto consigo que o pano não acabe virando pó. Com essas sutilezas, a vida construiu em mim a poesia e a alegria.
Ainda que me denunciem na polícia, que escolham o correr da noite para me dizer que não tenho “berço”, linhagem, ou qualquer outra ancestralidade coronelesca; e gritem que, se os tempos fossem outros, enviariam os mensageiros da morte; ou reabram os porões; ameacem-me com a gaveta se eu mostrar dissensão — não apagam a urna de minha alegria. Só de saber que escapei da doença de Chagas e de ser enterrado no Cruzeiro, que encontrei escritores, que me correspondi com desconhecidos de todo o país para não me sentir desligado da humanidade, que pude freqüentar bibliotecas — principalmente a Biblioteca Municipal de Silvânia, onde tive o primeiro contato com os modernistas —, que li boa fatia da poesia universal; que tive incentivadores como o Ivo Lenza, que tive amigos do naipe de Esmerino Magalhães Jr. e José Godoy Garcia, a alegria não se desgarrará mais de mim.
Seria masoquismo dizer que foi alegria saber que uma leitora, com nosso primeiro livro nas mãos, chorava no ônibus após ler um poema sobre a indiferença reinante na cidade. E a indiferença deve ser boa temática, pois, anos depois desse primeiro incidente, soube do surto ininterrupto de choro de outra garota após ler um poema do livro Falo, também sobre o mesmo tema. E não a conheci e não a tive rindo entre os braços! Mas é mais emocionante o relato de idênticos incidentes — e eles se repetem — do que um telefone no meio da noite com a voz invejosa da morte. Por não se admitir crítica, vivemos momento de tão insossa produção cultural. É a crítica que acende os brios do autor — obriga-o a ser vigilante, a fazer aparas para não se mostrar frágil, a buscar azeite para untar a versatilidade de invenção.
Para quando for encomendada a minha pedra tumular, ainda não sei mensurar se deixarei saudades e atitudes que possam servir de exemplo a descendentes e gerações futuras. Coube-me viver num momento crítico para a linguagem da poesia brasileira, que é onde escolhi transitar com a fantasia. Dentro desse momento de crise — poesia marginal, de resistência, até chegar à pós-vanguarda e de indiferença com tudo que traz a marca humana —, a minha contribuição só poderia transitar dentro da insegurança. Dúbios livros que publiquei no final dos anos 80 e na década de 90! Só depois todos saberiam avaliar que nada estava resolvido naquela fase, nem na cultura nem no campo político-administrativo. Impeachment para todos a todo momento, e todos o mereceram. Até mesmo a poesia.
Não levarei ódio para o meu túmulo — podem grafar no meu epitáfio. Levarei as lembranças dos arredores de Silvânia, andarilho pelas ruínas das minas de ouro. Da leitura dos suplementos literários que chegavam com os jornais que o Antônio do Clóvis comprava para papel de embrulho. Só para ter o direito à leitura, eu me fazia de mensageiro para apanhar aquelas relíquias semanalmente na agência dos correios e telégrafos. Ah! os sonetos de Florbela Espanca no jornal O Dia! Enquanto lia, fazendo resumos para que ele também se inteirasse dos acontecimentos do mundo, o amigo Vicente, ali atrás do balcão, preparava sorvetes artesanais naquela máquina ruidosa, que parecia um corpo mecânico desengonçado. Levarei a memória das viagens à cerâmica do Jairo com o almoço para os peões. Sentava-me ali para apreciar aquela máquina alemã que parecia um artefato alienígena. A máquina — com uma força intestina descomunal — empurrava o barro para ser cortado em tijolos e telhas que, após a secagem, iriam aos fornos de bocas avermelhadas.
Levarei para o meu túmulo a lembrança de chegar a Brasília com uma malinha debaixo do braço e a caixa com meus livros aos ombros. Acolhiam-me os meus padrinhos Mariinha e Geraldo Brasil. Confiavam na inteligência daquele garoto que gostava de ler. Só há uma maneira de retribuir: não trair a confiança que em mim investiram. O riso com que apareço na foto em que me encontro no meio daquela família comprova a alegria de ter vivido com eles.
Fiz Científico no Colégio de Taguatinga Sul, onde recebi do poeta Anito Steinbach as primeiras orientações objetivas para a prática da poesia. Ainda que roubem a minha lápide, não apagarão nossas conversas pelas altas madrugadas, nas paradas de ônibus. Daí, ampliou-se o cordão de amigos, que iria contribuir para cimentação da poesia em minha vida. Wil Prado, com a fanática resistência crítica à ditadura; Ronaldo Peixoto Alexandre, com a aliança intrínseca de irmãos; Herondes Cézar, que me abriu portas para novas correntes de pensamento e obrigou-me a investir na filosofia, e me enriquece sempre com a crítica dura e sistemática. Perdão, se não acrescento os objetos diretos sugeridos na leitura deste livro. O João Carlos Taveira, com o trânsito contínuo em nossa casa, que já não é só meu amigo, mas de toda a família. O jornalista Vassil Oliveira. Ponto, pois seria limitante qualquer referência que tentasse ser definidora da importância de sua presença em minha vida. São muitos os amigos goianos. Impossível não haver a inquietação crítica ao lado de Brasigóis Felício, que fica aqui representando todos os outros! Foram poucos os encontros com Yêda Schmaltz, mas suficientes para algo deslocado dentro da paisagem sempre que retorno a Goiás. Mas o importante é que ela e o José Godoy Garcia tornará, com o passar do tempo, a poesia goiana sempre mais robusta. Essa perspectiva torna a ausência deles menos cáustica.
Portanto, aqui a imaginar o meu epitáfio, descubro que morrer não é um bom augúrio para o escritor. É perder amigos e perder a oportunidade de fazer novas amizades. Chegaram recentemente Robson Corrêa de Araújo e Ronaldo Costa Fernandes com as mãos cheias de frutos generosos. As amizades são grandes árvores, que vão criando ramificações, as quais temos de cuidar bem para impedir que parasitas se depositem sobre elas. Nossa tarefa humana — tarefa cotidiana: impedir que as amizades se definhem, e incentivar que elas se reproduzam. Busco reproduzi-las entre a juventude. Na velhice, quero ter amizades novas para ter acesso à poesia nova.Não ponham tampa no meu túmulo. Senão os amigos e mesmo os inimigos que ali comparecerem, não poderão ver o meu pó — feliz.

março 11, 2007

A arte é uma pele que vestimos! E a perdemos todos os dias!!!

O filme A Pele surpreende!!! Roteiro redondíssimo! Homenagem à fotógrafa Diane Argus também redondíssima! A cena da escada descendo do teto em homenagem à Rolleiflex é capciosa!! Prova de que o filme agüenta do início ao fim como uma homenagem à fotografia!!
Não é um filme sobre a loucura. Não compareça ao cinema em busca da loucura, sadomasoquismo — nada disso!!! Mas em busca da compreensão de que é necessária interação com o estranho para que o estranho deixe de existir!!!
Só podia ser com Nicole Kidman, cujo olho já é uma câmera!!!
A Pele!! Filme Inquietante!!

março 08, 2007


Eu tinha dado por encerrado o meu ciclo de comentários sobre cinema. Mas a temporada é tão rica, e — acima de tudo — cometeria uma injustiça com Clint Eastwood, que já me deu tantas alegrias através de outros filmes (Menina de ouro, As pontes de Madison, Bird, e tantos cowboys), se eu não manifestasse a minha comoção ao assistir as Cartas de Iwo Jima.

Este filme de Clint Eastwood compensa o didatismo de A conquista da honra, que assisti anteriormente um tanto desanimado.

Logo de entrada, fiquei de cara caída. O comandante, que chega para coordenar o efetivo japonês na ilha de Iwo Jima, apesar de durão, sistemático, é capaz de interromper atos de discórdia entre soldados e de lamentar que partiu para a guerra sem limpar o piso da cozinha (o chão da cozinha, dizemos em Goiás). Portanto, Clint Eastwood já indica que o homem não precisa perder a postura "humana" só porque está na guem conflito. E depois ele vai montado o resto... Se o japonês, no cinema de Hollywood, é o inimigo, vamos ver que ele também está defendo uma pátria, que ele também tem família, ilusões, dores, vitórias, derrotas. Tem muito mais: amizades, amizades até mesmo na pátria do inimigo. Fica afirmado: todo aquele que está em guerra - está em guerra porque tem uma pátria e que não quer perdê-la, nem mesmo uma pequena ilha que serve de porta de entrada para esta pátria pode ser desgarrada. Quer a sua pátria inteira, limpa, a partir da cozinha, e que nada esteja sujo, nem mesmo o seu acampamento de batalha! Quem vai descarregar o pinico?
Como o americano, em Cartas de Iwo Jima, é o inimigo, é ele que pilha e humilha. Portanto, o inimigo é o sujo. O inimigo é sempre o sujo — de atitudes sujas, de pátria suja...
E o velho Clint conseguiu intercalar com riquezas de ouro as leituras culturais da tradição japonesa (veja o surgimento da espada no campo de batalha) e mesmo da tradição do teatro shakespeareano — ou aquele garoto, que vive relembrando a amada, o seu trabalho de padeiro, não é um bobo da corte (da corte da guerra)? E Kurossawa também já colocara o bobo da corte no seu filme Ran (que já assisti tantas vezes)!! É o fogo cruzado da guerra das culturas. Fogo cruzado que não nos fere — apenas nos enriquece. É isso. Quem ver o filme, veja o resto. Sinta que os dramas humanos não maiores ou menores aqui ou ali, mas que a paz talvez deixe a vida um pouco mais em ordem. E, de qualquer lado em que estivermos, procuremos viver com limpeza (que signica nobreza no dicionário de qualquer pátria).

março 02, 2007

Envolvido com a organização do livro "SAFRA QUEBRADA", que vai englobar poemas de todos meus os livros que já publiquei (ver perfil), e um inédito (Gleba dos excluídos), acabei ficando algum tempo sem compor poemas. Bem ou mal, consegui organizar dois, que deixo aqui:

E se todos decidíssemos pela ausência?
Ficássemos quietos sem nenhum verso
os peixes secos
esquecidos na travessa

Ficássemos com a nádegas mofadas
capim assim torrando
sem que viessem os bafos das bocas
terras férteis sem chuva que as amoleçam

Fôssemos as histórias perdidas
se não vêm quem as ouça
e outro que nunca soube
do encontro que trouxemos tão perto

Estivéssemos onde nenhum herói aparece
nas esquinas onde os homens
não sabem qual será a conversa
Sermos a lua dispersa
o sol que não está mais no universo

Trava que se quebra
e nenhum rosto avança pela fresta
Fôssemos o que ria
entre os olhos que padecem
quando fossem as quedas
dos rubis adversos

Há as chamadas do sol, com as chamas zen.
Há as pontes, o alecrim
que outros inalam, longe.
Há as fugas, as fortes batidas do coração.
Enche-nos a vida quando
não estamos sem.
Inalam em nós, dentro,
nada que foi anjo. Talvez um filho,
um estranho de outras viagens.
Não dar por finda a corda
que se estira até o outro lado.
Não há o limbo, as portas descoradas,
só um território bem
animado pela paz.
Só iremos apanhar
se aproveitarmos a viagem,
as outras ternuras, chegar quem
irá inalar o cheiro de terra
bem nas nossas mãos.