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Mostrando postagens de Janeiro, 2008
Será a bandeira da pose amarela
o bem-te-vi na ponta da piteira
A sua geografia ao longe
em luares espalmados de besouros

O suicida se esquece em meus braços
A sua geografia de lutas secas
ainda que se enfureça quase dentro
em cio
exangue e em fúria
um touro ou traça

O suicida amontoa cobre nos pulmões
telas de vidro
bestas famintas de mofo cítrico
Não entende que são reais
os pulgões que o comem pelas bordas

Sem nada para compreender
não lhe resta para comer
nem besouros ou libélulas
A geografia do suicida
não assinala nenhum luar de festa

@ Salomão Sousa
Domingo com muitas crianças em casa.
Pouco tempo para raciocionar,
mas ainda assim
pude conversar com a minha visita mais assídua predileta:
o poeta João Carlos Taveira.
E também, após assistir trecho de um filme de avant-guard,
imaginar um possível título de livro de poesia:
"Treino para enlouquecer".

E também, em tempos de febre amarela, escrever um miniconto para o Robson Corrêa de Araújo.

"O pernilongop entrou no quarto com Tcheckhov."
Fiz a tradução de um poema do espanhol Pedro Salinas.
Dele são os poemas amorosos que ainda tolero ler,
sem sentir tão ridículo.

DÁ-ME TUA LIBERDADE

Pedro SalinasTradução: Salomão Sousa
Dá-me tua liberdade.Não quero tua fadiga,não, nem tuas folhas secas,teu sonho, teus olhos cerrados.Vem a mim a partir de ti,não a partir do teu cansaçode ti; quero senti-la.Tua liberdade me traz,assim igual a um vento universal,um odor de madeira.remotas de teus móveis,um monte de visõesque tu viasquando no alto de tua liberdadejá cerravas os olhos.Que bela tu livre e de pé!Se me dás tua liberdade me dás teus anosbrancos, limpos e agudos como dentes,dás-me o tempo em que a gozavas.Quero senti-la como sente a águado porto, pensativa,nas quilhas imóveisem alto mar. A turbulência sacra.Senti-la,vôo parado,assim como a quieta várzeasente a ramaonde vem a ave e pousa,o ardor de voar, a luta pertinazcontra as dimensões azuis.Dencanse-a hoje em mim: vou gozá-lacom um tremular de folha em que descemgotas do céu ao …
"Conversas demoradas e idiotas, convidados, solicitantes, os dois ou três rublos de gorjeta, os gastos com os cocheiros para visitar os doentes que não me dão nem um centavo —, enfim, uma bagunça tamanha que me dá vontade de fugir de casa. Pegam dinheiro emprestado e não devolvem, surrupiam-me livros, não dão valor ao meu tempo... Só me está falando um amor feliz."

"Há um pernilongo em meu quarto. De onde terá vindo?"

Das cartas de Tchékhov a Suvórin, seu editor e amigo
Neste dia em que acabam as minha férias,
acordo com a sensação de que falo
todas as línguas do mundo,
menos a que cresceu comigo,
que deu voz às minhas alegrias
e realidade ao universo em que sempre vivi.
Não consigo me comunicar com meus familiares,
com a realidade que me circunscreve,
com a anarquia dos meios de comunicação,
com.

A poesia é uma procura — de um lugar, de uma ordem,
de um Reino, ou mesmo de um desastre infernal
a nos comer eternamente o fígado.Todo homem está numa procura. De si mesmo, de um lugar. A procura dos limões para o olhar,
dos girassóis para o sol das manhãs. Uma frágil mão para fortalecer a nossa frágil mão.
A partir da tradução de Octavio Paz,
deixo aqui a minha versão do poema que Czeslaw Milosz
dedicou ao poeta hindu Raja Rao,
que trata desta universal procura.
Raja Rao, como gostaria de saber
a causa desta enfermidade.Anos a fio não pude aceitar
que onde estava era meu recanto.
Em outra parte estava meu lugar.A cidade, as árvores,
as vozes dos homens,
não eram, não estavam.
Vivi…
Estamos em Goiânia para rever amigores escritores e para acompanhar o lançamento dos 71 livros da Coleção Goiânia em Prosa e Verso, que aconteceu no Jóquei Clube. Depois daremos mais detalhares sobre alguns livros, principalmente da poesia de Fernanda Cruz, apresentado pelo amigo Brasígóis Felício. O Vassil Oliveira, amigo, jornalista política e escritor, foi anfitrião amoroso. Passamos uma tarde na Marcos Caiado Galeria de Artes, em conversas valisosísismas com os poetas Marcos Caiado e Carlos William, da nova geração da poesia goiana, e em companhia de obras de importantes artistas, tais Siron e Fabíola e Poteiro... E encerramos com chave de ouro: uma tarde com Brasigóis Felício na Livraria Saraiva.
Estamos seguindo para Silvânia para encontro de familiares e para uma busca de alguma trilha de nossa raiz genealógica.
Uma tarde inteira na Galeria do poeta Marcos Caiado (C), e com a a companhia de Carlos William, outra expressiva presença da nova poesia goiana
Delermando Vieira Sobrinho (D) e Valdivino Braz (C), amigos poetas, no lançamento no Jóquei Clube de Goiânia.
Brasigóis Felício, em nosso encontro na Livraria Saraiva, num longo diálogo sobre a literatura goiana e rememórias de nossa amizade
Neste início de férias, tenho aproveitado o tempo para ver alguns filmes.

Sem ler nenhum crítica antecipada, vi 'Mutum', da cineasta brasileira Sandra Kogut. Trata-se da livre adaptação de uma novela de Guimarães Rosa. Eu preferia que não fosse mencionado que se trata de uma adaptação, pois a linguagem, o tempo e mesmo o ambiente do filme não é o mesmo do escritor mineiro. Há intervenções de muitos materiais estranhos ao universo roseano. Em Guimarães não há lugar para o eucalipto no escript ou de excesso de plástico ou de roupas confeccionadas de polietileno ou sei lá que outras fibras sintéticas. Mas valeu a produção. Talvez sejamos tão íntimos daquela realidade — eu que vim do sertão goiano — que não há impacto na compreensão do processo de formação do personagem. Talvez a rigidez ainda seja maior do que aquela enfrentada pelo Tiago de Kogut. Mas é isso, acredito que tenha faltado um pouco mais de pesquisa do universo roseano. Para baratear produção acabaram atualizando dema…
O Carlos Willian me pediu um pequeno texto para o Opção Cultural com indicações de leitura para 2008. É com o texto que escrevi para ele que saúdo todos os meus visitantes com meus votos de um 2008 de mais humanidade:

São diversas as justificativas para a obrigatoriedade da leitura. Uma de Harold Bloom é a que mais satisfaz. Em uma de suas obras ele diz que devemos ler para combater a “presunção”. E, para combater a presunção, o acompanhamento de todos os segmentos das artes é tarefa imprescindível. Tarefa imprescindível, igualmente, o desenvolvimento de alguma tarefa — nem que seja crítica — que leve à participação social. Não adianta a leitura, a música, o teatro, se não há alguma integração com o humano.O que se espera, em cada início de ano, é que a participação aconteça de forma mais integradora. Aguardamos sempre que desembarque nas livrarias novos livros definidores, desintegradores — e, com eles, desintegremos a nossa cavalar desumanidade. Presumimos que temos conhecimento, pr…