Podemos estar em silêncio, o cio frio,
no entanto algo fleme, inflama, infuna.
No entanto, algo incomum move.
A poesia, que é incomum.
A fartura do desejo, que é incomum.
A fartura de Whitman,
que é incomum!
Que o Ronaldo Costa Fernandes me corrija,
se erro.
Que o Ronaldo Cagiano me corrija,
se me engano.
Que o Vassil Oliveira me corrija,
se vacilo!
A poesia é meu território, e a cada dia planto e colho grãos em seus campos. Com a poesia, eu fundo e confundo a realidade. (Linoliogravura do fundo: Beto Nascimento)
25 de junho de 2009
OH! MEU CAPITÃO! MEU CAPITÃO
Walt Whitman
Versão: Salomão Sousa
I.
Oh! Meu capitão! Meu capitão! nossa fatal viagem é finda;
O barco venceu as tormentas, alcançados os prêmios que buscávamos;
O porto está próximo, ouço os sinos, o povo se exulta;
Embora os olhos sigam as firmes quilhas, a embarcação sinistra e audaz:
Mas oh! coração! coração! coração!
Não derrame nem uma mínima gota
No convés onde meu capitão jaz
Estirado frio e morto.
II.
Oh! Capitão! Meu capitão! Levanta e ouça os sinos;
Levanta — por ti a flâmula flana — por ti a corneta trila;
Por ti buquês e grinaldas com fitas — por ti as multidões nas margens;
Por ti eles chamam, se aglomeram, os rostos ansiosos à procura;
Oh! Capitão! querido pai!
Passo embaixo de ti este braço;
No convés é um sonho que jaz,
Onde te estirastes frio e morto.
III.
Meu capitão que não responde, os lábios pálidos e tranquilos;
Meu pai que meu braço não sente, está sem pulso e vontade;
Mas o barco, o barco ileso ancorou, a viagem feita e conclusa;
Da terrível viagem, a vitória do barco, os objetivos alcançados;
Exultem-se, oh! margens! e toquem, oh! sinos!
Mas eu, com passo silente,
Atravesso onde meu capitão jaz
Estirado frio e morto.
Versão: Salomão Sousa
I.
Oh! Meu capitão! Meu capitão! nossa fatal viagem é finda;
O barco venceu as tormentas, alcançados os prêmios que buscávamos;
O porto está próximo, ouço os sinos, o povo se exulta;
Embora os olhos sigam as firmes quilhas, a embarcação sinistra e audaz:
Mas oh! coração! coração! coração!
Não derrame nem uma mínima gota
No convés onde meu capitão jaz
Estirado frio e morto.
II.
Oh! Capitão! Meu capitão! Levanta e ouça os sinos;
Levanta — por ti a flâmula flana — por ti a corneta trila;
Por ti buquês e grinaldas com fitas — por ti as multidões nas margens;
Por ti eles chamam, se aglomeram, os rostos ansiosos à procura;
Oh! Capitão! querido pai!
Passo embaixo de ti este braço;
No convés é um sonho que jaz,
Onde te estirastes frio e morto.
III.
Meu capitão que não responde, os lábios pálidos e tranquilos;
Meu pai que meu braço não sente, está sem pulso e vontade;
Mas o barco, o barco ileso ancorou, a viagem feita e conclusa;
Da terrível viagem, a vitória do barco, os objetivos alcançados;
Exultem-se, oh! margens! e toquem, oh! sinos!
Mas eu, com passo silente,
Atravesso onde meu capitão jaz
Estirado frio e morto.
10 de junho de 2009
Sutis declarações sobre a poesia de Salomão Sousa
Sua poesia é esse jeito, esse movimento, a funda estocada no coração das emoções.
Sérgio Campos (Nova Friburgo-RJ)
Para começo de conversa, o poema “Safras” é sensacional: é lindo de morrer, enxuto, na palavra exata.
Zila Mamede (Natal-RN)
… gosto desse movimento pendular, oscilando entre o lirismo confessional e o discurso cheio de indignação; justa revolta e amor pela vida, bem dosados e temperados.
Uilcon Pereira (Araraquara-SP)
Caderno de Desapontamentos, muito belo, sensível e pungente —só lamento ter somente agora conhecido a sua poesia, que revela um poeta consciente do poder da palavra, sem o ouropel e a sacralização acadêmicos.
Assis Brasil (Teresina-PI)
...gostei do seu modo de garimpar os territórios quase inacessíveis da metáfora, sobretudo quando aliada aos aspectos da miséria social e do cotidiano nem todas as vezes abordável, poeticamente.
Jorge Tufic (Fortaleza-CE)
Já nem sei se estou conseguindo esplicar-lhe minha emoção em ler seus poemas de Criação de Lodo, suas pérolas, sua baba, sua metáfora, seu borboletear.
Manoel Lobato (Belo Horizonte-MG)
Criação de Lodo é um livro primoroso. Dá a dimensão do talento do autor e também da sua formação enquanto artista. O texto introdutório —ensaio? metapoema— credencia o autor como um autêntico poeta que compreende o valor e as razões do seu ofício na modernidade. Num momento em que a poesia brasileira parece morta, o Salomão Sousa de Criação de Lodo é enfim um dos poucos que parece saber o que faz.
Osvaldo Duarte (Vilhena-RO)
A criatividade que contém seus versos; a beleza de seu estilo; virilidade de suas metáforas; o canto da terra a exalar o cheiro agreste da pureza; todas essa virtudes o tornam único.
Mário Celso Rios (Barbacena-MG)
Sérgio Campos (Nova Friburgo-RJ)
Para começo de conversa, o poema “Safras” é sensacional: é lindo de morrer, enxuto, na palavra exata.
Zila Mamede (Natal-RN)
… gosto desse movimento pendular, oscilando entre o lirismo confessional e o discurso cheio de indignação; justa revolta e amor pela vida, bem dosados e temperados.
Uilcon Pereira (Araraquara-SP)
Caderno de Desapontamentos, muito belo, sensível e pungente —só lamento ter somente agora conhecido a sua poesia, que revela um poeta consciente do poder da palavra, sem o ouropel e a sacralização acadêmicos.
Assis Brasil (Teresina-PI)
...gostei do seu modo de garimpar os territórios quase inacessíveis da metáfora, sobretudo quando aliada aos aspectos da miséria social e do cotidiano nem todas as vezes abordável, poeticamente.
Jorge Tufic (Fortaleza-CE)
Já nem sei se estou conseguindo esplicar-lhe minha emoção em ler seus poemas de Criação de Lodo, suas pérolas, sua baba, sua metáfora, seu borboletear.
Manoel Lobato (Belo Horizonte-MG)
Criação de Lodo é um livro primoroso. Dá a dimensão do talento do autor e também da sua formação enquanto artista. O texto introdutório —ensaio? metapoema— credencia o autor como um autêntico poeta que compreende o valor e as razões do seu ofício na modernidade. Num momento em que a poesia brasileira parece morta, o Salomão Sousa de Criação de Lodo é enfim um dos poucos que parece saber o que faz.
Osvaldo Duarte (Vilhena-RO)
A criatividade que contém seus versos; a beleza de seu estilo; virilidade de suas metáforas; o canto da terra a exalar o cheiro agreste da pureza; todas essa virtudes o tornam único.
Mário Celso Rios (Barbacena-MG)
O alvo insólito se esconde em abril.
A sólida ferrugem nos fuzis.
Os desamparadas informes
de acolher as arestas do esquecimento.
Ou as raízes da névoa quieta
que barram a procura de alguma porta.
Alguma luta se esconde em abril.
Com a lábia livre, com a alegre
esperteza de iludir a frágil fresta.
O vencimento do tardio ódio,
a fraqueza da reza sem milagres.
Há um ventilar de madureza,
de alguém que talvez nem venha
a entrar nalguma névoa,
a pisar nos gozos de alguma nave.
Montado o palanque. A besta imolada.
A gravidez depois fictícia.
Alguém limpa a ferrugem em abril.
@ Salomão Sousa
A sólida ferrugem nos fuzis.
Os desamparadas informes
de acolher as arestas do esquecimento.
Ou as raízes da névoa quieta
que barram a procura de alguma porta.
Alguma luta se esconde em abril.
Com a lábia livre, com a alegre
esperteza de iludir a frágil fresta.
O vencimento do tardio ódio,
a fraqueza da reza sem milagres.
Há um ventilar de madureza,
de alguém que talvez nem venha
a entrar nalguma névoa,
a pisar nos gozos de alguma nave.
Montado o palanque. A besta imolada.
A gravidez depois fictícia.
Alguém limpa a ferrugem em abril.
@ Salomão Sousa
25 de maio de 2009
Canário na Janela

Muitas abas paralelas
e eu uma delas
Talvez eu fosse o canário
a janela
e tanto não me abro
e tanto não me amarelo
e eu uma delas
Talvez eu fosse o canário
a janela
e tanto não me abro
e tanto não me amarelo
Perdi o Tributo ao Poeta, da Biblioteca Nacional de Brasília, em homenagem à bela poesia de minha amiga Lina Tamega. Imerso no mundo do excesso da comunicação e não tomei conhecimento do evento. Nem email, nem telefonema, nem fofoca de janela, nem sinal digital, nem duas frases nas vastas colunas literárias dos jornais de Brasília. E a poesia da Lina tem mais para dizer do que duas linhas.
Ai! quantos anos terei de viver para terminar a leitura de las Memorias de Ultratumba, do Chateaubriand francês?
Mas não era nada disso que eu queria dizer para vocês. Ou para mim. Ou para ninguém. Num blog a gente nunca sabe a quem diz, a quem fala. Ou a quem cala.
Só queria lembrar o lado humano, dentro de minha descrença diante de uma juventude que perdeu toda possibilidade de lidar com o humanismo.
Assisti o filme Faces, de Cassavetes, de 1968. Há muito um filme não me entristecia tanto. Há quarenta anos, talvez com consciência ou por um condão, Cassavetes teve a mágica de enxergar nossos dias. A desagregação dos valores. O fim do pudor. Só mesmo o canário para amarelar.
Ainda tem mais. Uma citação de Bertrand Russell, tirada de uma citação de Chomsky:
Ai! quantos anos terei de viver para terminar a leitura de las Memorias de Ultratumba, do Chateaubriand francês?
Mas não era nada disso que eu queria dizer para vocês. Ou para mim. Ou para ninguém. Num blog a gente nunca sabe a quem diz, a quem fala. Ou a quem cala.
Só queria lembrar o lado humano, dentro de minha descrença diante de uma juventude que perdeu toda possibilidade de lidar com o humanismo.
Assisti o filme Faces, de Cassavetes, de 1968. Há muito um filme não me entristecia tanto. Há quarenta anos, talvez com consciência ou por um condão, Cassavetes teve a mágica de enxergar nossos dias. A desagregação dos valores. O fim do pudor. Só mesmo o canário para amarelar.
Ainda tem mais. Uma citação de Bertrand Russell, tirada de uma citação de Chomsky:
"Aqueles cujas vidas dão frutos para si mesmos, para seus amigos ou para o mundo são inspirados pela esperança e sustentados pela alçegria: eles veem em sua imaginação as coisas que podem vir a ser e o modo como se materializam. Em suas relações privadas, não se angustiam com uma possível perda de afeto e respeito, assim a recompensa chega por si mesma, sem que a procurem. No trabalho, não são assombrados pela inveja dos concorrentes, mas estão, isto sim, preocupados com o que tem de ser feito. Na política, não perdem tempo e paixão defendendo privilégios injustos de sua classe ou nação, mas almejam fazer do mundo um lugar mais feliz, menos cruel, menos cheio de conflitos entre cobiças rivais e mais povoado por seres humanos cujo crescimento não tenha sido tolhido e atrofiado pela opressão."
De quantos Bertrand Russell precisamos? E nesta geração não teremos outro e muito menos jovens para lê-lo!
A única esperança, Chomsky, é de que realmente o que vemos azul hoje possa ser visto verde amanhã.
A única esperança, Chomsky, é de que realmente o que vemos azul hoje possa ser visto verde amanhã.
10 de maio de 2009
Clara Ghimel
O acaso do acaso, caiu-me um disco nas mãos assim a Oriente do oriente. De Clara Ghimel — acredito que baiana. Ela reuniu poemas de portugueses, em arranjos bem percussivos, apesar de muitas guitarras acústicas leves. A voz clara que permite realce aos versos.
Apenas um comentário: ao primeiro verso do poemas "Pirata", de Sophia de Mello Brayner Andrade:
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Não é algo imensamente assustador?
Não sei se é a sabedoria do poeta ou se já é o toque do egocentrismo sobre o homem que antecede o poeta. Assusto-me quando essas sobreposições acontecem. Antes, a força da natureza intimidava e a força do homem existia para dominá-la. Agora, sem força e sem domínio, mas apenas incendido de desprezo, o homem já se julga de posse de tudo — com desprezo.
Clara, parabens!
Apenas um comentário: ao primeiro verso do poemas "Pirata", de Sophia de Mello Brayner Andrade:
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Não é algo imensamente assustador?
Não sei se é a sabedoria do poeta ou se já é o toque do egocentrismo sobre o homem que antecede o poeta. Assusto-me quando essas sobreposições acontecem. Antes, a força da natureza intimidava e a força do homem existia para dominá-la. Agora, sem força e sem domínio, mas apenas incendido de desprezo, o homem já se julga de posse de tudo — com desprezo.
Clara, parabens!
21 de abril de 2009
A vida é sonho
DEIXO AQUI MINHA PRIMEIRA TENTATIVA de tradução da parte famosíssima da peça de Pedro Calderon de la Barca. Busquei manter a rima e o andamento dos versos. Não quero rivalizar com a tradução de Renata Pallotini (ver edição da Hedra), que modernizou alguns versos e furou umas duas rimas. Acredito que, para melhor compreensão da fala de Segismundo, é necessário sempre citar o fecho da fala anterior de Clotaldo, pois é deste fecho que surge todo o razoamento posterior:
Clotaldo
(...) ainda em sonhos
não se perde em fazer bem.
Segismundo
Certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois talvez ainda sonhamos.
E assim faremos, se estamos
em mundo tão singular
que viver não é mais que sonhar,
e a experiência, risonha,
diz que o homem que vive sonha
aquilo que é até despertar.
Sonha o rei que é rei, e vive
com este engano mandando,
dispondo e governando;
e aquele aplauso, que, breve,
recebe, no vento se escreve
e em cinzas o converte
a morte: desgraça forte!
Existe quem tente reinar
vendo que irá despertar
dentro do sonho da morte!
Sonha o rico em sua riqueza,
que mais zelos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;
sonha o que inicia a destreza;
sonha o que afana e pretende;
sonha o que agrava e ofende;
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
e que é assim ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
destes grilhões carregado
e sonhei que em estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida?: um frenesi.
Que é a vida?: uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
e o maior bem é bisonho,
que toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.
Clotaldo
(...) ainda em sonhos
não se perde em fazer bem.
Segismundo
Certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois talvez ainda sonhamos.
E assim faremos, se estamos
em mundo tão singular
que viver não é mais que sonhar,
e a experiência, risonha,
diz que o homem que vive sonha
aquilo que é até despertar.
Sonha o rei que é rei, e vive
com este engano mandando,
dispondo e governando;
e aquele aplauso, que, breve,
recebe, no vento se escreve
e em cinzas o converte
a morte: desgraça forte!
Existe quem tente reinar
vendo que irá despertar
dentro do sonho da morte!
Sonha o rico em sua riqueza,
que mais zelos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e sua pobreza;
sonha o que inicia a destreza;
sonha o que afana e pretende;
sonha o que agrava e ofende;
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
e que é assim ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
destes grilhões carregado
e sonhei que em estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida?: um frenesi.
Que é a vida?: uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
e o maior bem é bisonho,
que toda a vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.
20 de abril de 2009
O sempre novo Clint Eastwood! Ah razão cínica
Clint Eastwood declarou que Gran Torino, seu mais recente filme, é sobre a tolerância. Mas é bem mais do que a tolerância, pois envolve questões raciais, de violência com a juventude, da dívida americana com aqueles que foram atingidos por suas invasões. A degringolada da família. Ele vem nos dizer que alguém precisa estar pronto para morrer para ver se a coisa muda. Trata-se de um filme que tem de virar cardápio do debate em sala de aula e nos comícios públicos. Trata-se de um filme que me faz voltar a refletir sobre a importância da realidade na obra de arte. Até onde a obra de arte tem de estar associada ou dissociada da realidade? Clint Eastwood sempre está dentro da realidade, com a sua obra (de grande arte).
Como serve para mim e mais e demais, registro aqui um trecho da obra de Bertrand Russell:
"Aqueles cujas vidas dão frutos para si mesmos, para seus amigos ou para o mundo são inspirados pela esperança e sustentatos pela alegria: eles veem em sua imaginação as coisas que podem vir a ser e o modo como se materalizam. Em suas relações privadas, não se angustiam com uma possível perda de afeto e respeito, preferem dar afeto e respeitar de maneira livre, assim a recompensa chega por si mesma, sem que a procurem. No trabalho, não são assombrados pela inveja dos concorrentes, mas estão, isto sim, preocupados com o que tem de ser feito. Na política, não perdem tempo e paixão defendendo privilégios injustos de sua classe ou nação, mas almejam fazer do mundo um lugar mais feliz, menos cruel, menos cheio de conflitos entre cobiças rivais e mais povoado por seres humanos cujo crescimento não tenha sido tolhido pela opressão."
Ah Boaventura! que diz mais: a "razão cínica" justifica toda artimanha de privilégios.
18 de abril de 2009

Sempre há um clássico que ainda não foi traduzido em nossa língua. Sobretudo aqueles com maiores extensões. Certamente ainda teremos de esperar muito pelas Memórias de Chateubriand, pela biografia de Samuel Johnson, por Boswell, e as próprias biografias de escritores, de Samuel Johnson. Enquanto isso, valho-me das edições espanholas. No ano passado, ou antes, não estou seguro, circulou por aqui Peregrinação, do português Fernão Mendes Pinto.O mercado editorial brasileiro se preocupa demais com obras já consagrados em nossa cultura (caso de Tolstoi, Dostoievski, Kafka etc, se é que grandes escritores são etc), e outros também relevantes não estão nas prateleiras. Nem as Confissões, de Rousseau estão nas prateleiras — e precisam de tradução nova, que correspondam, pois as frases curtas de Rachel de Queiroz, numa linguagem nordestina, não corresponde à elegância do período da obra.
E temos de baixar o preço dos livros! O privilégio das grandes editoras às grandes redes estão matando as pequenas livrarias. E isso é um tiro no pé: as pequenas livrarias ajudam na formação de leitores, pois elas ficam ao lado das casas, no caminho das pessoas, com um amigo no balcão... Quanto mais leitores melhor para todos, inclusive para a qualidade da cidadania.
Não há cidadania em deixar a carreta na entrada de acesso à via.
Mas, enquanto isso, não há cidadania em não contribuir com a divulgação da série de tributos ao poeta, promovidos pela Biblioteca Nacional de Brasília.
A próxima homenagem é dedicada a Ronaldo Costa Fernandes, por Paulo José Cunha, no dia 24 de abril, às 19h. Se os meios de comunicação não tiverem os telefones da Biblioteca, e dos escritores para os contatos, é só me procurar por este blog, e eu passarei com o maior prazer.
Bom feriado a todos nós, com poesia e cidadania.
Já que os blogs têm registrados divergências com o novo romance de Chico Buarque, eu também assim procedo. Chico Buarque tem todo direito de escrever um romance ruim, até memso para não ficar ocioso, manter a vida em operandi. Mas que o romance não funciona, não funciona. Não tem leimotiv, não tem qualidade estilística, e nem mesmo... Basta. Sei que há muito eu não interrompia a leitura de um livro. O leite está derramado.Mas, a música, só se expande.
15 de abril de 2009
Brasigois Felicio
Após receber a nossa tradução de FROST,
o amigo Brasigóis felício fez uma paráfrase
do poema A estrada por trilhar:
Seguir os caminhos do conhecido
é afogar no comido
fingindo ser renovo
aprender o sabido
Seguir a senda estreita
é habitar-se do inaudito
vazio-cheio do Absoluto
Se Deus é um longo intervalo,
não há música sem silêncio
No contentamento de aceitar e celebrar
viajam os que são leves de bagagem
por isto passam e esquecem
Aceitar o agora que nos veio
sem forçá-lo a nos oferecer respostas
pode fazer toda a diferença.
o amigo Brasigóis felício fez uma paráfrase
do poema A estrada por trilhar:
Seguir os caminhos do conhecido
é afogar no comido
fingindo ser renovo
aprender o sabido
Seguir a senda estreita
é habitar-se do inaudito
vazio-cheio do Absoluto
Se Deus é um longo intervalo,
não há música sem silêncio
No contentamento de aceitar e celebrar
viajam os que são leves de bagagem
por isto passam e esquecem
Aceitar o agora que nos veio
sem forçá-lo a nos oferecer respostas
pode fazer toda a diferença.
11 de abril de 2009
Volta ao médico
Retornei a médico para complementar os exames com uma colonoscopia.
Canais limpos, abertos pela injeção de ar. Apenas dois pequenos sangramentos talvez provocados pela teimosia da sonda. Duas horas de cólicas, mas a tranquilidade de seguir com um intestino saudável, colorido, redondo como uma foto de lua em torno do escuro.
Canais limpos, abertos pela injeção de ar. Apenas dois pequenos sangramentos talvez provocados pela teimosia da sonda. Duas horas de cólicas, mas a tranquilidade de seguir com um intestino saudável, colorido, redondo como uma foto de lua em torno do escuro.
2 de abril de 2009
Um amigo do Ronaldo Costa Fernandes pediu informações sobre a existência de livros com traduções de Robert Frost. Chegamos a localizar uma tese que identifica todas as traduções de Frost que já foram feitas para português, além de trazer traduções próprias. Dei uma mexida na tradução do poema "A estrada sem trilhar", que sempre recebeu outros títulos. Não dei preferência às rimas, mas uma certa repetição interna. Vamos ver se alguém gosta.
A ESTRADA SEM TRILHAR
Robert Frost
As estradas se abriam no bosque amarelo
e eu lamentava não seguir as duas,
por ser um viajante só, demorei-me
a olhar à distância por longo tempo
a que sumia ao dobrar-se no matagal.
Quando tomei a outra, igualmente bela,
aos seus méritos a pedir desculpas;
para o viajante oferecia relva;
ainda que por ali tenham passado
outros mais que a tomassem na viagem.
Naquela manhã elas se estendiam
com as folhas sem manchas de pegadas.
Ah! guardei a primeira para outro dia,
ciente que uma estrada leva a outra
duvidei se ali outra vez retornaria.
Vou contando isso entre suspiros,
em distante ano num lugar distante:
duas estradas se bifurcavam, e eu —
uma estava sem trilhar e esta eu tomei
e foi o que fez toda a diferença.
As estradas se abriam no bosque amarelo
e eu lamentava não seguir as duas,
por ser um viajante só, demorei-me
a olhar à distância por longo tempo
a que sumia ao dobrar-se no matagal.
Quando tomei a outra, igualmente bela,
aos seus méritos a pedir desculpas;
para o viajante oferecia relva;
ainda que por ali tenham passado
outros mais que a tomassem na viagem.
Naquela manhã elas se estendiam
com as folhas sem manchas de pegadas.
Ah! guardei a primeira para outro dia,
ciente que uma estrada leva a outra
duvidei se ali outra vez retornaria.
Vou contando isso entre suspiros,
em distante ano num lugar distante:
duas estradas se bifurcavam, e eu —
uma estava sem trilhar e esta eu tomei
e foi o que fez toda a diferença.
13 de março de 2009
Algumas informações esparsas. Estive no médico na tarde desta sexta-feira. Se eu fosse romancista ou contista, criava um personagens e construía uma narrativa com as hemorróidas luminosas em sangue. Lembro-me de meu avô fazendo, às escondidas, as suas lavagens na bacia de flandres. Estive sobre a maca em posição fetal, e agora preciso fazer menos leituras enquanto permanecer no sanitário.
Não consegui ainda iniciar a leitura da História do império, de Tobias Monteiro, na edição da Itatiaia. Fiz a encomenda pela Livraria da Rodoviária, mas os distribuidores não têm mais interesse em fazer entregas para as pequenas livrarias. São mais de vinte dias e não consigo ser atendido. Só as grandes redes conseguem atendimento rápido, pois são tratados com prioridade e com bons descontos. Precisamos de estudos para reversão deste quadro, pois as livrarias pequenas não poder ser extintas e ainda outras precisam ser motivadas a surgir.
Terminei a leitura da novela Terra sonâmbula, de Mia Couto. Não me agrada o excesso de inversões vocabulares do moçambicano, nem o excesso de neologismos para surgimento de verbos já existentes. Mas é uma narrativa preciosa em que o próprio texto se cristaliza em poeticidade. Moçambique aparece com todas as suas contradições. Realmente a literatura não existe sem o real.
Refiz um verso de minha tradução de Antonio Machado. Pois "marcas dos pés" deve ser substituído por "pegadas". Algumas de minhas traduções saem neste domingo no Jornal Opção, conforme promete o poeta Carlos Willian.
PROVÉRBIOS E CANTARES XXIX
Antonio Machado
Caminhante, são teus rastros
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
o caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao voltar o olhar para trás
vê-se a trilha que nunca
mais há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho
mas só pegadas no mar.
Não consegui ainda iniciar a leitura da História do império, de Tobias Monteiro, na edição da Itatiaia. Fiz a encomenda pela Livraria da Rodoviária, mas os distribuidores não têm mais interesse em fazer entregas para as pequenas livrarias. São mais de vinte dias e não consigo ser atendido. Só as grandes redes conseguem atendimento rápido, pois são tratados com prioridade e com bons descontos. Precisamos de estudos para reversão deste quadro, pois as livrarias pequenas não poder ser extintas e ainda outras precisam ser motivadas a surgir.
Terminei a leitura da novela Terra sonâmbula, de Mia Couto. Não me agrada o excesso de inversões vocabulares do moçambicano, nem o excesso de neologismos para surgimento de verbos já existentes. Mas é uma narrativa preciosa em que o próprio texto se cristaliza em poeticidade. Moçambique aparece com todas as suas contradições. Realmente a literatura não existe sem o real.
Refiz um verso de minha tradução de Antonio Machado. Pois "marcas dos pés" deve ser substituído por "pegadas". Algumas de minhas traduções saem neste domingo no Jornal Opção, conforme promete o poeta Carlos Willian.
PROVÉRBIOS E CANTARES XXIX
Antonio Machado
Caminhante, são teus rastros
o caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
o caminho se faz ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao voltar o olhar para trás
vê-se a trilha que nunca
mais há de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho
mas só pegadas no mar.
3 de março de 2009
Quem quer ser milionário?
Já que deixou de ser necessário o conceito de verossimilhança, Quem quer ser milionário? é um bom filme. Vale-se de situações velhas — mas também não podemos considerar que a história é nova, pois Bombaim está lá há algum tempo — para entrelaçar situações sociais que nunca envelhecem. Os programas de perguntas e respostas deixaram de existir desde os idos de 70, mas outras loterias estão aí no mundo todo para enganar os indivíduos, que sempre creem capazes de sair do real através de um sorteio grande. No filme é possível sair? Talvez, pois Jamal guarda fidelidade. A fidelidade — numa época em que até a ejaculação ocorre sem nenhuma promessa — merece ser premiada. Não, não jogo este filme no limbo. Há agilidade nas cenas, profundidade na fotografia, e uma música arrebatadora, quente. Uma música que soma o jazz fusion com a música oriental ou é o próprio jazz fusion. Ou clássico fusion. Só não é mais bonito porque a miséria sempre quer ofuscar o encanto. Pela abordagem de questões sociais — e pela fidelidade — o filme Quem quer ser milionário? merece o nono Oscar.
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A poesia não deixa de ser uma fidelidade ao que amamos. Continuo fiel à poesia em A NOITE ESCURA DOS CRISTAIS PERDIDOS, que nasce acolhido...
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Para Mariza Buslik Sou aficionado pela origem das palavras e pelos diversos significados que elas vão ganhando durante os desdobramentos dos...
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Sempre desejei presenciar a peça "O impossivel", de Maria Martins, a única artista surrealista brasileira. Ao comparecer ao museu ...
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Depois que li esse poema toda minha concepção de poesia foi alterado. Não me satisfez a tradução que aparece no livro de Harold Bloom, Como ...