Tenho feito muitas experiências com fontes para edição de livros de poesia. E também observado os livros de poesia editados. Muitos equívocos são cometidos. Os poemas devem ser sempre centralizados na página. Horrível quando os poemas são jogados no fundo do página. Nunca usar tipologia acima de 12 pontos para livros no formato 14x21 ou menores. Quanto menor o tamanho da letra mais elegante a página se apresenta. O tamanho da letra deve ser compatível com o tamanho do livro. E ter cuidado, pois há letras que são maiores, mesmo para paica menor. Controlar a mancha com o entrelinhado. O ideal é usar de três a quatro ponto no entrelinhado acima do tamanho da letra: 10x14, 11x15. Como a internet tem usado novos formatos de tipologia, o padrão de letra também tem mudado. Procure letras mais elegantes, com desenhos definidos. Parecidas com as usadas em blogs. São muitas as letras disponiveis graciosamente na internet. Saiba pesquisar, sobretudo as de formato slab, e certamente o projeto de seu livro de poesia terá sucesso. É o resto, escrever boa poesia, evitar o excesso de epígrafes, citações e dedicatórias. Centre na poesia de sua autoria. Quanto menos referencia, mais a sua poesia se destaca.
A poesia é meu território, e a cada dia planto e colho grãos em seus campos. Com a poesia, eu fundo e confundo a realidade. (Linoliogravura do fundo: Beto Nascimento)
1 de março de 2016
22 de janeiro de 2016
Luci Collin
É coisa rara hoje em dia sair um artigo sobre poesia num grande jornal. ainda mais de autoria de Luiz Costa Lima, e ainda abordando um poeta ainda não consagrado. Luci Collin mereceu este feito no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo. Fui atrás dos livros da poeta curitibana. Os dois publicados em belas edições da 7Letras. Querer falar foi finalista do Prêmio Oceanos.
É surpreendente a poesia de Luci Collin! Repercute a ambiguidade da interpretação desta época de compreensão dos inomináveis, pois tudo que se diga fica valendo. Se tudo que se nomina é compreensível, nada se compreende. Só me incomoda a forma de lidar com a lírica na poesia de Luci Collin e de mais meio mundo dos poetas atuais. Aparecem expressões diretas que devem ser abolidas. Eu não engulo mais poesia que conclua o poema jogando aberta e prosaicamente a relação dos sujeitos.
Um ótimo poema sobre o coração terminar assim "se instauraram em ensaiar/algum/outro/você" é não desejar ir muito longe. Tem um outro final que consegue ser pior: "o meu amor por você tem você". Será que o mundo está tão carente que todo poeta tem essa obrigação de jogar o "eu" abertamente no outro sem a ambição do ambíguo? E não é conveniente o uso de este, deste, esta desta, assim por todos os versos. "Este cão que me segue" não pode ser simplesmente o cão? O escritor precisa acautelar-se contra a facilidade de estar no mundo. A literatura é se desenraizar da terra em que se pisa. Tirando estas fragilidades, Luci Collin faz jus a Luiz Costa Lima.
O poeta atual só irá mais longe se tiver coragem de exigir à exaustão melhor textura de sua proposta textual. O ímpeto de dizer não é suficiente para a linguagem, como não é suficiente o lixo para a bagagem. O que é transportado tem de valer e terá de valer a bela embalagem.
Assim vale a bordadura de Luci Collin:
Quando eu vivia na casa da rua anis
os cômodos e os exemplos eram imensos
calor abatumado na água-furtada
os insetos tergiversavam
e as rãs e os sorrisos eram de cristal holoédrico.
Nem me interesso pelo significado de holoédrico, pois o poema vai se construindo numa satisfação milagrosa.
3 de janeiro de 2016
O mesmo e o frágil da poesia de Brasília em 2015
Quanto abordei minimamente a movimentação da poesia em
2015, disse que em Brasília a poesia “orbitou no mesmo e no frágil”. Alguns
poderão estar se indagando se a expressão não mereceria desdobramento para uma
maior claridade sobre este “mesmo” e este “frágil”. Afinal estou no processo de construção da
poesia de Brasília desde os anos 1970 e não preciso temer expressar uma abordagem
crítica ao que ocorre ano a ano na produção literária da cidade.
Há que reconhecer que alguns
movimentos não foram enriquecedores para os poetas autóctones. Quando o poeta
vai para a rua em movimentos como o Coletivo de Poetas e Mostra Itinerante
Poesia Falada a cidade ganha, mas os poetas perdem. Os locais de leitura exigem
poemas de expressividade nua e crua, enquanto a poesia exige processos
internos, nos tempos atuais, que não servem para serem levados para ambientes
enfumaçados e descompromissados como cafés e casas noturnas. Quando contatamos
os livros dos autores que integram esses movimentos, deparamos com uma poesia excessivamente
oral, debochada, com perda de construção interna, desenvolvimento linguístico e
atemporalidade.
Uma poesia que está perdendo
muito com este movimento é a de Carla Andrade. No pequeno livrete que ela
publicou em 2015, Voltagem ˗
pequeno, que chega a ser insuficiente para se ter noção exata de sua poesia ˗,
ela tem a obrigação de se debruçar excessivamente sobre o corpo. E essa
temática já está por demais explorada. Tomemos o poema "Hecatombe de emoções".
Alguns versos são cativantes: E as
palavras ficam um pouco rebentas/querendo sair do ovo dos ponteiros. Isso do
“ovo dos ponteiros” é sensacional. E ela desdobra outras imagens geniais: “esterco de cada um”, “enxurrada de flores amarelas”. Depois descamba para o amontoado inútil de
adjetivos: olhos
convergentes/irrevogáveis… Mas a
poesia dela não precisa de poema como “Função do riso”, que não tem novidade
alguma, a não ser despertar alguma hilaridade durante a leitura em um café (Nunca mais/falo eu te amo. /Esqueça!) E
o segundo terceto merece menos sorte ainda. E a Carla Andrade tem um potencial
inimaginável e nele aposto fundo.
O livro da Noélia Ribeiro, Escalafobética, sofre ainda mais com esta experiência de rua e dos
ecos remanescentes da poesia marginal. Perde totalmente para o superficial. Cheio
de lugares comuns, adolescente. (morro de
medo da paixão) Perto de ti/Arrepio nas costas/Tremores nas pernas. Estás aqui
a me abraçar. Não precisei nem pular páginas para descolar estes versos. Prova
de que a tradição da poesia de Brasília tem sacrificado muitos dos seus ícones,
pois não contribui para que eles evoluam.
Tivemos novos lançamentos de Nicolas Behr. No último nem pude comparecer. É chover no molhado falar do seu processo criativo, que já é íntimo de
todos. Uma obrigatoriedade de registro da cidade, sem se abrir às suas
contradições.
Tivemos ainda Sem passagem para Barcelona, de Alberto Bresciani, pela editora
José Olympio. Talvez o livro mais bem editado, de autor de Brasília, pois saiu
por uma editora de fora. Agrada-me a exatidão, a limpeza da poesia de Bresciani
˗ o que não é suficiente para que ela se apresente resistente. O autor está precisando desdobrar mais as
imagens, atrever-se mais, segurar mais o fôlego para que a temática e as
imagens se distendam numa combustão de maior expressão metafísica. Acho que ele
está sofrendo desse medo do poeta atual: controle da compreensão interior. O
poeta atual sabe mais do que deixa a poesia se expressar.
Ainda tem os livros de Francisco
K e de Angélica Torres Lima, que foram lançados no estertor de 2015. Error, de Francisco K, não se contamina
com os movimentos poéticos de rua, mas não se descola de um minimalismo
mallarmaico. Pelo menos ele se mantém fiel à sua proposta poética. E a poesia
é isso, se a hora do ouro passou:
pérola
negra
araçá
azul
acabou
chorare
tábua
de
esmeralda
aprender
a
nadar
A
poesia está precisando disso mesmo: reaprender a nadar. As braçadas estão muito
curtas para a travessia do inconformismo.
Vamos a O nome nômade, de Angélica Torres de Lima, com posfácio de Ronaldo
Costa Fernandes e orelhas do Alberto Bresciani. É um livro que não escapa dos
movimentos que antecedem a poesia do início deste século. Angélica foi formada
nas ruas de Brasília e é um tanto duro descolar de uma aprendizagem, mas até
que ela consegue. Permanece ainda o excesso de poemas minimalistas, quase
hai-kais, como o “Duo Elo”. E consegue partições que só as vanguardas poderiam ensinar:
O
anjo
tem
num olho
o
halo da lua
no
outro turvo
a
turba
das
ruas sujas.
Acredito
que a poesia ganharia mais se houvesse um fôlego para melhor diluição das
repetições internas. Pelo menos as ruas aqui são sujas. Não há obrigatoriedade
de uma política correta com o espaço urbano. O poema “Por toda a plataforma”
vem confirmar esse discurso real. Prefiro o poeta real ao oficial das loas à
cidade. Só por esse ajuste com a realidade o livro de Angélica Torres Lima se
firma como de grande presença em seu tempo. Não tem pieguice lírica, viaja e dói.
Teve o lançamento de Tatarana, de poesia visual de Felipe
Fortuna. Não consegui ir ao lançamento e também não tenho muito domínio para
abordagem de poesia visual. É matéria para o amigo Antonio Miranda, que, neste
ano, fez várias edições pela Poexilio, editora artesanal que ele mantem para
publicação de obras suas e de autores convidados. Lançou lindas caixas em 2015,
que não são abordadas aqui pela própria características das edições
(limitadíssimas, só para colecionadores). Mas tenho quase todas, inclusive o belo
“Delirium Tremens”, que foi escrito a seis mãos (Antonio Miranda, Zenilton
Gayoso e Salomão Sousa).
Teve a reedição de O prisioneiro, de João Carlos Taveira,
em comemoração aos seus trinta anos de poesia. Como é reedição e já integrado a
Brasília, vale o que eu já disse na orelha do livro.
Teve ainda Subversos, de Wélcio de Toledo. Editado por uma pequena editora de
Goiânia. Edição cuidada para poemas que
não esbarram no medo. O poeta dá evasão ao que está dentro de si. Poderia ter
polido o excesso de banalidade. Confio que isso vá ocorrer nos próximos
títulos. A poesia de Wélcio Toledo não merece se contaminar pelo pieguismo dos
posts das redes sociais e do falso lirismo que atualmente empesta a poesia.
Abaixo versos como este: o fim está
próximo e eu tão longe de você. Parece esta praga das letras das músicas
dos programas de virada de ano. Em frente, Wélcio.
Deixo de abordar o livro “e outros nem tanto assim”, de Alexandre
Pilati. É autor que tem entendimento do processo histórico da poesia. Mas achei
a poesia enrijecida, que não se deixa dizer e contaminar o leitor. Há um
cansaço dessa poesia que se recorta tanto que não é possível compreender de que
vegetal temos na mão a fibra. Mas alguém aí pode me ajudar a entender esse tipo de poesia, que não é de invenção e nem lírica.
2 de janeiro de 2016
Leituras do ano de 2015
Foram muitas leituras em 2015. E desejo desdobrá-las sempre, não só em 2016. Terei de ler Thomas Wolfe, Homero, mais Shakespeare. Espero por novos livros de poemas. Li a biografia de Fernando Pessoa, a biografia de Garcia Lorca, e muito Mishima. Destaco dois livros que li em 2015. Li por necessidade de compreender o movimento Black Bloc o romance Terroristas do milênio, do britânico J. Ballard. Não compreendo como este romance não serviu para análise do movimento se ele antecede a compreensão da destrutividade dos movimentos urbanos. Todos analistas passaram ao largo dele, sendo que ele disseca o cansaço da classe média com a organização do seu espaço urbano. A destruição ocorre para que possa voltar a atuar numa reconstrução. Livro instigante. E, agora, no fim do ano, li o recente romance Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, do português Gonçalo M. Tavares. São muitos temas dentro de uma única narrativa. Aí também aparece o movimento de rua, onde todo participante perde a sua sensibilidade, perdendo inclusive a responsabilidade pelo compromisso individual. Gonçalo M. Tavares é mestre em construção de fábulas modernas. Acredito que é um dos últimos autores originais dos últimos tempos. Detém uma inteligência ímpar e organizada. É necessária intimidade com o poético para lê-lo.
O medo do poeta atual
Ao voltar a Harold Bloom, constato que iniciei o ano mais para pensar do que para ler ou deixar a mente no ócio. Vejo interpretação em tudo que deposito o olhar, por isso Sinésio sinalizou que não fotografo, pois tiro o olhar do objeto.
Já de madrugada eu me preocupava com o que danifica a prática poética de nosso tempo. Quando fiz o levantamento poético de 2015, praticamente ninguém reconheceu a postagem, pois cada um deseja que eu veja qualquer evento que ocorra, e que nosso olhar seleciona. O homem atual só reconhece o que está em seu desejo, e desmerece o que outro deseja ver. Ocorre que poucas obras têm me causado estranheza por falta de experiência vital de seus autores, de trabalho braçal com o poema.
Bloom me socorre na questão com o conceito de sublime, de Longino. O conteúdo de uma obra tem de nos provocar estranheza. Ocorre que não é uma estranheza por ser "estranho", mas de espanto no espírito. Um dos versos que mais gosto é de Pasternak: "viver é algo mais do que atravessar um prado". Assim vejo numa tradução. Talvez pudéssemos simplificar a tradução: viver não é simplesmente atravessar um prado. Mas o que tem de estranheza nisso? Não é belo um prado em si e belo também simplesmente por hauri-lo? A estranheza, pelo menos assim vejo, é ser levado a se sentir fora da travessia do prado. Se viver fosse estar só dentro do prado, o verso não teria mais nenhum motivo de existência. Não estamos permanentemente dentro de um prado e, se estivéssemos, a vida seria assaltada por uma enorme pequeneza de possibilidades. Só teria a possibilidade do prado. Neste instante mesmo, deitado em minha sala, eu diria que
Viver é estar com a porta aberta
e entrar o vento com cheiro de vento
Mas e o cheiro do prado? Do prado da beira do rio Calvo, de uma distante Rússia após algum degelo? A poesia não é dizer o que está posto no verso. É pegar o real e criar algo além do ideológico, como reconhece Bloom: "o estético demanda profunda subjetividade e está além do alcance da ideologia". Então por que ele diz que falta à atualidade a presença de poetas como Emerson e Whitman para interpretação do mal-estar da cultura?
Tenho algumas interpretações para a questão. Primeiramente eu concordo com a proposta de Bloom - no mundo da complexidade moderna, foi multiplicado o campo de ação do homem e o poeta não consegue entrar em todas as divergências. Mas então por que o poeta deixa de compreender pelo menos alguma ângulo do seu tempo para que possa compreender a si mesmo, sem confusão do que é a lírica? Não sou lírico só quando me fotografo. A lírica ocorre com sucesso quando o poeta fotografa com um olhar pessoal e de inteligível estranheza.
O poeta - na minha parca compreensão - deixou de se submergir no prado, de interagir com ele para que possa se expressar com essa experiência. É necessário ter um trabalho braçal com o prado para depois ter um trabalho corporal com o poema. Eu diria mais: o poeta atual é um medroso. Teme ser ideológico - não no sentido partidário, mas de assunção de um posicionamento diante das desolações de seu tempo - para depois estar imbuído de subjetividade expressiva. Só sou autêntico quando penso por mim mesmo, com o meu corporal. Nada que não expresso com o meu corporal conterá estranheza para outro. A poesia exige uma libido do real absorvido pela individualidade do poeta
31 de dezembro de 2015
A poesia em 2015
Qual o balanço dos lançamentos de livros de poesia em 2015? Há dificuldade para esse mapeamento, pois as pequenas editoras passaram a ocupar o espaço da edição dos livros de poesia, geralmente com difícil acesso às edições. Até hoje, por exemplo, não consegui o livro Corpo de festim, de Alexandre Guarnieri, que ganhou o prêmio Jabuti de 2015. Mas, pelos poemas esparsos na web, é um poeta que vem afirmar o caminho de reconhecimento das sensações do corpo na realidade. Foi editado por uma pequena editora: Confraria dos ventos. E também por uma pequena, Mondrongo, o livro A Dimensão Necessária, de João Filho, que parte de uma poética tradicional para sinalizar que está disposto a despojar as formas, se é que ainda é possível despojamento na linguagem. Este livro ganhou o prêmio da Biblioteca Nacional. Algumas edições de poesias reunidas: Orides Fontela, que está chegando ás livrarias, e Ferreira Gullar e Adélia Prado. Saiu pela Companhia das Letras a nova Reunião da poesia de Carlos Drummond de Andrade, mas uma porcaria de edição. Salva a reedição de Murilo Mendes e Jorge de Lima, pela Cosac Naif (espero que alguma outra editora dê continuidade ao projeto de reedição destes autores). As reedições de Cecilia Meireles e de Manuel Bandeira quase não merecem menção, pois sem nenhuma gala. Há gala na caixa da poesia completa de Mario de Andrade, pela Nova Fronteira. Homero nunca esteve tão em alta. Edição luxuosa da Odisseia, pela Cosac Naif. Teve livros de Fabio Weintraub e Ruy Proença, mas achei a poesia dos novos livros inexpressiva. Há esforço, mas a poesia não se realiza, pois é uma poesia do cansaço da própria poesia, do próprio poeta que perdeu a visibilidade e a espontaneidade. E teve Escuta, de Eucanaã Ferraz, o que tem sido, senão o melhor poeta, pelo menos o mais espontâneo e autêntico. Gosto de suas experiências com a linguagem que vai se criando com a prática da web. Em Goiás, a editora Martelo deu tom importante à edição de poesia. Para mim, ela foi responsável pela publicação de dois livros que marcarão a história da Literatura, não só de Goiás, mas dos anos vindouros da nacionalidade. Primeiramente, Meditação, de Jamesson Buarque, que traz vitalidade, vivacidade à poesia. A poesia deixa de ser, em suas mãos, algo banal, ocupação de tempo, para ser um exercício responsável, pleno de energia. A Martelo ainda reuniu toda a poesia de Heleno Godoy, numa edição que dimensiona uma obra necessária para a evolução da poesia brasileira. Heleno Godoy despojou a poesia do pieguismo. O tempo tinha de passar para que a sua poesia fosse vista com a necessária profundidade, pois foi construída num tempo em que se exigia participação social. E ele estava noutro caminho, o caminho da permanência. É o meu livro do ano. E Goiás ainda teve dois livros com a reunião completa da produção de Edival Lourenço e Itamar Pires Ribeiro. Portanto, em Goiás, a poesia esteve em alta em 2015. Brasilia orbitou no mesmo e no frágil. Destaco Welcio Toledo, que ainda tem de eliminar muita banalidade para chegar à poesia que exigimos. E muito esqueci e muito não vi. Podem me ajudar a completar a lista nos comentários. E divergir.
7 de dezembro de 2015
Martim Vasques da Cunha
Nos meus tours pelas livrarias, noutro dia me deparei com o livro A poeira da Glória, de Martim Vasques da Cunha. Surpreendeu-me os poemas que apareciam no final da obra, de Alberto da Cunha Melo. Não comprei o livro de imediato. Mas sempre que me lembrava dos versos de Alberto da Cunha Melo, algo me instigava. "Um livro que cita um autor que não está canonizado na história oficial de nossa literatura, deve conter bastante crédito." Encomendei o livro por uma livraria virtual, pois assim o seu preço caia para menos da metade do preço.
Mas de cara, irritei-me com a apresentação. O apresentador já faz algo pernóstico ao dizer que o livro estabelece "um diálogo íntimo com o meu", e cita o seu livro. Quem está apresentando quem? Nesse gesto já estabelecia que a crítica brasileira é egocêntrica, arrogante e pernóstica. Por isso prefiro Chesterton, pois o que torna algo atrativo é a inteligência e a sagacidade.
O importante é que não consegui ir além de um quinto do livro. É um grande alinhavo de resenhas, numa colcha em que estes retalhos são mal costurados. Retalhos amontoados sem nenhuma ordem que dê uma visibilidade agradável à colcha.
Martim Vasques da Cunha perdeu oportunidade de apresentar a literatura brasileira com elegância e ordem. E sagacidade. Inteligência não lhe falta, mas lhe falta ordem e um pouco de carinho e respeito por nossos autores. E também carinho respeito por seus leitores. Nem todo leitor brasileiro está despreparado. Veja quando ele cita desnecessariamente três páginas de Dante só para dar amplitude ao seu livro: "distinto leitor, achou o trecho longo e tedioso, fique calado, não reclame, aproveite ao menos uma vez na vida a chance que estou lhe dando de ler Dante". O crítico pernóstico sempre acha que só ele tem acesso à cultura. Dou a chance de Martim Vasques da Cunha ficar com seu cabedal de arrogância.
E cheio de trapalhadas. Quando aborda Gregório de Matos, numa colagem depois de Machado de Assis, diz "retornar" a Gregório quando não tinha falado desse autor. E expressões que não cabem num livro que se diz história da literatura (esses sujeitos que simplesmente matam o prazer da leitura). Chulo pra cacete. E depois julga "fundamental" quem ele deseja destacar certamente por alguma relação pessoal e não de cultura.
Tomei uma decisão neste mundo. Se eu tiver alguma coisa a fazer por uma pessoa que se julga o centro do mundo, o centro da sabedoria, é jogar uma pá de cal sobre ela. Esta é minha pequena pá de cal sobre um livro pernóstico, arrogante e egocêntrico. Poderia ser útil, mas, para mim, já nasceu enterrado.
2 de dezembro de 2015
João Filho
A POESIA INAUGURAL DE JOÃO FILHO
Assim que foi divulgado o resultado do Prêmio Biblioteca Nacional de 2015, vasculhei a web para buscar informações sobre o poeta João Filho, que levou o prêmio com o livro A dimensão necessária. Não eram muitas, sequer possui perfil no Facebook –pelo menos não localizei. Então encomendei o livro diretamente na editora Mondrongo.
Logo No primeiro poema já vem algumas indicações da trajetória que João Filho deseja palmilhar. A cidade se redesenha nos sapatos velhos e gastos, mas com desejo de renovar o gesto limpo. E vai nesta afirmativa de reservar uma reverência à tradição:
“porém não lave os sapatos,
não porque registre tantos
itinerários, andanças,
mil labirintos urbanos, a
fuligem aí pousada,”
Com o andamento do livro, observa-se um excesso de respeito a estes sapatos “um pouco velhos e gastos”, com sonetos referenciais a temas específicos, como locais de Salvador, a alguma amada, a terça rima para sagrar o riacho. Em outros poemas, a demonstração ao trágico, a referência ao dantesco.
Estes exercícios do primeiro livro, para comprovar a capacidade de execução das formas tradicionais, se fora de época ou retomada de épocas, servem para a formação do poeta, pois este é o livro inaugural de uma carreira que nasce consagrada por um prêmio luminoso. Mas não é só o prêmio que o consagra, também composições enxutas, como o poema “Sombra de nuvem”, onde o poeta exercita sua capacidade de captar um gesto, compará-lo, e conseguir sem erro um resultado. Em “Luz primeira” é onde João Filho melhor se firma como poeta de seu tempo, pronto para libertar-se e iluminar-se com formas mais soltas. Espero que seus próximos trabalhos palmilhem esta liberdade de forma e expressão.
Detenho-me num poema, onde uma falsa forma velha – que é o que os contemporâneos buscam – é usada por João Filho para questionar este mundo velho e derrotado. Aí ele revitaliza o trágico e o metafísico. Vejam a primeira estrofe do poema “Considerações sobre a derrota”:
“Manhãs inaugurais de fuligem e névoa.
Já falta menos do que faltava.
Reduzida a ruínas a cidade acorda;
o que pulsátil vigorará
no centro danificado do dia? Chove.
Nesta hora exausta recolha a lança,
estreite a chama, reduzidíssima,
profundamente – aí tua casa.
Soubesse Ulisses dessa exuberância fóssil
amaria a cidade calcinada? Chove:”
E o poema segue por mais três estrofes, com repetições do abandono e do verso “Já falta menos do que faltava”. É um poema que transcorre na perfeição. Tirando algum excesso de advérbios, alguma notação temporal (quarta-feira), João Filho é um poeta que inaugurou bem sua cidade
14 de novembro de 2015
Sérgio de Castro Pinto
Esta não é uma resenha, mas uma anotação livre pelo impacto de me reencontrar com a poesia de Sérgio de Castro Pinto. Texto bem livre, talvez até com alguma inexatidão e erros, mas com legítima sinceridade. Texto livre numa tarde de descanso e prazer de saber que outros poetas nesta tarde se ofuscam em diversas paragens com os desentendimentos do homem no mundo.
Ter nascido no mesmo ano de publicação do livro Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, me deixa sempre comovido. Só poderia conhecer essa poesia de construção inquebrável muitos anos depois, e não poderia praticá-la, pois seria andar numa estrada já trilhada. E depois me comove encontrar obra daqueles que produziram poesia nos mesmos anos por mim vividos. Nesta semana, ainda me encontrei com a poesia de Adriano Espíndola, que também nasceu em 1952. E depois foi a hora de me comover com o livro Domicílio em Trânsito, de Sérgio de Castro Brito, de 1983. O meu primeiro livro, A moenda dos dias, é de 1979, sendo que o primeiro que escrevi foi O susto de viver, de 1980.
Surpreendente ler o livro de Sergio de Castro Pinto e encontrar o clima tenso do momento histórico que vivíamos e abordávamos em regiões distintas. Prova de que a ditadura angustiava a todos os escritores do país. O medo subjacente, o vazio de estar se sentindo inútil numa repartição público, pois viemos de uma geração participativa.
Mas neste livro de Sérgio de Castro Pinto está um dos poemas que leio sempre como um símbolo de composição, de poema que nasce para representar uma geração e a validade do ato de produzir poesia. "Duas odes à borracha" tinha sido publicado em 1970 no livro A ilha na ostra, por isso a nossa contemporaneidade.
A borracha não é algo estanque, que simplesmente anula. Na poesia de Sérgio de Castro Pinto, a borracha é abordada como se fosse o próprio homem do período do regime militar. Há um verso que lembra que há outras "borrachas que solidárias" quer limpar outras borrachas, que certamente não continham sol, pois preocupadas em enegrecer com seus erros
a borracha alimenta-se
de medo e do inexato
Fico esperando que um poema como este, escrito no mesmo ímpeto de uma Máquina do mundo, tenha uma luminescência no conhecimento da nacionalidade. Com um poema destes podemos reconhecer que somos seres que desejam estar instaurados fora do caos.
Eu, Sérgio de Castro Pinto, Alberto da Cunha Melo, Adriano Espindola, Brasigois Felicio, Gabriel Nascente, e tantos outros, vindos de um mundo falido, tínhamos de organizar outro formato de produção poética, de questionamento da realidade. Em determinado momento, talvez ele se torne mais compreensível. Nosso mundo caótico, repressivo, ainda não analisado e compreendido com algum formato melhor elucidado. Vai surgindo outras gerações e parece que esta que resistiu não pode ocupar algum momento de clareza, que deva permanecer ali no limbo intocável de todos os erros do período. E a poesia dos anos de chumbo era guerreira, viva, sanguínea, que cataliza todo o medo e fracasso. Ma é uma poesia vitoriosa, resistente, mesmo quando os temas são sutis e emergem com o homem angustiado e perseguido. É uma honra ter produzido neste período e poder estar buscando outros formatos de ajuste poética em outros tempos, também sombrios, pois sem metas e, pior ainda, sem compromisso com o humano.
Deixo aqui um abraço afetuoso para Sergio de Castro Pinto, que lá em João Pessoa, busca e incentiva. Busca e pensa formatos. É importante ver poetas que motivam a juventude para arte. E Sérgio de Castro Pinto incentiva. E Jamesson Buarque incentiva â exaustão.
Voltarei a João Pessoa só para me encontrar com Sérgio de Castro Pinto e nos sentarmos diante de uma paisagem.
1 de novembro de 2015
Ler poesia é nos sentirmos decentes
Ler um poeta é uma forma, senão a única, de nos sentirmos seres humanos decentes. Não é uma expressão minha, mas eu assinaria decentemente a observação de Joseph Brodsky sobre W. H. Auden. Em muitos lugares eu gostaria de estar. Gostaria de ter participado da leitura de poemas que os dois fizeram sozinhos num quarto de hotel. Mas aquele momento era só deles. Não teve gravação. São estes momentos únicos que fazem a vida ter justificativa. Temos de ter orgulho de todos os nossos atos, inclusive aqueles que fazemos reservadamente. Quando eu pratico um ato, inda que solitário, se não estiver revestido de ética, não há razão de eu ter direito à liberdade. Não posso corromper a família, o Estado, a mim mesmo. Não há dinheiro algum que valide atos corrosivos. Outro momento de que gostaria de ter participado: da prisão de Garcia Lorca. Ele não merecia ter morrido só, nas mãos de uma ditadura. Há uma tremenda alegria na literatura, mas uma enorme angústia nos seus autores. Não estive no quarto em que João Antônio apodreceu solitariamente, sem a presença de escritores e de familiares. Mas é bom morrer solitariamente. Só temos de viver de forma agregadora, respeitando as leis, inclusive de responsabilidade por nossos atos. Cada ato humano tem de contribuir para melhoria do mundo e não só com nossos interesses. Esquecemos de ir discutindo a ética. Se não nos lembramos disso todos os dias, admitimos que é possível ultrapassar o limite da moralidade.
Carina Rissi
Estive no lançamento no último livro de Carina Rissi. Notei que há um universo paralelo na literatura. Há um universo da literatura tradicional, que se preocupa com a tradição e o real; e agora esta literatura jovem, com um frisson sensual, que busca um real de glamour. Como funciona isso? A juventude está buscando outro real? Esta literatura levará este leitor jovem depois para a literatura tradicional? Pois notei que há pessoas nesse grupo que não é mais tão jovem. O jovem de hoje demora a querer ser adulto ou demora mais a querer encarar o real? Será que a juventude de hoje avança mais para outros universos que em tempos anteriores? Acho que isso tudo daria um bom debate. Mais alguma pessoa que quiser apresentar alguma observação, seria ótimo. Como é que se poder ver essa tribalizacão entre real e glamourização do real?
Obras Completas de Machado de Assis
Recebi a nova edição das Obras completas de Machado de Assis, pela editora Nova Aguilar. Eu diria que é a melhor edição de Machado editada até hoje. Um formato maior, com letras e espaçamento legíveis. O papel ainda não é o ideal. Vaza a mancha excessivamente de um lado para outro. Alguns cadernos vieram com corte fora de esquadro, além de o corte da guilhotina apresentar-se dentado, com irregularidades na edição. A gráfica não deve ser cautelosa, pois um exemplar chegou com manchas de tinta dos dedos do impressor. Mas gostei. Esperava que os contos estivessem reunidos na totalidade, mas ficou faltando mais de 10% do que já está catalogado. Mas parabéns a todos os organizadores. Valeu a aquisição.
13 de outubro de 2015
Zbigniew Herbert
Sentimento de identidade
Se tivesse algum sentimento de identidade talvez fosse com a pedra
de um arenito sem muita frieza de um claro acinzentado
e uma miríade de olhos de pedra de fogo
(comparação absurda a pedra vê através de sua pele)
de possuir um sentimento de profundo vínculo com algo seria justamente [com a pedra
de modo algum tratava-se da ideia da imutabilidade era
uma pedra de variedade preguiçosa se o sol resplandecia tomava sua luz [como a lua
se se avizinhava uma tormenta se punha azul como uma nuvem
para depois beber a chuva com avidez e esses seus confrontos com a água
a doce aniquilação o combate de entes o choque de elementos
a perda da consciência de sua própria natureza e de sua ébria compostura
eram ao mesmo tempo formosos e humilhantes
assim enfim recobrava a sobriedade o ar ressecado pelos relâmpagos
envergonhado suor pequena nuvem passageira de amorosos fervores
27 de maio de 2015
Eucanaã Ferraz
Li o novo livro Escuta, de Eucanaã Ferraz. Animou-me o despojamento do uso da língua, o formato adotado para desenrolar a comunicação ágil. Poesia messenger, sem perder a mensagem humana. Por exemplo no poema "Certo": "Hoje quero te falar de permanecer vivo//mas venho te dizer que tudo permanecerá vivo/nesta hora em que te digo agora". Esse primeiro verso dá da Gonçalo M. Tavares escrever um de seus tópicos de seu ciclo o Bairro. Pois está difícil permanecer vivo. Em outro poema, comovente a alegria de saber que emerge o homem do mar sem ser o afogado. E também o que aborda a impossibilidade de a poesia ser lida pelos mortos. Quantos outros mortos ficaram fora do poema, pois todo morto não lê poesia. Ou quem não lê poesia é o morto. Há uma metalinguagem do risco dessa poesia que emerge do mar desse tempo. Uma poesia que zomba de si mesma, que se sabe grotesca pois emerge do e habita o grotesco. Uma poesia que dialoga com Camões e Alphonsus de Guimaraens. Adoro o poema de Alphonsus Guimaraes, que ele reconstrói em outro. A poesia faz uma viagem pelo Brasil. Em Brasília, passa por Candangolandia, Valparaiso. Uma poesia muito propícia a este tempo. Alguém tem de arriscar a fazê-la. E Eucanaã ousa arriscar.
3 de abril de 2015
Basta
Basta que ocorra a visita
e talvez o sólido seja a amizade
a fervura de uma casa
quase inútil se não chega outro olhar
e talvez o sólido seja a amizade
a fervura de uma casa
quase inútil se não chega outro olhar
Basta que se interponha na paisagem
o rosto juvenil que se aninha
no linho dos desenhos
Basta o colar ao colo
e ao imaginário virão os alinhavos
na hora sexta das paixões mortas
Basta o Deus perdulário
deixar no galho o veludo do cogumelo
o desenho de um rosto de deserto
o forno com o hálito do peixe
e também o prurido de um cão
o rosto juvenil que se aninha
no linho dos desenhos
Basta o colar ao colo
e ao imaginário virão os alinhavos
na hora sexta das paixões mortas
Basta o Deus perdulário
deixar no galho o veludo do cogumelo
o desenho de um rosto de deserto
o forno com o hálito do peixe
e também o prurido de um cão
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Folder do lançamento do livro
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