29 de agosto de 2023

Mexidão Cultural

Sem sombra de dúvida, o evento mais importante do DF produzido pela comunidade. Um evento de interatividade e criatividade. Sempre me orgulho de ter oportunidade de participar. As comunidades de todos os municípios brasileiros poderiam criar seus mexidões para incentivo à cultura 



18 de agosto de 2023

A experiência da poesia de Alexandre Pilati


Sóter, Alexandre Pilati, Chiquinho e Salomão Sousa 


Ao contatarmos os textos poéticos produzidos nas duas últimas décadas do Século XX, até o início da terceira década do Século XXI, podemos constatar que a poesia vive profundos dilemas, que carecem de respostas definidoras e alcance de processos de execução convincentes. Não só de processos convincentes e de respostas definidoras, mas carece ainda de enfrentamento crítico pelo próprio corpo de autores contemporâneos, pois fica a impressão que, abandonados pelas parcas, são despertados pela atração do canto fácil da falsa sereia virtual.

           Primeiramente, podemos levantar alguns questionamentos de ordem operacional. É suficiente o conhecimento da tradição? Os poetas contemporâneos estão interligados aos poetas do passado? A floresta de alheamento da realidade tem sido incorporada para produção de metáforas legítimas? O poeta tem procurado entrar em contato com a técnica das épocas que o antecederam ou adotam procedimentos que nascem solitariamente dele mesmo? O caráter egocêntrico da era digital – com suas corrosões linguísticas e de eliminação da alteridade social - está contribuindo para produção de textos poéticos descartáveis? A poesia ainda é uma linguagem de chamamento social e de geração de espetáculo lírico, de deleitamento no ato da decodificação da leitura?

           Para abordagem do problema, podemos nos valer de dois termos latinos, que guardam semelhança entre si, mas que remetem à alguma estrutura construída que se mantém de pé. A edificação (aedificatio) envolve escolhas, definições, áreas, temas, enquanto a construção (constructio) é o ato de usar os materiais escolhidos para a montagem do produto. Não é à toa que o primeiro termo é fartamente empregado em diversas áreas (edificação moral, edificação espiritual), representando os princípios que irão constituir o processo, tornando-o sólido, convincente e confiável.

           Mas entra nisso um quesito fundamental: só é possível o uso de materiais que são de conhecimento e domínio daquele que se propõe a construir, que foram por ele experimentados e que possam satisfazer necessidades e exigências de uma época. Os poetas têm feito escolhas e buscado experiências para a construção de suas obras? Quais materiais estão sendo escolhidos para solidez da poesia atual? Há exigências externas para a apresentação das propostas poéticas contemporâneas?

           Teorizar também não constrói a fábrica de poemas. Não adianta a apresentação de formas (ô) – nem há uma loja que as comercialize –, pois os materiais de cada autor nem sempre se conformam a elas e muito menos se enquadram às formas (ó) disponíveis, se ele (autor) pode – e deve – moldar o próprio desenho que lhe aprouver para desenformar o produto poético que conseguiu montar para a exposição.

           Para a fabricação de poemas (vivemos no mundo de produtos estandardizados, de exigências de formas unificadas), o autor, no ato de aedificatio, terá de esforçar-se para aproveitamento do material incorporado em si mesmo, mesmo sob risco de construir estruturas desabáveis.

           Recorrendo aos dois últimos títulos produzidos e publicados por Alexandre Pilati, é possível constatar essa volatilidade entre temas e formas (ou aglutinação de formas) da produção poética atual. É certo que há uma prevalência da lírica, independentemente de qualquer outra experiência, seja ela de vanguarda ou de uma mitologia aprofundada no classicismo.

           Por se tratar de autor autóctone de Brasília, é de se pressupor que Alexandre Pilati esteja fisicamente incorporado de materiais urbanos modernos, de convivência com uma vegetação da savana retorcida do Planalto Central, tudo permeado de amplo espectro de divergências sociais e políticas. Portanto, Pilati é um filho da urbis moderna ilhada na miséria, mas com trânsito por caminhos de reformulado meio ambiente. Sua poesia só pode transitar ungida da experiência com esses materiais.

           Não é autor neófito, pois já publicou cinco livros de poemas e outros mais de estudos literários, além de atuar como professor universitário, com passagem como professor visitante na Università degli Studi di Perugia, Itália (a grafia no original dá um tom neobarroco à narrativa biográfica de um autor). Currículo esse que o aproxima do debate e da experiência da tradição e da prática da poesia no mundo contemporâneo.

           Apesar de não centrarmos atenção somente no livro Sob linóleo vermelho (2020, editora Urutau), captamos pela epígrafe de Louise Glück, em que há procura de inseminação de alguma coloração no universo poético, em que pese o processo ser individual e disforme. Constata-se que a poesia transita por um território misshapenn, ou seja, disforme, deformado. E por que não desmanche, desmanchado?

Acabou-se a forma, então? Pilati, no poema de abertura desse poemário, chega a propor que se “Escreva poemas/em um caderno/cujas folhas se soltem facilmente”, e que se “Publique poemas/em livros que facilmente/se desfaçam”. Kavafis acumulava os poemas soltos sobre uma bancada e a cada amigo oferecia um maço deles sem acabamento em livro. Inclusive enviava para substituição a folha do poema ao qual impusesse alguma alteração. Portanto, não vivemos em um mundo só disforme, desmanchado, mas sujeito a intervenções cirúrgicas (que podem apresentar ranhuras e outros aspectos deformados). As formas são ajustadas para satisfação pessoal, inclusive a plástica física dos corpos. É passível de indagação: o poema não seria objeto disponível de intervenção – para que o satisfizesse – pelo leitor? Pilati chega a propor sugestão nesse sentido (Copie!/Despiste,/desista…). Nos direitos do leitor, de Daniel Pennac, consta que o leitor pode pular páginas, não ler (desistir de ler), mas não consta que ele possa destruir o livro. O livro ainda merece o altar do sagrado?

           Nesse livro Sob linóleo vermelho, de questionamento do ato em si da escritura, há referências a Jorge de Lima (A túnica inconsútil), ao professor e poeta Hermenegildo Bastos, a Manuel Bandeira (A estrela da manhã), a Kafka (vermes insetos), entre outros. Há uso do poema processo em “Cancelamento” - aí vem o grilo/pula  pula   pula e     pluma), talvez a mais plástica das experiências de Pilati nos dois livros agora em foco. Mas, o melhor, é que tudo é permitido num poema que não será lido (verso de Pilati). Talvez por isso a poesia contemporânea possa ser (e é) tão permissiva (e assim evitar a remissão ao verso livre).

           Dentro dessa convocatória de que tudo é permitido no processo de construção poética, e considerando que cada um dos poetas põe em destaque um poema para abordagem da própria fabulação biográfica, é oportuna a abertura de um parêntese nesse texto para registro da relevância do estilo do poeta Djami Sezostre – poeta que chega ao ápice de desmanche do processo linguístico. Ele consegue a abolição do significado, chegando à desfaçatez de conseguir dar existência ao verso só com a sonoridade ao optar pela ocorrência da junção das letras de forma aleatória. A estrela chorou rosas (2023, editora Patuá), ao consolidar as técnicas de desconstrução das palavras e das frases por Djami Sezostre, é um livro de enrubescer a face da poesia brasileira. De uma espontaneidade feroz sem ferocidade, pois começa com um poema em que desenvolve currículo criativo onde a fábula arrasa o real e termina com a parturiente técnica disjuntiva de sílabas, palavras e frases. Cada um leia o que consegue inventar. Jesus escrito esfaceladamente dentro de mim. Assim eu leio Djami Sezostre.

Para complementar essa aproximação de Pilati da tradição, é bom ressaltar que o livro traz vários poemas que se interligam com a Poesia Marginal (“Coxinha”, “Acordo de cavalheiros”, “Na unha”, “Nova política”) ou aforística (“Arte”). Portanto, reflete no poemário alguma tradição (aquilo que se produziu antes de o autor manifestar-se na construção de numa obra) bem como a ambiência de circulação do poeta (congêneres da Poesia Marginal, o ambiente urbano dos crachás e filas, Galdino). Ao moldar-se à diversidade, Pilati completa essa falta de alinhamento a um único processo de construção com o processo crítico (Nos palácios de Brasília, arrotam), com a partição incomum dos versos e com a aproximação até da poesia de cordel (quem pode anular/a vigência do caos/o império do não/a pedra angular/dessa revolução).

           O livro Tangente de cobre (2021, editora Laranja Original) foi contemplado, meritoriamente, com o prêmio Candango. Como na obra anterior, o autor firma-se em tradições claras ao fazer homenagem a Maiakovski, Daniel Defoe, Karl Marx, entre outros. Só que, agora, o poeta se desgarra do questionamento da própria poesia, do instantâneo da Poesia Marginal, para avançar um pouco mais para o ordenamento da invenção. Chega, em alguns momentos, a abolir a pontuação e as maiúsculas. Em outros lugares, recortes rápidos, com andamento obtido pela própria pontuação (Organizar./Dar a um e outro o denso/da História. A todos, esse denso./Ordenar. Classificar. Sistematizar.) Não há um local certo de recorte. Como em Djami Sezostre, o verso não merece um limite, pois é o disforme que organiza a construção. Chega a propor um soneto, mas esculhamba a forma com a desordem do real, no revirar do lixo. E no lixo não é possível encontrar nada inteiro, consonante, rima. Vivemos o tempo do lixo social, do lixo político? A poesia pergunta, sem propor respostas às claras.

Em declaração a um entrevistador, Pilati afirmou que o livro traz “poemas do tempo de crise”. Mas toda arte não compartilha de uma crise? Só a ausência de desenvolvimento econômico comfirma que uma época está em crise? Diante da declaração do autor, essa questão merece ser posta em avaliação. O que ocorreu em 2018 – época de composição dos poemas do referido livro – que aparece, tangencia ou submerge no teor do livro? O passado valoriza o presente? Quanto vale, agora, esta mesa? – afirma Pilati em um dos versos. Só o que tem preço sobrevive à crise, sopervalorizando-se? Quanto vale a poesia para escapar da crise? Para haver crise é necessário existir campos de batalha?

           O material contido em Tangente de cobre enobrece a poesia deste início de Século XXI pelo que expõe e questiona. Como conhecedor da poesia drummondiana, com a experiência do seu tempo e das trilhas da poesia, Pilati consegue emular temas contemporâneos e dilatar a composição sem arrogância ou perda de foco. Não há um poema na forma de advertência ou carta endereçada a um outro. Tão drummondiano que põe o boi para sambar. Enfim, Alexandre Pilati consegue cumprir a proposta de dialogar com o seu tempo, eliminar a crise que o acomete e subverte a construção de seus poemas. Não há crise no corpus da escrita de Pilati – pelo menos é o que se pode apurar pela leitura de seu livro. A poesia cumpre o efeito sanitário de apresentar um tempo sadio como o álcool gel que faz a assepsia para que o homem possa transitar livre de contaminação.  

           Mas onde estão as respostas a todos os questionamentos iniciais? Diríamos que as propostas ainda estão sendo postas por Alexandre Pilati, Djami Sezostre e todo o espectro de poetas questionadores desse tempo. A melhor resposta é atuar como Alexandre Pilati vem buscando em seu processo de criação. Abordar o boi e a cachorra Baleia, que ele viu ou imagina ao pé do muro, mostrar aquilo que outros ignoram, misturar mundos que não se conhece. Repetir (drummondianamente) também é uma resposta quando as questões voltam a ser as mesmas de tempos anteriores. Eliminar o significado e deixar só a sonoridade – outra proposta de resposta.

           Amarrar um louco é uma resposta. Cortar um nabo é uma resposta. Juntar a cacaria é uma resposta. Inserir situações desconhecidas ao currículo é uma resposta. Uma cachorra morta é uma resposta. Na impossibilidade de formas novas, aglutinem-se as mortas.

Em último caso,

escreva um poema.

15 de agosto de 2023

O homem e o poeta Antônio Carlos Queiroz


Nunca o Brasil precisou tanto de homens como Antônio Carlos Queiroz para interferir com leveza nas adversidades políticas e culturais do País. Construiu uma carreira de resistência, com discrição, mas com competência crítica e sem desconectar-se do bom espírito humorístico goiano (ele é de Anápolis), que trouxe para Brasília.

Ainda que tenha pautado suas atividades jornalísticas no front político, manteve constante paixão pela literatura, que soube alimentar com as experiências adquiridas como professor de línguas. Desta paixão, nasce agora o seu primeiro livro de poesia, que será lançado no dia 18 de agosto, a partir das 17h30, na Livraria Sebinho, da 406 Norte.

Poemas & prósias reúne quase duas centenas de poesia, recheadas de clareza, profundo conhecimento e de experiência da realidade, da política e da cultura antiga. Tudo isso inseminado de humanismo. (O Sol nasce para todos – somos parentes!), proclama já no poema de abertura do livro.

Em que pese o sincretismo de experiências que interferem na construção dos poemas, a sua produção não se insere nas vanguardas ou na poesia de invenção. É uma poesia muito pessoal, que transborda cultura popular, vivência, com o prazer de ser (Simplesmente ser é o sentido da Vida). Ou no poema “Declaração de Guerra”: Falem vocês da morte/Eu falo da Vida. A luta participava tem vieses diferentes para Antônio Carlos Queiroz. Na poesia, a arma de luta só poderia ser a beleza: São bélicos os olhos que compõem o Belo.

Não é um Sebastião Nunes da poesia espacial e satírica, apesar de intercalar crítica e humor nos versos, pois diz em um dos seus poemas: “Eu mesmo – quando crescer -/ quero ser Emily Dickinson”. Não transcrevo o poema “Ars Amatoria” para não antecipar o prazer de o leitor conhecê-lo no livro. Nesse poema - um dos mais longos do livro - o entrelaçar das palavras agrega signific(ação) sem exigência da força verbal.

Para fugir da clausura, Antônio Carlos Queiroz mantém o podcast República Popular das Letras, de entrevista com figuras centrais da cultura, onde mantém a alegria do bom riso, da boa crítica e o vivo convite à participação social. Ele mesmo se define em uma de suas últimas crônicas: “Ácido ou sarcáustico para alguns, enjoativo para outros, posso ainda ser doce como um pequi, que solta espinhos quando mordido de mau jeito.” Mas ninguém precisa temê-lo. Antônio Carlos Queiroz tem a suculência do patriotismo sadio, da amizade espontânea e da sabedoria - exemplos tão carentes nos dias atuais.

11 de agosto de 2023

Ficou pronta a linoliogravura de Beto Nascimento para a capa de meu próximo livro de poesia, que terá apresentação da poeta Sônia Elizabeth Nascimento Costa - amiga e amigo generosos e de criatividade invejável.
Abaixo, três vídeos e o resultado final sobre o processo de criação de uma linoliogravura. 
Trata-se de trabalho paciente, pois cada cópia recebe cor individualmente. Só os pacientes podem se dedicar a este trabalho.
Ajustei o título de meu livro para "Certezas para as madressilvas". Numa época de incertezas, temos de inocular alguma resistência com beleza. E Beto Nascimento e Sônia Elizabeth estão me ajudando na empreitada.






4 de agosto de 2023

Tradução de Marquês de Sade

    Para complementar minhas informações sobre a literatura erótica de Marquês de Sade, encomendei e li "Justine e os tormentos da virtude". No andamento da leitura, descobri que o referido livro é a segunda versão da história de Justine, pois o livro foi reescrito como "A nova Justine" e um segundo livro chamado "Juliete ou as prosperidades do vício". O mercado editorial brasileiro nunca traduziu estes dois livros, que estão incluídos no cânone da literatura mundial, com influência na filosofia, nas liberdades individuais, no conceito da moral e de interpretação psicanalítica do indivíduo. Grandes intelectuais construíram seus pensamentos com as ocorrências interpretativas inclusas em seus livros.
    O livro "Justine e os tormentos da virtude" não é suficiente para conhecer toda a historia de Justine e nada apresenta das aventuras eróticas de Juliete e dos desdobramentos do pensamento de Sade. O livro "A nova Justine" não está disponível nem em espanhol. Este e o que trata de Juliete somam em torno de duas mil páginas. É importante o mercado editorial estar atento para traduzi-los, pois a época de perversidade que vivemos pede a crítica de Sade. O homem se esquece que "tudo é permitido" até que surja um outro para barrar a permissão. A perversidade/maldade sádica de nosso tempo precisa ser confrontada, ridicularizada e combatida.
    A todo momento assistimos cenas sádicas. Não esqueçamos a morte de Lázaro sob aplausos de centenas de populares. As cenas de Sade ocorrem com a presença de convidados, que aplaudem agressões contra gravidas e crianças. Pois o que vale é a força, o poder econômico. 



Entrevista ao podcast República Popular das Letras

Está acessível no YouTube a entrevista que concedi ao podcast República Popular das Letras/Salomão Sousa, de Antonio Carlos Queiroz. Falamos sobre três temas: a) minha trajetória de vida e experiência literária; b) a importância da poesia de José Godoy Garcia) e c) rápidas observações sobre a poesia de Brasília.
Procurei ser o menos irascível possível, mas relembrei os tempos do meu zine Chuço. Cheguei a dar à entrevista um pouco do meu método acre daqueles idos dos anos de 1990. Muitos outros temas poderiam ter sido abordados e poderia ter procurado coincidir o processo crítico com os interesses absurdos de nosso tempo, mas como estou um tanto defasado em minha desumanização, ainda tive de me manifestar contra a perversidade que assistimos no homem atual.



18 de julho de 2023

Biografia de Dostoievski


    Terminei hoje a leitura da biografia de Doistoievski, de Joseph Frank. São três mil páginas de profunda análise da vida de Dostoievski, de sua obra e das condições sociopolíticas da Rússia no final do Século XIX, bem como a efervescência jornalística e das correntes de pensamento em que Dostoievski estava metido.
    São cansativos os capítulos dedicados ao resumo das obras. Como eu tinha lido recentemente "Os Irmãos Karamazov", acabei lendo superficialmente a parte relativa ao resumo desse romance. Mas revisitei a vida de Dostoievski com muita emoção. A sua permanência na Sibéria por 10 anos, 4 como preso carregando grilhões de 5 quilos de ferro e 6 como soldado forçado do exército russo. As suas eternas dívidas, o eterno embate com o pensamento da época, inclusive perigosa interpretação da condição dos judeus presentes na Rússia e na Alemanha. Mas só confirma: construiu uma obra que ombreia com os grandes autores universais, tais como Dante e Cervantes. É um patrimônio construído com muito sofrimento pessoal.
    Quem for encarar a coleção, vá sabendo que é uma leitura pesada na maioria das passagens.

14 de junho de 2023

Poeminha da Elis


Na minha cidade tem gatos
cachorros e também ovelhas 
Na minha cidade tem biblioteca
e também várias casas
e muitas cadeiras e redes e luzes

E uma menina sapeca
que pula mais que cães e gatos
Quando a gente descuida
a pequena Elis some o sapato
se esfrega com terra e suja o nariz

13 de maio de 2023

O poema da garotinha Lara

Tem boi tem cavalo tem cabra
Tem pintinho tem bebê tem ponte
Tem cabra tem bebê tem ovo
Tem porco tem madeira tem boi
Tem uma nuvem e tem céu
e a nuvem foi para Floriano
                                                     e tem céu

Nota recuperada de minha rede social

Acredito que o caderno "Eu", do jornal Valor, seja um dos cadernos culturais da atualidade menos lidos. E devia chegar ao conhecimento dos formadores de opinião nas áreas de cultura e educação, que é onde o comportamento humano se transforma. Sempre tem um artigo que inevitavelmente contribui para pensar o homem contemporâneo. Na semana passada, sobre a personalidade do promotor Dallangnol. Tenho comungado com o ponto de vista ali externado. A sociedade tem de zerar algumas questões. Se uma legislação não está servindo para estancar a corrupção, ela tem de ser zerada por outra. Se a educação não atende mais às tecnologias e aos interesses do homem atual, tem também de ser zerada. Aí vai se ajustando para se chegar a um ponto de conseguir consenso e estabilidade. Não são os deuses que vão gerar esses equilíbrios. Ninguém quer sair de sua zona de conforto e fazer esse enfrentamento. Os advogados querem um sistema em que possa continuar empurrando as irregularidades de seus clientes; os professores não querem encarar novo corpo a corpo com o aluno. E outro artigo da edição desta semana, no mesmo "Eu", pode contribuir para a mesma discussão desta exaustão de nosso tempo, seja na política, na cultura, no comportamento humano. A entrevista com Mafesoli aborda esse interesse do indivíduo moderno em atender só a si mesmo, que arranca a sua felicidade do imediatismo. Que talvez deseje o emprego só pela remuneração, sem estar preocupado com o futuro do Planeta, com os resultados sociais daquilo que está fazendo. Só que esta linha de pensamento defendida por Mafesoli, Zigmut e outros. é insuficiente, pois define o que é ser pós-moderno, com as características egocêntricas, de busca de ações evasivas como terrorismo, mas não apresenta ações públicas que possam promover reversões - o que julgo irreversível, pois os espaços para a ética foram todos contaminados, sobretudo a religião, que já não convence. Quem acreditaria hoje em Santo Agostinho? Só um louco. Aquilo que ele rebate nos deuses romanos, com justeza, não acabaria servindo, hoje, também para demolir a religiosidade que ele defende? Qual deus protege hoje os vencidos? Sobra as críticas aos sistemas, mas essas. Rita as servem para que a situação seja revertida? Há 1600 anos a riqueza continua concentrada e os ricos continuam manipulando a pobreza para que sejam bajulados pelo pobres. E o Chico continua com razão: vamos continuar trocando tiros

Alice nas cidades

O excesso de palavras nem sempre apresenta solução para o cinema e a música. É a intensidade com que conseguimos interpretar que dá maior amplitude a um filme ou a uma peça musical. Não adianta assistir "Alice nas cidades", de Wim Wenders, ou ouvir um Noturno, de Chopin, aguardando por um discurso. O discurso terá de ser proferido pelo ouvinte, pelo expectador. Não adianta encarar, por exemplo, "O cavalo de Turim", de Béla Tarr, sem um discurso introspectivo preparado com cultura, pois, caso contrário, achará que o cineasta está de gozação com o expectador. Bagagem cultural e perspicácia interpretativa é o que arranca significado de uma obra de arte. Béla Tarr é um dos últimos pai de santo do cinema.
    Estou aqui na área de minha casa, ouço o terceiro trem passar no dia, ouço sabiás e bem-te-vis desde as cinco horas da manhã. E já revi o filme "Alice nas cidades". É um filme de 1974, no rescaldo da contracultura. Traz um novo formato de ver a paisagem e o homem, que está deformado pelo desconforto de ajustar-se á uma nova urbanização, e também de relacionamento. Temos casais que não se compreendem, o encontro casual, e a criança que já disputa com o adulto a definição do conhecimento destas relações.
    Trata-se de um filme que não se esgota naquilo que pode ser visto inicialmente. Outros leituras antropológicas e sociológicas sempre surgirão nas interpretações que possam ser feitas no futuro sobre ele. A garotinha, em determinado momento do filme, na procura de uma casa antiga que pode estar destruída para surgimento de um novo projeto de urbanização, lembra-nos: "O passado ainda não terminou". Vivemos sempre um processo de desejo de acabar com todo o passado o mais rápido possível, mas ele está sempre impregnado em qualquer história pessoal, ainda que a história pessoal seja a história das cidades.
    É um filme que mostra o esvaziamento dos espaços, o esvaziamento dos encontros. Onde estão as pessoas? Antecipa esse desconforto do excesso de imagens, conhecimento pela imagem; superpovoamento e a cidade está vazia, pois as pessoas só existem no isolamento e no movimento. Onde que elas estão se relacionando e pensando?
    "Alice nas cidades" é a busca de nosso passado. Mas será que havia comunicação no passado? E mostra que a própria busca já é a comunicação, já é o encontro, se permitimos que a nossa inocência circule junto com o outro, sem nenhuma necessidade de exploração, só pelo conforto de estar junto.
    Há uma cena em que Alice e Phillip sentam no café para lanchar. Ali há a demonstração do excesso de sufocamento do homem pelo mundo moderno. A paisagem deteriorada não só na urbanização. Mas também nos espaços, que vão sendo invadidos por publicidade, ruído... Noutro momento, num quarto de hotel, Philipp liga o rádio e tem de ouvir a música com superposição do ruído da cidade e da necessidade de comunicação de Alice. O que há para ouvir, ver e comunicar na balbúrdia emocional do mundo moderno, industrial?
    Gosto destes filmes com espaços para eu pensar, preenher espaços com a minha imaginação. Não quero que diga tudo por mim e para mim.
    Eu sempre me imagino andando pelas cidades com Alice.

5 de março de 2023

Pessoa uma Biografia

É a segunda biografia de Fernando Pessoa que leio. Não resta dúvida que em Pessoa uma Biografia Richard Zenith fez um trabalho com dedicação extremamente meticulosa, que respira até certa repetição de algumas informações.  Só não conseguiu afirmar o que o próprio Pessoa não deixou declaração explícita como o caso do homossexualismo. É um livro que segue o manual atual para elaborar uma biografia que se mostre atrativa. Contextualiza a época do biografado e dá um tom romanesco à narrativa. Em alguns momentos alguns episódios chegam a ser desnecessários e deslocados como são os casos dos dados biográficos de Kaváfis e Melville, escritores que não têm nenhuma ligação com a Pessoa, bem como a reestruturação urbana do Rio de Janeiro, que não teve nenhum influência sobre a obra do biografado. Como uma grande enciclopédia da época de Fernando Pessoa, esses e outros episódios trazem alguma utilidade, talvez até de conhecimento geral. Talvez Zenith devesse ter dado o título de Pessoa uma enciclopédia do seu tempo à sua obra  Temos de declarar que nem o esoterismo, nem as declarações a favor da escravidão ou a manifesta crença no sebastianismo, nada diminui a biografia ou a obra de Fernando Pessoa, que a cada dia se afirma como um dos maiores poetas da modernidade. Recomendo a leitura.

2 de março de 2023

Paúis

Este poema (Paúis, de Fernando Pessoa) é como se fosse o modelo do movimento denominado Paulismo, criado em Portugal por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. A obra completa de Fernando Pessoa pode ser acessada no Acervo do poeta. O poema critica a lama política que afetava Portugal por volta de 1910.

 

Pauis que roçarem ânsias pela minha alma em ouro...

Dobre longínquo d'Outros Sinos... Empalidece o louro

Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minha por minha alma...

Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!...

Silêncio da parte inferior das folhas, outono delgado

D'um canto de vaga ave... Azul esquecidos em estagnado...

Ó que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!...

Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora?...

Estendo as mãos para Além, mas no estender delas já vejo

Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...

Címbalos de imperfeição... Ó tão antiguidade

A hora expulsa de si-Tempo!... Onda de recuo que invade

O meu abandonar-me a mim-próprio até desfalecer

E recordar tanto o eu presente que me sinto esquecer...

Fluido de auréola transparente de Foi, oco de ter-se...

O mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...

A sentinela é hirta, a lança que finca no chão

É mais alta que ela... P'ra que é tudo isto... Dia chão...

Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os aléns!

Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro!

Fanfarras de ópios de silêncios futuros!... Longes trens!...

Portões vistos longe, através das árvores, tão de ferro!...

1 de março de 2023

Victor Sosa

Faleceu em 6 de agosto de 2020 o poeta Victor Sousa. Mantivemos ótimas trocas de informações através dos recursos do e-mail. Um dos melhores poetas mundiais da geração de 80/90. Sem ele, a poesia cai um pouco na lona. Poeta que nasceu no Uruguai e se radicou no México em 1983. Meu contato com sua obra renovou minha maneira de compreender e de praticar a poesia. Se não consegui me aproximar com autenticidade do neobarroco, deve-se à falta da experiência do sincretismo no meu percurso de vida. No entanto, alguma vivacidade inventiva das vanguardas contaminou a minha produção (e de muitos outros poetas brasileiros), mas nenhum com a intensidade de um Victor Sosa ou Nestor Perlongher. A poesia de Victor Sosa não é simplesmente lírica, como qualifica o noticiário no momento de sua morte. Ela ultrapassa a lírica e ultrapassa a vanguarda latino-americana. Victor Sosa se vale da poesia oriental e da riqueza idiomática e mítica da cultura mexicana para entranhar em seus versos a experiência de existir com outra linguagem. A sua poesia não teria chegado a esse patamar se não fosse o contato com a pluralidade de línguas ameríndias do México, onde o espanhol se cunhou de forma renovada para formação do caráter da nação mexicana. Os poetas da chamada poesia de invenção, no Brasil, mantiveram íntima ligação com ele, resultando na publicação de toda a sua poesia no país. Foi o tradutor para o espanhol de diversos poetas brasileiros, dentre os quais João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminski. No momento de sua morte, estava trabalhando numa antologia de Haroldo de Campos para a editora Callygrama.

https://www.blogger.com/blog/post/edit/4843398825678420679/452811239808696688

Folder do lançamento do livro

A poesia não deixa de ser uma fidelidade ao que amamos. Continuo fiel à poesia em A NOITE ESCURA DOS CRISTAIS PERDIDOS, que nasce acolhido...