14 de junho de 2023

Poeminha da Elis


Na minha cidade tem gatos
cachorros e também ovelhas 
Na minha cidade tem biblioteca
e também várias casas
e muitas cadeiras e redes e luzes

E uma menina sapeca
que pula mais que cães e gatos
Quando a gente descuida
a pequena Elis some o sapato
se esfrega com terra e suja o nariz

13 de maio de 2023

O poema da garotinha Lara

Tem boi tem cavalo tem cabra
Tem pintinho tem bebê tem ponte
Tem cabra tem bebê tem ovo
Tem porco tem madeira tem boi
Tem uma nuvem e tem céu
e a nuvem foi para Floriano
                                                     e tem céu

Nota recuperada de minha rede social

Acredito que o caderno "Eu", do jornal Valor, seja um dos cadernos culturais da atualidade menos lidos. E devia chegar ao conhecimento dos formadores de opinião nas áreas de cultura e educação, que é onde o comportamento humano se transforma. Sempre tem um artigo que inevitavelmente contribui para pensar o homem contemporâneo. Na semana passada, sobre a personalidade do promotor Dallangnol. Tenho comungado com o ponto de vista ali externado. A sociedade tem de zerar algumas questões. Se uma legislação não está servindo para estancar a corrupção, ela tem de ser zerada por outra. Se a educação não atende mais às tecnologias e aos interesses do homem atual, tem também de ser zerada. Aí vai se ajustando para se chegar a um ponto de conseguir consenso e estabilidade. Não são os deuses que vão gerar esses equilíbrios. Ninguém quer sair de sua zona de conforto e fazer esse enfrentamento. Os advogados querem um sistema em que possa continuar empurrando as irregularidades de seus clientes; os professores não querem encarar novo corpo a corpo com o aluno. E outro artigo da edição desta semana, no mesmo "Eu", pode contribuir para a mesma discussão desta exaustão de nosso tempo, seja na política, na cultura, no comportamento humano. A entrevista com Mafesoli aborda esse interesse do indivíduo moderno em atender só a si mesmo, que arranca a sua felicidade do imediatismo. Que talvez deseje o emprego só pela remuneração, sem estar preocupado com o futuro do Planeta, com os resultados sociais daquilo que está fazendo. Só que esta linha de pensamento defendida por Mafesoli, Zigmut e outros. é insuficiente, pois define o que é ser pós-moderno, com as características egocêntricas, de busca de ações evasivas como terrorismo, mas não apresenta ações públicas que possam promover reversões - o que julgo irreversível, pois os espaços para a ética foram todos contaminados, sobretudo a religião, que já não convence. Quem acreditaria hoje em Santo Agostinho? Só um louco. Aquilo que ele rebate nos deuses romanos, com justeza, não acabaria servindo, hoje, também para demolir a religiosidade que ele defende? Qual deus protege hoje os vencidos? Sobra as críticas aos sistemas, mas essas. Rita as servem para que a situação seja revertida? Há 1600 anos a riqueza continua concentrada e os ricos continuam manipulando a pobreza para que sejam bajulados pelo pobres. E o Chico continua com razão: vamos continuar trocando tiros

Alice nas cidades

O excesso de palavras nem sempre apresenta solução para o cinema e a música. É a intensidade com que conseguimos interpretar que dá maior amplitude a um filme ou a uma peça musical. Não adianta assistir "Alice nas cidades", de Wim Wenders, ou ouvir um Noturno, de Chopin, aguardando por um discurso. O discurso terá de ser proferido pelo ouvinte, pelo expectador. Não adianta encarar, por exemplo, "O cavalo de Turim", de Béla Tarr, sem um discurso introspectivo preparado com cultura, pois, caso contrário, achará que o cineasta está de gozação com o expectador. Bagagem cultural e perspicácia interpretativa é o que arranca significado de uma obra de arte. Béla Tarr é um dos últimos pai de santo do cinema.
    Estou aqui na área de minha casa, ouço o terceiro trem passar no dia, ouço sabiás e bem-te-vis desde as cinco horas da manhã. E já revi o filme "Alice nas cidades". É um filme de 1974, no rescaldo da contracultura. Traz um novo formato de ver a paisagem e o homem, que está deformado pelo desconforto de ajustar-se á uma nova urbanização, e também de relacionamento. Temos casais que não se compreendem, o encontro casual, e a criança que já disputa com o adulto a definição do conhecimento destas relações.
    Trata-se de um filme que não se esgota naquilo que pode ser visto inicialmente. Outros leituras antropológicas e sociológicas sempre surgirão nas interpretações que possam ser feitas no futuro sobre ele. A garotinha, em determinado momento do filme, na procura de uma casa antiga que pode estar destruída para surgimento de um novo projeto de urbanização, lembra-nos: "O passado ainda não terminou". Vivemos sempre um processo de desejo de acabar com todo o passado o mais rápido possível, mas ele está sempre impregnado em qualquer história pessoal, ainda que a história pessoal seja a história das cidades.
    É um filme que mostra o esvaziamento dos espaços, o esvaziamento dos encontros. Onde estão as pessoas? Antecipa esse desconforto do excesso de imagens, conhecimento pela imagem; superpovoamento e a cidade está vazia, pois as pessoas só existem no isolamento e no movimento. Onde que elas estão se relacionando e pensando?
    "Alice nas cidades" é a busca de nosso passado. Mas será que havia comunicação no passado? E mostra que a própria busca já é a comunicação, já é o encontro, se permitimos que a nossa inocência circule junto com o outro, sem nenhuma necessidade de exploração, só pelo conforto de estar junto.
    Há uma cena em que Alice e Phillip sentam no café para lanchar. Ali há a demonstração do excesso de sufocamento do homem pelo mundo moderno. A paisagem deteriorada não só na urbanização. Mas também nos espaços, que vão sendo invadidos por publicidade, ruído... Noutro momento, num quarto de hotel, Philipp liga o rádio e tem de ouvir a música com superposição do ruído da cidade e da necessidade de comunicação de Alice. O que há para ouvir, ver e comunicar na balbúrdia emocional do mundo moderno, industrial?
    Gosto destes filmes com espaços para eu pensar, preenher espaços com a minha imaginação. Não quero que diga tudo por mim e para mim.
    Eu sempre me imagino andando pelas cidades com Alice.

5 de março de 2023

Pessoa uma Biografia

É a segunda biografia de Fernando Pessoa que leio. Não resta dúvida que em Pessoa uma Biografia Richard Zenith fez um trabalho com dedicação extremamente meticulosa, que respira até certa repetição de algumas informações.  Só não conseguiu afirmar o que o próprio Pessoa não deixou declaração explícita como o caso do homossexualismo. É um livro que segue o manual atual para elaborar uma biografia que se mostre atrativa. Contextualiza a época do biografado e dá um tom romanesco à narrativa. Em alguns momentos alguns episódios chegam a ser desnecessários e deslocados como são os casos dos dados biográficos de Kaváfis e Melville, escritores que não têm nenhuma ligação com a Pessoa, bem como a reestruturação urbana do Rio de Janeiro, que não teve nenhum influência sobre a obra do biografado. Como uma grande enciclopédia da época de Fernando Pessoa, esses e outros episódios trazem alguma utilidade, talvez até de conhecimento geral. Talvez Zenith devesse ter dado o título de Pessoa uma enciclopédia do seu tempo à sua obra  Temos de declarar que nem o esoterismo, nem as declarações a favor da escravidão ou a manifesta crença no sebastianismo, nada diminui a biografia ou a obra de Fernando Pessoa, que a cada dia se afirma como um dos maiores poetas da modernidade. Recomendo a leitura.

2 de março de 2023

Paúis

Este poema (Paúis, de Fernando Pessoa) é como se fosse o modelo do movimento denominado Paulismo, criado em Portugal por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. A obra completa de Fernando Pessoa pode ser acessada no Acervo do poeta. O poema critica a lama política que afetava Portugal por volta de 1910.

 

Pauis que roçarem ânsias pela minha alma em ouro...

Dobre longínquo d'Outros Sinos... Empalidece o louro

Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minha por minha alma...

Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!...

Silêncio da parte inferior das folhas, outono delgado

D'um canto de vaga ave... Azul esquecidos em estagnado...

Ó que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!...

Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora?...

Estendo as mãos para Além, mas no estender delas já vejo

Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...

Címbalos de imperfeição... Ó tão antiguidade

A hora expulsa de si-Tempo!... Onda de recuo que invade

O meu abandonar-me a mim-próprio até desfalecer

E recordar tanto o eu presente que me sinto esquecer...

Fluido de auréola transparente de Foi, oco de ter-se...

O mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...

A sentinela é hirta, a lança que finca no chão

É mais alta que ela... P'ra que é tudo isto... Dia chão...

Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os aléns!

Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro!

Fanfarras de ópios de silêncios futuros!... Longes trens!...

Portões vistos longe, através das árvores, tão de ferro!...

1 de março de 2023

Victor Sosa

Faleceu em 6 de agosto de 2020 o poeta Victor Sousa. Mantivemos ótimas trocas de informações através dos recursos do e-mail. Um dos melhores poetas mundiais da geração de 80/90. Sem ele, a poesia cai um pouco na lona. Poeta que nasceu no Uruguai e se radicou no México em 1983. Meu contato com sua obra renovou minha maneira de compreender e de praticar a poesia. Se não consegui me aproximar com autenticidade do neobarroco, deve-se à falta da experiência do sincretismo no meu percurso de vida. No entanto, alguma vivacidade inventiva das vanguardas contaminou a minha produção (e de muitos outros poetas brasileiros), mas nenhum com a intensidade de um Victor Sosa ou Nestor Perlongher. A poesia de Victor Sosa não é simplesmente lírica, como qualifica o noticiário no momento de sua morte. Ela ultrapassa a lírica e ultrapassa a vanguarda latino-americana. Victor Sosa se vale da poesia oriental e da riqueza idiomática e mítica da cultura mexicana para entranhar em seus versos a experiência de existir com outra linguagem. A sua poesia não teria chegado a esse patamar se não fosse o contato com a pluralidade de línguas ameríndias do México, onde o espanhol se cunhou de forma renovada para formação do caráter da nação mexicana. Os poetas da chamada poesia de invenção, no Brasil, mantiveram íntima ligação com ele, resultando na publicação de toda a sua poesia no país. Foi o tradutor para o espanhol de diversos poetas brasileiros, dentre os quais João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Paulo Leminski. No momento de sua morte, estava trabalhando numa antologia de Haroldo de Campos para a editora Callygrama.

23 de fevereiro de 2023

Rumo aos vulcões mortos

Beatriz, qual desatinado quer apagar a luz?
Quando escurece não conseguimos sair
dos aposentos, mesmo que as portas
sejam partidas. Não conseguimos
usar a faca e descascar a maçã madura.
Apagar a luz é como dar um golpe

Quando as estrelas ficam inquietas
e se despregam da vestimenta do céu
passamos a bater as cabeças
Deixamos de visitar o vizinho
que em um choque vai perder as ventas
Larvas roem as nossas mentes

Apagar a luz é como queimar
as latadas de vides que não conhecemos
Tomaremos vinho amargo, com os pés sem rumo
No escuro, destruiremos polpas carnosas,
por cima de nós dançarão ratos e formigas
Encostas nos enterram dentro do quarto

Beatriz, para o escuro não acabar com a festa
oriente alguém para acender o carvão
Se dermos golpes será para colhermos
e em volta das chamas iremos dançar
Há festa porque não fizemos nenhum inimigo
Há festa porque saímos abraçados pelas portas
rumo aos vulcões mortos − as montanhas

21 de fevereiro de 2023

AI WEIWEI

Seja corajoso. Já li esse verso em algum lugar. Sempre que desistimos da coragem, estamos criando um tirano. Estou arrepiado com as memórias de Ai Weiwei (1000 anos de alegrias e tristezas). Ele não se deixou e não se deixa vencer em momento algum, sempre corajoso. E lembra que o autoritarismo não está só na China ou na Rússia, mas bem na nossa porta liberal. Seus filmes, disponíveis em streaming, trazem a sua resistência.

Escrevi um poema livre a partir de seu trabalho, que ainda está em progresso.

Vivo livre

Vivo para não me aprisionar numa repetição,
metralhadora, porta giratória, links
que um tirano afixa em minha porta
Não nasci para ser banco ou barranco
As minhas razões não podem ser ditas
por outra voz senão pelos acordes de minha garganta
A garganta de um morro não grita senão o eco
de um grito que eu grito com minha postura
O diabo não amassará o meu pão
pois terá de enfrentar outro tridente em minha mão
A rua terá guardado um lado pra mim
e não é a sarjeta onde querem a minha cama
Ninguém vai se sentar em minhas costas
pois nunca me fixarei num parque
Não fico aguardando a água passar enquanto solapam
minha areia e arrancam minhas pedras
Estou vivo como um cabo de aço
a arrastar uma casa em trepidações de um terremoto
Como bananas como bananas
e refuto o que me vem das ameaças dos músculos
Acolho o que concorda que sou dono de minhas palavras,
se tudo que mente atrofia a minha mente
Não repito o que aleluia o que amém
Não adoro um Deus na estrada um Deus na capela
mas o Deus que cresce o pasto e se afasta
para a criança e o cavalo passarem
Destroço o tirano que quer mandar em minha casa,
me impedir de ter meu teto e meu tato, de entender
o que eu quiser entender. Por exemplo
colher uma vara e correr com os vendilhões
e enxotar os mentirões
Eu amo se eu te amo
Eu me amarro se eu me amarro a que me amarro
Eu sou livre se eu me livro

15 de fevereiro de 2023

Diálogo com o hino de Sófocles

É bem traduzida no Brasil a peça Antígona, de Sófocles. Nessa peça se encontra o poema que passaram a chamar Ode ao Homem, que considero uma grande saudação à capacidade humana de manter domínio sobre as coisas terrenas. Em momento de grandes dúvidas sobre a ética, compus um poema, com todas as minhas limitações, dialogando com Sófocles. Incluo como epígrafe os versos finais do poema, em tradução do poeta Guilherme de Almeida.

 

Quando respeita as leis
e os juramentos dos deuses,
é digno da pátria; mas é sem pátria
o que por orgulho a conduz ao mal:
esse não entre em minha casa
nem comigo tenha um pensamento igual.

Sófocles



Desastre ter de gastar pergaminho
para narrar horrores.
Ainda é prodigioso o homem
após aprender a organizar com habilidade
os artifícios do mal?

Por mais consciente da necessária
constância das velas para enfrentar
as estocadas tempestuosas do Noto,
ufana-se o homem
do impudor de impor destroços.
E, para os traços da charrua, escraviza,
em desperdício dos esforços
dos antepassados para viverem
em urbes pacificadas e livres.

O homem anula com ganância,
traz entorse com mercúrio
para justificar aquilo que mente,
apesar de ter ciência que posiciona
a mira de ceifar a infância
com balas perdidas e fome.
Enfuna maldade na forma de empilhar,
esmigalhar para enriquecer com ouro,
estanho e orçamento a que impõe sigilo.
Debaixo do banco traseiro
carrega dinheiro vivo e fuzil.

Há o palco para o espetáculo de prodígios.
mas se socorre da extorsão,
inocula diabólicas incertezas
com bordões idênticos e furunculosos.
E insere nos mesmos canais,
em todas abas da língua,
as fúrias. Com uma quântica inverossímil
enlouquece as formas de compreender
e de forjar razões.

Quem viu aquele que se ajoelha
e ora em prantos ao deus pneu?
Aquela senhora, que se afastou
envenenada de seu lar, deixou o jardim a secar
com a desventurada ausência.
Ficou o registro fotográfico.
Ao pé de uma escada
onde dois soldados ao alto
desprezam o zelo de seus rogos.
Riem do pedido sôfrego para que arrombem
e desconectem os cabos das urnas.

Sófocles, dois pequenos soldados
para escorraçar os juízes,
pois nas fronteiras não avançam inimigos
e o homem, em sua Pátria,
agora é o farsante de si mesmo.

O general, em seu refúgio, defende a tutela,
pois a democracia não atende
a bonança dos interesses classistas,
certamente de pecúnia farta.
Se estão impressos em artigo
esses não são versos de invenção do escriba,

Merece desterro o que desonra
a sua Pátria, que desfoca os artigos da lei,
o fluir de uma água até uma tribo
e atrofia os pequenos músculos
de crianças irmãs yanomamis.

É festiva a minha casa,
e, para que não a habite a desonra,
não dá acolhida a golpes, a fuzis no forro.
Esforço-me para que um voto
desintoxique-nos das inflamações da loucura
e à auspiciosa liberdade
não venha contradizer o édito.

Oh! Sófocles, livre sopra o Noto
e embaralha as folhas de pergaminho.
Prodígios de napalm, cianureto,
casas nas encostas, o veneno da mentira,
afundada barcaça do que emigra.
Quando deixarão de bater em nossa face 
os arrotos da civilidade perdida?

6 de fevereiro de 2023

Carta que acompanhou uma biografia de Sócrates para uma criança sábia

Eu vi este livrinho hoje na banca de revista.

Ele me disse: me leva para a Lívia, que quer ser dona da sabedoria!

Adoro este filósofo. Ele não escreveu nenhum livro. Ele ensinava filosofia nas ruas da Grécia antiga. E não cobrava nada pelas aulas. Assim, às vezes ele ficava até sem calçado. Xantipa, mulher dele, fechava a casa para seus amigos não entrarem, pois todos gostavam de suas conversas filosóficas, mas consumiam as coisas e não pagavam nada por isso. Xantipa dizia: você precisa ganhar dinheiro. E ele respondia que não precisava de dinheiro: “São tantas as coisas de que não preciso”, ele dizia. O dinheiro comprava as coisas de que ele não precisava.

Ele dizia que algumas coisas o homem não pode pedir aos outros. Por exemplo, se for para cozinhar, posso pedir ao cozinheiro para cozinhar. Se for para dirigir o navio, posso pedir ao responsável pela direção do navio. Mas, e se precisar da sabedoria, de saber o que é o amor, a razão? Essas coisas não podemos pedir aos outros para pensarem por nós. Nós mesmos precisamos aprender a pensar. Somos nós que dirigimos o nosso pensamento. Não podemos entregar os nossos pensamentos para os outros.

Alguma coisa que você ler deste livrinho velho já será importante!

Com o abraço do

Salomão Sousa

Poemas sobre o luto, por Paula Akkari

A jovem psicóloga Paula Akkari fez uma postagem importante em seu Instagram sobre nove poemas brasileiros sobre o luto.
1) A Carolina, de Machado de Assis
2) Hão de chorar por ela os cinamomos, soneto de Alphonsus de Guimaraens
3) Cântico do Calvario, de Fagundes Varela
4) Morte de Clarice Lispector, de Ferreira Gullar
6) Leitura, de Adélia Prado
7) Mário de Andrade desce aos infernos, de Carlos Drmmond de Andrade
8) Exumação de Mário de Andrade, de Vinícius de Moraes
9) A Mário de Andrade Ausente, de Manuel Bandeira


3 de fevereiro de 2023

O grito de Elisa Marques para reparação da perda

Tomei conhecimento pelas redes sociais do lançamento do livro "Até minha terapeuta sente falta de você", de Elisa Marques. Encomendei-o ato contínuo à autora, mesmo sabendo que o estilo obedece uma característica que não atende os pressupostos poéticos que defendo. No entanto, não posso continuar resistindo aproximação dessa poética confessional, talvez implantada pela ligação dos autores novos com o tom direto das redes sociais. Ainda mais que uma das últimas autoras a levar o prêmio Nobel, Louise Gluck, escreve na mesma tonalidade de cartões amorosos. Vejamos um exemplo de Louise Gluck, com o estilo direto, diríamos prosaico e oral:

Me tornei uma criminosa ao me apaixonar.
Antes disso eu era uma garçonete.
 
Eu não queria ir para Chicago contigo.

É o primeiro livro dessa goiana, que está ligada ao cinema. Foi publicado pela editora Negalillu, que se dedica aos novos autores goianos, tais como Walacy Neto, que debutou na editora com um livro especialmente promissor para uma futura carreira poética bem sucedida.

São poemas minimalistas, com mensagens diretas, questionando a perda, o esvair do que foi: "os pedaços de ti que achei que nunca/me deixariam". Mas há permanência no amor? Remete-nos a Nagima Oshima, no filme "O império da paixão", que discute o quão destrutivo é a permanência da pulsão amorosa (sexual). Deixo para autoridades apropriadas a discussão da questão mulher lésbica e LGBTQIA+, conforme expresso na ficha catalográfica.

Não inferimos se a construção do livro tenha ligação com alguma atividade terapêutica direta, mas a poesia é, em si, uma atividade de desafogamento pessoal, sobretudo nos poemas de Elisa Marques. Antes de qualquer perda, confessa e aceita e valoriza a ausência do avô - Josiano Marques, escritor e professor goiano, que serve de referência para a autora. 

No entanto, temos de reconhecer que passamos por um momento de necessária alteridade. Não só a poesia tem de dialogar com as perdas, com os descaminhos e desentendimentos. Temos de recorrer ao diálogo direto para essa busca corporal de compreensão. Mesmo quando a linguagem não se livra de eivar-se de rancor (se fosse uma linguagem política, a linguagem portaria o ódio). Vivemos um mundo de ausências, por isso a selva povoada de rancor e ódio, com urgência de alteridade, seja ela postal ou grito, para absorção da ausência e do divergente.

Elisa Marques traz seu grito para reparar as perdas. Falta-nos gritar a alteridade para reparação dos danos sociais da política. 

você me ama
por causa deste livro.
e eu não sei se
te amo sem ele.

Se fraquejamos, o napalm cai na nossa cabeça.

Após assistir o filme "Tár", revi "Apocalypse Now" só para matar a saudade da recitação do poema de Eliot por Marlon Brando. E, nessa sequência às avessas, reli pela terceira vez o romance "Coração das Trevas",  de Joseph Conrad, que originou esse imbróglio todo. Li os capítulos I e II na edição da editora Mojo e o III, na edição da Darkside. Existem umas dez traduções em catálogo. A crítica é unânime em indicar a edição da Hedra. Mas quem quiser mais conforto na leitura, deve optar pela edição da Antofágica, com letras maiores. Não é de se desconsiderar a edição da editora Ubu, certamente a mais cuidada, com iconografia de Regina Rennó e farto material complementar. A tradução da Mojo é bem poética e as palavras estão ajustadas para a linguagem do tempo presente. A da Darkside é mais fiel. Em ambas, bem como da  Cia das Letras e da Ubu, a tipologia é menor. Portanto, é um livro, merecidamente, bem traduzido no Brasil.

Mas vamos em frente.

Conrad era ucraniano e tornou-se um dos grandes escritores de língua inglesa após morar na França. "Coração das Trevas" trata do colonialismo e da admiração por lideranças despóticas, de forma cega. O filme de Copolla não é fiel ao livro e mostra que a fidelidade ao despotismo deve ser quebrado. Copolla, em "Apocalypse Now", repudia as guerras coloniais e mostra o absurdo despótico da atuação das lideranças. Tanto o romance quanto filme, tudo muito permeado com poesia e dolorosa exposição do lado macabro da violência. São obras a nos alertar para a necessidade de estarmos atentos para que o humanismo não seja violentado. Veja o caso dos yanomamis.

Se fraquejamos, o napalm cai na nossa cabeça.

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Folder do lançamento do livro

A poesia não deixa de ser uma fidelidade ao que amamos. Continuo fiel à poesia em A NOITE ESCURA DOS CRISTAIS PERDIDOS, que nasce acolhido...