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Entrevista ao ESTADO DE MINAS

Neste sábado, 14-10-2006. circula no caderno Pensar, do jornal Estado de Minas, a entrevista que concedi ao jornalista e escritor Carlos Herculano Lopes, que tive a grata oportunidade de conhecer junto com Ligia Fagundes Teles em encontro de escritores — anos atrás — no circuito das águas. A íntegra da entrevista:

1) Como você vê a evolução de sua poesia desde o primeiro livro, A moenda dos dias (1979), publicado há 25 anos, até hoje, com Ruínas ao Sol (2006)?
Salomão Sousa: Nasci em 1952. Os poetas que nasceram no período em que eram lançados Invenção de Orfeu (52) e Morte e vida severina (65) — livros que sintetizam as experiências dos diversos períodos da poesia brasileira —, terão de se ajustar a novas linguagens, se quiserem participar, de forma renovada, da modernidade poética. Morreram as vertentes da poesia marginal, da poesia processo e do concretismo, além da falsa poesia de protesto praticada na vigência do regime militar. O poeta que insistir nalguma dessas vertentes estará assinando o termo do próprio funeral. Para se inserirem no panorama atual, o poeta que nasceu naquela época terá de se ajustar às linguagens daqueles que nasceram até vinte anos depois. Isto não significa que a obra anterior desse poeta não tenha cumprido o seu papel ou que não tenha funcionalidade no presente, pois aquele que fez a poesia dos anos 70 a 2000 contribuiu para a abertura das portas das buscas que são feitas hoje. Vim dessas vertentes, e, para que satisfizesse de forma mais calorosa o processo crítico e mesmo para que dele me aproximasse, tive de buscar novas alternativas para a minha poesia, buscas estas que culminaram no livro Ruínas ao sol. Mas, para isso, tive escarafunchar muito, e me auxiliou bastante a descoberta do aspecto trágico da poesia inglesa e da sutileza de Ossip Mandelstam, Eugenio Montale, Rilke… Em sua trajetória, o poeta tem de se alimentar de todas as afluências poéticas que puder abarcar sob o risco de cair na secura da esterilidade. Ou para dizer de forma mais clara: produzirá abobrinhas o poeta que não estiver aberto a novas enxertações.

2) Ainda sobre os seus 25 anos de poesia, parece que você está organizando uma antologia com todos os seus poemas? Dá para adiantar alguma coisa?
Salomão Sousa: Safra quebrada, título do livro que já está pronto para edição, foge um pouco dos parâmetros de uma antologia, mas não contempla a totalidade dos poemas dos meus livros. Deve ser editado até o final do próximo semestre, se os recursos prometidos não forem abortados. Ainda que não seja publicado, só a sua organização contribuiu para que eu revisasse a minha produção e também tomasse conhecimento do conjunto daquilo que já escrevi. A cada poema dos meus dois primeiros livros, no momento em que eu fazia a nova composição, sentia me rondar o clima pesado, negro, ameaçador do regime militar. Muitos dos poemas eu revi com aquela dor antiga que eu carregava na espinha enquanto trabalhava nas repartições públicas, ali na Praça dos Três Poderes. Dos poemas dos demais livros, sentia as incertezas da poesia das décadas de 80 e 90, que ainda não vislumbrava saídas para o beco em que ela se encontrava. Assim, pude ter mais consciência daquilo que produzi, e consolidar uma objetividade mais consciente, que auxilia na formatação de uma obra.

3) Muita gente nova tem feito poesia atualmente, e parece que as editoras voltaram a investir no gênero. Você tem acompanhado este processo?
Salomão Sousa: O investimento atual ainda é insuficiente e beira o enganoso, pois o mercado editorial e as forças críticas, acreditando que a “facilidade e a superficialidade” são suficientes para a conquista do mercado, acabam investindo – em nome da Poesia – em textos do mais desbragado e inútil prosaísmo, que não servem para a formatação de linguagens e muito menos contribui como auto-ajuda. Há muitas contradições. A poesia brasileira avançou muito em termos de linguagens que recuperam a inteligência dos tropos, a mesclagem do urbano e rural, o delírio da criação, e as espertezas da sonoridade. A sonoridade voltou a ser necessária, através da invisibilidade das assonâncias e aliterações. E ainda assim vemos carradas de obras de falsidade lírica, de anotações inúteis de incidentes cotidianos e da intimidade dos poetas. É tanta a falsidade que muitas dessas obras não conseguem ficar dois dias em cartaz, mas servem para a momentânea projeção nos grandes prêmios. Salva a atuação das pequenas editoras, como Lumme Editor, e de títulos da Cosac. Destaco dos vários poetas atuais os nomes de Marcos Siscar e de Antônio Moura, este com o vivo Rio Silêncio.

4) Além da poesia você já se aventurou por outros gêneros literários, como a prosa, por exemplo? Já pensou em escrever algum romance?
Salomão Sousa: Não sou prosador, pois não tenho o domínio da fabulação. Talvez pudesse enveredar pela crônica ou pela crítica. Mas sai muito cara, atualmente, a prática da crítica. Ela se profissionalizou, com o gravame de desprezar o colorido pessoal. Fria, impessoal, hábil no resumo. Quem foge desse parâmetro, acaba apunhalado. Qualquer crítica mais vivaz provocará tréplicas intermináveis. Perdemos a humildade, pois a homem da modernidade é auto-suficiente e intocável. E acaba saindo ruim para todo mundo. É numa ambiência de divergências que surgem as descobertas, a proliferação das novas linhagens, a renovação genética da poesia. Já é famosa a frase de Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra. Certa vez fiz uns comentários para o Iacyr Anderson Freitas sobre a sua poesia, e ele me respondeu com satisfação, pois ninguém ousava questionar ou mesmo apontar rumos para que ele amadurecesse o seu processo criativo. E, veja bem, o Iacyr Anderson Freitas tem o domínio da composição poética desde o primeiro instante em que se lançou.

5) Ganhar prêmios literários, como o último que você faturou — o Prêmio Goyaz de Poesia — significa o quê na vida de um escritor? Ajuda a abrir portas das editoras?
Salomão Sousa: O escritor só se constrói através da própria obra. A concessão de um prêmio pode abrir as portas da crítica, e até das editoras, principalmente quando o prêmio cuida do financiamento. Se não fossem os editores apaixonados por poesia, todos os poetas teriam de custear a edição de seus livros. Basta ver que há editores atuais que estão fazendo tiragens de duzentos/trezentos exemplares. Há livros de poesia que estão saindo em edição de cem exemplares. Só a paixão pelo livro para que um editor trabalhe numa edição de cem exemplares! Os poetas ainda são editados por outra razão muito simples: dão status ao catálogo das editoras. Se não fosse por status, o Brasil não conheceria as obras de Eugenio Montale, de Rilke e de tantos e todos os outros. Editor está atrás de autores que encham o cofre — mas o lucro é inerente a qualquer atividade econômica.

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