Ordenamento de um texto

Dedicado à Lejânia Bello

Se comparados, os textos de Ítalo Calvino e de Fernando Pessoa manifestam algumas peculiaridades intrigantes. O primeiro autor produz um texto limpo, tudo no devido lugar, com elegância acuradíssima. Essa totalidade estilística de Ítalo Calvino aparece também em Nabokov, principalmente no livro Pessoa em Questão, de memórias. No segundo, as frases incompletas, versos onde faltam palavras, e surge o excesso de sinalizações. Fernando Pessoa não teve tempo de terminar a maioria de seus textos. No entanto, continua a sobrepujar a maioria dos escritores pela energia vital. Era tanta vitalidade que não sobrava paciência para preencher todos os vãos, retornar ao início para ordenar o verso, domá-lo numa estrutura espacial.
Diante dessa dicotomia na forma de mostrar o texto finalizado, a necessidade de adoção de postura redacional se torna imperativa. Quem não é Fernando Pessoa tem a obrigatoriedade de ordenar o poema, os parágrafos da ficção ou mesmo dos textos confessionais (não há maior elegância do que nas memórias fictícias de Pedro Nava, ou no romance Em busca do tempo perdido, de Proust, que tanto pode ser memória quanto pode ser ficção). Quando expressas, as memórias precisam apresentar parentesco com a ficção (será que são verdades as memórias de Vargas Llosa?, quer saber uma jornalista que lê o livro). A irresponsabilidade fica apenas para a comunicabilidade instantânea da internet — rápida, descompromissada, e até mesmo banal. O ordenamento aprofunda a elegância das idéias, extingue a banalidade, e aumenta a credibilidade que o leitor deposita no autor.
Quando uma idéia surge, pode acontecer de ser abordada com o apressamento da energia corporal. No entanto, ela não funcionará em plenitude sem maturação, sem que o autor viva a fase de podar os ramos excessivos, já que os parasitas quase sempre se depositam no meio das palavras exatas para sugar suas energias. Escrever é um serviço de jardinagem. O galho podre ou a planta daninha retiram toda a harmonia do canteiro. Assim, se há abuso das sinalizações, dos adjetivos, parece que as flores (as palavras exatas) ficam apagadas no meio dessas folhas mortas.
Assim, a jardinagem da poesia moderna (e também da ficção) exige a eliminação do excesso. Se os escritores atuais são herdeiros do concretismo, que liberou a visualização do espaço textual, eles têm de fazer jus a essa herança. A maiúscula tem de estar no seu lugar (o simbolismo agora é só tradição), nunca ser usada para grafar palavras específicas ou vir em repetições infinitas no início de todos os versos; abolição de sinalizações óbvias (algumas vírgulas, reticências, exclamações). Evitar metáforas comparativas. Até as crianças fazem versos com a palavra como ou com verbos de ligação (você é o sol da minha vida, você apareceu como o sol na minha vida). Outras opções de criatividade metafórica têm de ser cavadas para que as flores não sejam abortadas.
Há que se compreender que Helena Parente Cunha deu a largada para a junção do Concretismo com a retomada da expressão frasal, que resultaria nos atuais movimentos de pós-vanguarda. Ela, que ainda não está reconhecida por fazer esse trampolim, conseguiu na maioria dos seus livros de poesia esse feito através do despojamento vocabular e frasal. As palavras partidas e exatas, a frase incompleta para completar outra incompleta, mas tudo com o domínio, com decisão de expressar uma linguagem, e não por incompetência.
Na pós-vanguarda – que é o que os escritores atuais vivenciam ou chegam a praticar — as palavras, e mesmo as frases, não são mais as mesmas. As palavras e as frases se libertaram. Sem que disso tenham consciência, as palavras da pós-vanguarda são pré-socráticas – não dizem só o que está em suas raízes ou em seus complementos, não querem nada perto delas que possa atrapalhar a possibilidade de significação.
No livro Decir es Abissinia, Victor Sosa não usa vírgula ou dois pontos nessa frase — Decía por la boca acacia fresca (Dizia pela boca acácia fresca). Alguém poderia ficar tentado a grafar: Dizia pela boca: — acácia fresca. Mas ficariam perdidas a limpeza, a rapidez, a espacialidade concreta. Quando a frase é traduzida, desaparece um cia da assonância. E está tudo aí dentro desse pedaço de verso: sonoridade, sensualidade. E assim é quando Nabokov desdobra a palavra Lo-lita no primeiro parágrafo do seu romance famoso. Todos os leitores se sentem lambendo a ninfeta Lolita.
Os escritores da pós-modernidade não precisam transformar as palavras em objetos estranhos, escondidas entre penduricalhos, com excesso de partições, mas deixá-las abertas para a expressão total. Escrever não é nada mais que lamber as palavras com toda a sensualidade, com a sabedoria de desvesti-las, deixá-las nuas para todos os significados.

Comentários

Anônimo disse…
Nanquim:tinta polvo,tentaculos ao desenho... Robson2006.

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha sobre o filme "300"

ULISSES, de Tennyson