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É áspero o caminho, mas não me abdico da Poesia

Desde a primeira edição de A Moenda dos dias, de 1979 (portanto, há 25 anos), que temos procurado atender ao chamado de Carlos Drummond de Andrade, que em correspondência de 1980 nos intimou a "prosseguir" "no caminho áspero de exigir da poesia um testemunho do meio e do tempo". Agora, neste 19 de junho de 2006, recebo exemplares de Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia, publicado pela 7Letras. Nele, prossigo o caminho que escolhi rumo à Poesia, que nunca sabemos onde nos levará. E o destino é cada vez mais inglório com as armadilhas que, em vez de ajudá-los na trajetória, muitos procuram interpor na passagem dos poetas. Como digo em um de meus poemas: ninguém vem colocar o leite em nossa porta. Na porta dos poetas caem apenas as contas. Mas, como diz Fernando Pessoa: quem quiser usar, use; quem quiser abdicar que abdique. Não abdico. Não chego ao ponto de circunscrever "a mim a tragédia que é minha", como diz o heterônimo de Fernando Pessoa. Diversas injunções (processo político-cultural, novos rumos da mídia, interesses liberais) contribuem para a crise de linguagem e para o fracasso editorial da poesia, para a tragédia da leitura de poesia. Não abdico. A tragédia da poesia não é cavada só pela tragédia do poeta. No entanto, não abdico. Se houver tragédia, terei me divertido, me emocionado. Não terei derramado lágrimas. Se a minha poesia for fracasso, ela faz parte do fracasso do meu meio e do meu tempo. Se ninguém mais tocar no meu livro para abrir e ler, ali dentro estou com meu tempo e meu meio, como Carlos Drummond de Andrade me convocou a prosseguir. Vocês, que são do meu tempo e do meu meio, convoco para a vitória ou o fracasso: Ronaldo Costa Fernandes, Ronaldo Peixoto Alexandre, Herondes Cézar, Ronaldo Cagiano, Ana Ramiro, Vassil Oliveira, João Carlos Taveira, Robson Corrêa de Araújo. E outros mais ainda convocarei.

Comentários

Herondes Cezar disse…
É isso aí, Poeta. Quando escolhemos o nosso caminho, não devemos desistir jamais. Aqueles que sabem para onde vão, e persistem, mais cedo ou mais tarde chegarão a seu destino glorioso. Você, com todos os méritos, já está colhendo seus louros. Nós, que o admiramos, também sentimo-nos vitoriosos.
Caminhamos com o olhar naquilo que temos prazer em querer ver.
Caminhamos solidários àqueles que buscam também um caminho nada público, nada publicitário.
E estamos aqui Salomão, prontos para voltar a mata fechada com novos odores.
E aos que são das vias públicas que se publiquem.
Fica o caminho.
Ana Ramiro disse…
Salomão, aguardo a nova data para comemorarmos o teu "Ruínas ao Sol". Conte comigo! Beijos, Ana

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