Participamos nesta terça-feira, 15 de agosto, na Universidade de Brasília, juntamente com Marcelino Freire e Nicolas Bher, de uma mesa do Encontro Nacional de Estudantes de Letras (ENEL), destinada a debater os caminhos e descaminhos da literatura brasileira contemporânea. Carpinejar apareceu rapidamente como ouvinte, talvez interessados em ouvir Marcelino ou Nicolas Bher, pois escapuliu antes de nossa fala. O tema proposto não foi abordado com correção, pois os outros dois debatedores aproveitaram para tratar de divulgação da própria obra. Talvez tenham — por experiência — agido assim por prudência, pois tão logo apontamos algumas questões da poesia brasileira, algumas de nossas observações provocaram alguns desconfortos. Fico com a impressão que mesmo os estudantes de letras — é certo que não em sua totalidade — preferem uma poesia modernista descartável, amarrada a correntes nada progressistas. Não sou academicista, mas a poesia brasileira só terá vigor futuro com desdobramentos da poética de Jorge de Lima e das experiências de vanguardas (espelhamento das palavras e versos, com turbilhões de aliterações e assonâncias). A poesia não é mais uma ressonância humorística da realidade. Quando tratei desse assunto com Victor Sosa, em diálogo que publicamos em vários jornais, reconhecemos que a poesia contemporânea é neobarroca, e que o modernismo da Semana de 22, que passou por Leminski e Mário Quintana, já está enterrado, apesar de insistirem em premiá-lo no meio crítico por conforto do entretenimento que esta corrente poética propicia.
Transfiro para cá o comentário de Ronaldo Cagiano:
Salomão, é uma pena que, num meio propício à inquietação, que deveria instigar a novos questionamentos e à procura de caminhos, não se tenha aproveitado a oportunidade para debater os rumos da literatura e o lugar da linguagem no mundo de hoje, cujo escalonamento de valores éticos e estéticos está inviabilizando uma literatura coerente com nossas demandas e necessidades de interpretar o mundo e o momento em que vivemos. Creio que a literatura confessional dos blogs está impondo uma descartabilidade ao processo criativo, mais vale o instante que a instância criativa. A linguagem é desprestigiada em nome de um utilitarismo que despreza as semânticas e renega a nervura e a coluna dorsal da comunicação: a palavra construída com zelo e artesanato. O umbiguismo dominou a literatura. Há um vácuo que precisa ser vencido e não há como negar o passado, porque como diziz Paul Claudel, não há nada de novo ou de vanguarda quem não tenha um pé na tradição. Estamos sem rumo. O vazio existencial desaguou num abismo quase incurável. Os espamos da forma tomaram o lugar da arquitetura da linguagem. E ninguém ainda se deu conta dessa inversão, que uns entendem uns apropriam como invenção. É a agonia da palavra submetida às convulsões formais. Ronaldo Cagiano
Ronaldo:
antes de iniciar o debate, fiz questão de afirmar que estava ali em razão de sua viagem imprevista a Belo Horizonte.
A poesia é meu território, e a cada dia planto e colho grãos em seus campos. Com a poesia, eu fundo e confundo a realidade. (Linoliogravura do fundo: Beto Nascimento)
15 de agosto de 2006
12 de agosto de 2006
Luiz de Aquino está programando vir a Brasília no início de setembro, a convite de Ana Ramito, para um diálogo com os muitos amigos que tem na cidade. Aproveitamos para agradecer a crônica Proseando com o poeta (diga-se Salomão Sousa), que ele publicou na edição de 12-08-06 da Tribuna do Planalto (relembre-se: editado por nosso amigo Vassil Oliveira). Vassil, quando fecharemos a introdução do Safra Quebrada?

Na edição de 12 de agosto do caderno Pensar, que circula aos sábados no Correio Braziliense,
saiu a primeira resenha em que Ruínas ao sol (editora 7Letras), de nossa autoria, merece abordagem específica. Hildeberto Barbosa Filho, paraibano dr. em literatura brasileira, considera que nosso livro traz um "lirismo de índole filosófica embasado em tessituras de imagens finamente elaboradas". Deixamos de especificar o link da matéria em razão de o Correio Braziliense bloquear a sua página àqueles que não são seus assinantes. A resenha alia a nossa linguagem poética às de Marcos Siscar e Heron Moura, que também foram premiados no Festival de Poesia de Goyaz.
6 de agosto de 2006
Comentário de Rachel Moura
É da minha amiga Rachel Moura, do Rio de Janeiro — estudante de geografia, poeta, de um ótimo espírito — o comentário abaixo sobre o livro Ruínas ao Sol, que já pode ser encontrado em algumas livrarias ou encomendado em livrarias da internet. Bjão para você, Rachel.
Não sei nenhuma teoria literária para explicar os poemas do meu amigo Salomão Sousa. Contudo, creio que a poesia pode e deve ser uma janela pela qual vemos e experimentamos o mundo. Nesse sentido, meu ser entende muito bem quando Salomão diz que há “uma noite de pensamento”. Por que será? Talvez seja porque ainda haja “um sol longínquo” ou por que temos profundos motivos para “iludir a morte, “para tecer o corpo” e, ainda, “motivos para sedas nos casulos”.
Também compreendo as infinitas tempestades do eu expostas nas palavras de Salomão: de amor, ódio, conflito, que surgem nas estrofes como arrebatadoras de algo. Tempestades essas que nos levam a navegar no dia-a-dia, ou que às vezes não aparecem: “a tempestade não veio”. Podem também retornar aos desertos, e então é por isso que ficamos a sombra?
Deparo-me, por fim, pelo convite de “sair da sombra das ruínas”, desejar o sol e deixar vir “ao sol as ruínas da pele”, sendo alguém em que “vivo de me mudar de caminhos” para finalmente concordar com o que diz Salomão “navego num mundo sem prumo e sem nauta”.
Em suma, li, reli, naveguei, e por isso viajei, no entanto efetivamente naufraguei. Sobretudo, caminhando olhos e pensamentos pelas estrofes (sua escrita difícil até me deu algum trabalho, mas já me acostumei) fiz sombras ao mesmo tempo em que as desfiz. Isso tudo foi resultado da beleza que é o livro Ruínas ao Sol de Salomão Sousa.
Não sei nenhuma teoria literária para explicar os poemas do meu amigo Salomão Sousa. Contudo, creio que a poesia pode e deve ser uma janela pela qual vemos e experimentamos o mundo. Nesse sentido, meu ser entende muito bem quando Salomão diz que há “uma noite de pensamento”. Por que será? Talvez seja porque ainda haja “um sol longínquo” ou por que temos profundos motivos para “iludir a morte, “para tecer o corpo” e, ainda, “motivos para sedas nos casulos”.
Também compreendo as infinitas tempestades do eu expostas nas palavras de Salomão: de amor, ódio, conflito, que surgem nas estrofes como arrebatadoras de algo. Tempestades essas que nos levam a navegar no dia-a-dia, ou que às vezes não aparecem: “a tempestade não veio”. Podem também retornar aos desertos, e então é por isso que ficamos a sombra?
Deparo-me, por fim, pelo convite de “sair da sombra das ruínas”, desejar o sol e deixar vir “ao sol as ruínas da pele”, sendo alguém em que “vivo de me mudar de caminhos” para finalmente concordar com o que diz Salomão “navego num mundo sem prumo e sem nauta”.
Em suma, li, reli, naveguei, e por isso viajei, no entanto efetivamente naufraguei. Sobretudo, caminhando olhos e pensamentos pelas estrofes (sua escrita difícil até me deu algum trabalho, mas já me acostumei) fiz sombras ao mesmo tempo em que as desfiz. Isso tudo foi resultado da beleza que é o livro Ruínas ao Sol de Salomão Sousa.
5 de agosto de 2006

Noutro dia uma amiga de Curitiba me mandou pelo msn uma música da cantora Céu. Não sou crítico de música, mas, por gostar de jazz, surpreendeu-me a as sutilezas dos arranjos, que primam por levezas, e as interpretações, que não necessitam de sair por aí aos gritos. Agora estou aqui ouvindo o seu disco — Céu, homônimo —, e as 15 faixas confirmam as minhas impressões iniciais. Como poeta, eu diria que as letras precisam se aproximar um pouco mais dos movimentos da poesia brasileira, com maior sonoridade interna, sem contar a necessidade de maior envolvimento com a nossa realidade. Mas, oh, dá de dez em muita gente que tá por aí sendo vendido como a grandes promessa. Céu não promete, éhhhhh!!
30 de julho de 2006
Fim de semana agitado. Comparecemos ao programa Literatura em Conjunto, quando foi debatida a obra de Mário Quintana. Para encompridar a noite, fomos para ao Beirute em companhia de Fabrício Carpinejar, Fernando Marques, Ronaldo Cagiano e Jules Queiroz, para continuar a atualização das últimas da Literatura. Eles amanheceram em outros bares, mas tive que retornar mais cedo para casa. E, no domingo, passamos a tarde – Ronaldo Cagiano, João Carlos Taveira e Robson Araújo —, entramos na noite, só nas banalidades. O resto era Mozart.
21 de julho de 2006
Estou comovido com a resenha que ANA MARIA RAMIRO escreveu sobre o meu recente livro. Assim ela conclui o artigo que está no seu blog (ver link):
“Ruínas ao Sol revela-se sobretudo como um manifesto contra o marasmo e a banalidade no fazer poético e condensa o engajamento estético do autor para com as constantes e renovadas apreensões artísticas de seu tempo ("Está morta a dinastia/de quem aguarda/sentado na soleira/ A lenha das palavras/ acende a festa/ na beira do meu pasto"), afinal em sua própria concepção, o poeta deve passar pela modernidade de seu tempo, pois a sua poesia tem que refletir o somatório da encruzilhada de suas experiências com as da sociedade em que se encontra inserido ("Sem intimidade com a natureza da vida, a vida fraqueja, a humanidade vira pó"). O novo livro de Salomão Sousa ilumina como uma pequena jóia emblemática, mas mais do que emblema, é um corpo vivo, palavra latente. Comova-se.”
ANTONIO MIRANDA também anunciou com muito zelo o livro em sua página (ver link):
“A obra tem uma unidade construtiva, é um livro-poema. Começa com um tom híbrido de épico e lírico — "Depois das derrotas, dos desterros, das ruínas" — e se fecha com o emblemático "Agora vou falar das ilhas de Cetim".
Não é uma leitura fácil, muito menos óbvia, por causa da linguagem densa e das desavisadas associações de imagens e de idéias, da ausência de pontuação, do automatismo verbal que vai anunciando, mas não necessariamente enunciando, numa espécie de neo-surrealismo consciente. Em tempo: recebeu um prêmio no Festival de Poesia de Goyaz 2006.”
Aproveitamos para agradecer ao poeta VALDIVINO BRAZ a matéria que publicou n”O Estado de Goiás” (edição que vai de 13 a 19 de julho de 2006), semanário de Goiânia, sobre o nosso livro Estoque de Relâmpagos. Valdivino Braz é amigo dos antigos, que peleja bem!!!
“Ruínas ao Sol revela-se sobretudo como um manifesto contra o marasmo e a banalidade no fazer poético e condensa o engajamento estético do autor para com as constantes e renovadas apreensões artísticas de seu tempo ("Está morta a dinastia/de quem aguarda/sentado na soleira/ A lenha das palavras/ acende a festa/ na beira do meu pasto"), afinal em sua própria concepção, o poeta deve passar pela modernidade de seu tempo, pois a sua poesia tem que refletir o somatório da encruzilhada de suas experiências com as da sociedade em que se encontra inserido ("Sem intimidade com a natureza da vida, a vida fraqueja, a humanidade vira pó"). O novo livro de Salomão Sousa ilumina como uma pequena jóia emblemática, mas mais do que emblema, é um corpo vivo, palavra latente. Comova-se.”
ANTONIO MIRANDA também anunciou com muito zelo o livro em sua página (ver link):
“A obra tem uma unidade construtiva, é um livro-poema. Começa com um tom híbrido de épico e lírico — "Depois das derrotas, dos desterros, das ruínas" — e se fecha com o emblemático "Agora vou falar das ilhas de Cetim".
Não é uma leitura fácil, muito menos óbvia, por causa da linguagem densa e das desavisadas associações de imagens e de idéias, da ausência de pontuação, do automatismo verbal que vai anunciando, mas não necessariamente enunciando, numa espécie de neo-surrealismo consciente. Em tempo: recebeu um prêmio no Festival de Poesia de Goyaz 2006.”
Aproveitamos para agradecer ao poeta VALDIVINO BRAZ a matéria que publicou n”O Estado de Goiás” (edição que vai de 13 a 19 de julho de 2006), semanário de Goiânia, sobre o nosso livro Estoque de Relâmpagos. Valdivino Braz é amigo dos antigos, que peleja bem!!!
19 de julho de 2006


Na oportunidade em que é lançado o CD The Complete 1957 Riverside Recordings (2 CD) com o encontro de Thelonious Monk (piano) e John Coltrane (sax), deixo aqui a presença destes dois grandes monstros do jazz. De John Copltrane, sugiro a audição dos discos Blue Trane, A Love Supreme, Ballads, e Giant Steps. Do Thelonious, oh! são tantos: Monk's Dream, Briliant Corner, Misterioso, Genius of Modern Music, Vol. 1 e Vol. 2 ((Blue Note). Sem jazz não há interlocução poética.
17 de julho de 2006
"Formação formal"
Em desdobramento ao debate sobre a questão da necessidade de "formação formal", que eu entendo necessária para a perfeita prática linguagem poética, foi novamente questionada pelo meu interlocutor anônimo, nos seguintes termos:
"as formalidades e as superioridades academicas por si só nao formam nem profissionais tao pouco artistas, sao nescessarias do ponto de vista social, mas nao sao imprencindiveis; linguagem do corpo, musical, ou linguagem aerea adiquire-se com percursos proprios mesmo quando indicado por mestres ou pseudos-mestres. E as interrogaçoes nunca serao questionamentos, o caro e o barato convivem bem no comercio. ao arquivo a critica; os artistas estao no mundo."
Não nego a importância da "escola do mundo", e muito menos renego a experiência de mundo que trilhei. Mas se eu tivesse a oportunidade de viver no passado, teria corrido meio mundo para participar da academia de Platão, ou mesmo de Abelardo! Tive de amassar muito pão e vender banana na feira para fazer uma universidade (que representa o ideal platônico-aristotélico de academia nos tempos atuais — pois academia indica formação e não conclave de intelectuais, como habituamos tratar hoje). No "percurso próprio" de todo homem, necessariamente tem de haver a formação formal, mesmo que esta seja contratada pelo próprio indivíduou ou pela família. Só para usar uma metáfora para a questão. A madeira está no mundo, mas em estado bruto ela não se torna um caibro, um tampo espelhado de mesa. Já é entiga a expressão: é preciso burilar o diamante. Todo ser humano é um diamante, mas precisa ser burilado pelas experiências de vida, pela educação familiar/social e pela "educação formal".
Meu carísismo interlocutor: não sou acadêmico. A minha academia é o mundo. Há sabedoria e sabedoria! Antigamente, a sabedoria, para saber chover, consistia em cheirar o vento; hoje a sabedoria para saber do clima passa pela academia-universidade-formal. E assim, também acontece com a linguagem poética.
Voltei a ser questionado, de novo de forma anônima, sobre a necessidade da "educação formal" para que o indivíduo seja poeta— se eu acredito nessa necessidade.
Primeiramente, é bom que se diga que, assim como na música, há uma hierarquia na poesia. Há a música de raiz, integrada ao folclore, que não exige formalidade, apenas domínio de certos ritmos já definidos; há a música popular, que está próxima do folclore e já exige domínio de composição e execução; e assim para adiante até se chegar à música erudita. Há o poeta inserido num processo quase folclórico — cite-se o caso do repentista —, e há aqueles que dominam o idioma, os procedimentos da língua erutita, que chegam a uma intimidade com as exigências do processo criativo. Para estes últimos, só a "formação formal" apresenta habilitação.
E acredito em mais: há uma crise na linguagem da poesia contemporânea justamente por faltar algumas disciplinas à "educação formal" atual , tais como línguas antigas, filosofia, bem como melhores escolhas nas adoções dos livros didáticos.
Não há mais espaço para amadorismo no campo das artes, assim como não há no campo dos esportes e da tecnologia.
Acredito que o meu caríssimo "anônimo" disso não discorde.
Alguém me questinou de forma anônima — por isso a necessidade de uma resposta específica — uma expressão por mim usada num dos tópicos deste blog. Confesso que — no momento da entrevista ao jornal Tribuna do Planalto— usei a expressão "formação formal" de forma inconsciente. Ela é equivalente a "educação formal". No entanto, pude constatar que ela é fartamente empregada no meio jornalístico e acadêmico. No contexto em que a utilizei, quis salientar a importância do educação para o exercício da literatura. Alguns exemplos do uso da expressão:
Lula não tem uma formação formal, mas é um exemplo de atitude de vida.
A Tarde (2004)
Os custos de formação nas empresas tendem a ser baixos quando comparados com os da formação formal apesar dos empregados saírem.
Relatório do PNUD
Para nós é um “educador profissional” que passa por um sistema de formação formal e
que continua nesse processo ao longo de sua vida.
Documento da UNESP
"as formalidades e as superioridades academicas por si só nao formam nem profissionais tao pouco artistas, sao nescessarias do ponto de vista social, mas nao sao imprencindiveis; linguagem do corpo, musical, ou linguagem aerea adiquire-se com percursos proprios mesmo quando indicado por mestres ou pseudos-mestres. E as interrogaçoes nunca serao questionamentos, o caro e o barato convivem bem no comercio. ao arquivo a critica; os artistas estao no mundo."
Não nego a importância da "escola do mundo", e muito menos renego a experiência de mundo que trilhei. Mas se eu tivesse a oportunidade de viver no passado, teria corrido meio mundo para participar da academia de Platão, ou mesmo de Abelardo! Tive de amassar muito pão e vender banana na feira para fazer uma universidade (que representa o ideal platônico-aristotélico de academia nos tempos atuais — pois academia indica formação e não conclave de intelectuais, como habituamos tratar hoje). No "percurso próprio" de todo homem, necessariamente tem de haver a formação formal, mesmo que esta seja contratada pelo próprio indivíduou ou pela família. Só para usar uma metáfora para a questão. A madeira está no mundo, mas em estado bruto ela não se torna um caibro, um tampo espelhado de mesa. Já é entiga a expressão: é preciso burilar o diamante. Todo ser humano é um diamante, mas precisa ser burilado pelas experiências de vida, pela educação familiar/social e pela "educação formal".
Meu carísismo interlocutor: não sou acadêmico. A minha academia é o mundo. Há sabedoria e sabedoria! Antigamente, a sabedoria, para saber chover, consistia em cheirar o vento; hoje a sabedoria para saber do clima passa pela academia-universidade-formal. E assim, também acontece com a linguagem poética.
Voltei a ser questionado, de novo de forma anônima, sobre a necessidade da "educação formal" para que o indivíduo seja poeta— se eu acredito nessa necessidade.
Primeiramente, é bom que se diga que, assim como na música, há uma hierarquia na poesia. Há a música de raiz, integrada ao folclore, que não exige formalidade, apenas domínio de certos ritmos já definidos; há a música popular, que está próxima do folclore e já exige domínio de composição e execução; e assim para adiante até se chegar à música erudita. Há o poeta inserido num processo quase folclórico — cite-se o caso do repentista —, e há aqueles que dominam o idioma, os procedimentos da língua erutita, que chegam a uma intimidade com as exigências do processo criativo. Para estes últimos, só a "formação formal" apresenta habilitação.
E acredito em mais: há uma crise na linguagem da poesia contemporânea justamente por faltar algumas disciplinas à "educação formal" atual , tais como línguas antigas, filosofia, bem como melhores escolhas nas adoções dos livros didáticos.
Não há mais espaço para amadorismo no campo das artes, assim como não há no campo dos esportes e da tecnologia.
Acredito que o meu caríssimo "anônimo" disso não discorde.
Alguém me questinou de forma anônima — por isso a necessidade de uma resposta específica — uma expressão por mim usada num dos tópicos deste blog. Confesso que — no momento da entrevista ao jornal Tribuna do Planalto— usei a expressão "formação formal" de forma inconsciente. Ela é equivalente a "educação formal". No entanto, pude constatar que ela é fartamente empregada no meio jornalístico e acadêmico. No contexto em que a utilizei, quis salientar a importância do educação para o exercício da literatura. Alguns exemplos do uso da expressão:
Lula não tem uma formação formal, mas é um exemplo de atitude de vida.
A Tarde (2004)
Os custos de formação nas empresas tendem a ser baixos quando comparados com os da formação formal apesar dos empregados saírem.
Relatório do PNUD
Para nós é um “educador profissional” que passa por um sistema de formação formal e
que continua nesse processo ao longo de sua vida.
Documento da UNESP
Divulgados os livros finalistas ao prêmio Jabuti de 2006.
Confira aqui a lista completa de todas as categorias: Jabuti (finalistas).
Confira aqui a lista completa de todas as categorias: Jabuti (finalistas).
Os finalistas na categoria livros de poesia:
VESTÍGIOSA, AFFONSO ROMANO DE SANT`ANNA - ROCCO
ELEGIA DE AGOSTO, RUY ESPINHEIRA FILHO - BERTRAND BRASIL
COMO NO CÉU & LIVRO DE VISITAS, FABRICIO CARPINEJAR - BERTRAND BRASIL
POESIA REUNIDA, IVAN JUNQUEIRA - A GIRAFA EDITORA
PEDRA DE LUZ, RODRIGO PETRONIO - A GIRAFA EDITORA
O RESMUNDO DAS CALAVRAS, MARCUS FABIANO GONÇALVES - WS EDITOR
QUASE UMA ARTE, : PAULA GLENADEL - COSAC NAIFY
FAZER SILÊNCIO, MARIANA IANELLI - EDITORA ILUMINURAS
GAIOLA ABERTA, DOMINGOS PELLEGRINI- - BERTRAND BRASIL
ESTALEIROS DE VENTO, FRANCISCO ORBAN - OROBÓ EDIÇÕES
ELEGIA DE AGOSTO, RUY ESPINHEIRA FILHO - BERTRAND BRASIL
COMO NO CÉU & LIVRO DE VISITAS, FABRICIO CARPINEJAR - BERTRAND BRASIL
POESIA REUNIDA, IVAN JUNQUEIRA - A GIRAFA EDITORA
PEDRA DE LUZ, RODRIGO PETRONIO - A GIRAFA EDITORA
O RESMUNDO DAS CALAVRAS, MARCUS FABIANO GONÇALVES - WS EDITOR
QUASE UMA ARTE, : PAULA GLENADEL - COSAC NAIFY
FAZER SILÊNCIO, MARIANA IANELLI - EDITORA ILUMINURAS
GAIOLA ABERTA, DOMINGOS PELLEGRINI- - BERTRAND BRASIL
ESTALEIROS DE VENTO, FRANCISCO ORBAN - OROBÓ EDIÇÕES
14 de julho de 2006
Confirmando a interação de Gerson Valle com a literatura de Brasília, na edição de setembro do jornal Poiésis, ele analisa o livro Arquitetura do homem, de João Carlos Taveira. Além da intimidade que ele mantém com o livro e seu conteúdo, destaca-se a ampla e acertada visão da poesia brasileira das últimas que ele imprime dentro do resenha-artigo. Parabéns ao resenhista e ao resenhado.
Ainda recentemente Gerson Valle subiu a serra para vir a Brasília lançar seu último romance (Os souverirs da prostituta: a novela de Ipanema, da editora Catedral das Letras). E é com grata satisfação que lemos no jornal Poiesis a resenha que ele fez sobre o livro Y Semiótico, do brasiliense Robson Corrêa de Araújo. Trata-se de uma análise afirmativa, de quem compreende a arte literária (por amá-la e vivê-la), que não foi feita só por aventura jornalística. Parabéns ao Robson e ao Gerson Valle por essa convergência produtiva. A resenha pode ser lida na página do Poiesis.
Ainda recentemente Gerson Valle subiu a serra para vir a Brasília lançar seu último romance (Os souverirs da prostituta: a novela de Ipanema, da editora Catedral das Letras). E é com grata satisfação que lemos no jornal Poiesis a resenha que ele fez sobre o livro Y Semiótico, do brasiliense Robson Corrêa de Araújo. Trata-se de uma análise afirmativa, de quem compreende a arte literária (por amá-la e vivê-la), que não foi feita só por aventura jornalística. Parabéns ao Robson e ao Gerson Valle por essa convergência produtiva. A resenha pode ser lida na página do Poiesis.
8 de julho de 2006

Num mundo cheio do cheiro da guerra, Salvatore Quasimodo ainda conseguia evadir-se e encontrar um mundo ainda cheio de vida. Sempre que passo por esse poeta italiano — Nobel de 1959 —, dos meados do século XX, encanta-me como ele se integra à natureza para escapar da angústia. Tão belo que angustia! É livre a versão que fiz do poema que aparece abaixo, a partir da tradução espanhola.
Talvez seja um verdadeiro signo da vida:
em torno de mim crianças com ligeiros
movimentos de cabeça dançam num jogo
de cadências e vozes no prado
da igreja. Piedade do ocaso, sombras
acesas sobre a erva tão verde,
belíssimas sob o fogo da lua!
Concede-lhes a memória breve sonho:
agora, despertai. Assim, o bramir do poço
com a primeira maré. Esta é a hora:
não mais minha, abrasados, remotos simulacros.
E tu, vento sul, cheiro forte de jasmineiros
a lua impele para onde crianças dormem
nuas, força ao poldro nos campos
úmidos dos passos das éguas, abre
o mar, levanta as nuvens das árvores:
a garça já avança para a água
e fareja lenta a lama nas espinhas,
ri o corvo, negro, nas laranjeiras.
Quem não gostaria de escrever com essa sensibilidade:
(...) o homem que em silêncio se aproxima
não esconde um punhal nas mãos,
mas um ramo de gerânio (...)
6 de julho de 2006
Por ocasião do Festival de Poesia de Goyaz, a Tribuna do Planalto, jornal editado com sucesso em Goiás pelo escritor Vassil Oliveira, nos entrevistou sobre a poesia atual e sobre o prêmio que recebemos com o livro Ruínas ao sol, que acaba de sair pela editora 7Letras.
A entrevista pode ser conferida aqui: ‘A poesia sempre vive de glórias do passado’
Aqui o final da entrevista:
Quais suas influências? Você acredita em escritor ingênuo, sem leitura, ou a prática da poesia requer uma preparação cultural para ela?
Resposta: Não há literatura sem formação formal e sem reflexos da herança cultural do indivíduo que se propõe a ser poeta. A poesia de um determinado poeta é o somatório da encruzilhada de suas experiências com a sociedade, com a família, com a região de seu país, com as tradições, conceitos e preconceitos de seu grupo, somado aí o contato com a tradição da poesia. Se fosse desnecessária essa encruzilhada para o surgimento de uma nova dicção poética, todos se proporiam a ser Homero, Shakespeare – e todos chegariam a ser clássicos antes de passar pela modernidade de seu tempo. Sem contar a anima poética, que é a grande desgraça do poeta, pois ele nunca terá certeza se vive com ela. As minhas influências remontam ao tempo em que eu andava de calça curta pelas capoeiras da Fazenda Calvo. Já naquele tempo aprendia o nome das árvores, a variação das cores do capim no escorrer das estações do ano, a reconhecer os animais pelo seu canto dentro da noite. E tive o privilégio de, na juventude, encontrar em Silvânia, os modernos Cassiano Ricardo, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, numa biblioteca pública. E, agora, quase na velhice, reaprendo com os românticos ingleses, com Jorge de Lima, de "Invenção de Orfeu", com Rilke e Montale. A poesia exige uma aprendizagem constante, contato com universos paralelos... Quem desconhecer as novas vertentes da poesia neobarroca – cite-se Cozer, Victor Sosa, entre tantos – vai acabar enveredando por uma poesia envelhecida. E, se não envelhecida, enganosa.

Luiz de Aquino, conterrâneo de Goiás, de rica amizade, de animado humor, escreveu uma crônica a partir de um poema nosso que aparece nesse blog. Não só o gesto amigo, mas o teor de animado clima goiano e a riqueza do texto, muito nos deixam envaidecidos. Não deixe de ler a crônica :Proseando com o poeta. Visitemo-lo.
4 de julho de 2006
Nome no fogo

Esfumaça-se a seiva do nome
na cera, na boca das turbinas
Vaga entre teares da infância
no fundo das valas, túmulos
em vozes que repetem a infinitude
E línguas buscam o nome nos tufos
nas turfeiras do hálito
em partituras de um cansaço aflito
E queimou-se na creolina, na cânfora
e nas amapolas, amperes de força
secou ampolas de androgenias
Esteve aceso no querosene
nas varejeiras, na ferida
em aéreo sumo de limões
e quase se inscreve nas estolas
nos corrimões do parlamento
em velas estiradas nas fronteiras
Mãos passam, quase apanham o nome
Quase a fusão das palmas
onde ele esteve, onde se esconde
Por pouco o nome descobre as raízes
por pouco racha a muralha do inimigo
O nome começa a abrir o postigo
a quem vai à cena queimar a terra
queimar as açucenas do sexo e das mãos
@ Salomão Sousa
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Folder do lançamento do livro
A poesia não deixa de ser uma fidelidade ao que amamos. Continuo fiel à poesia em A NOITE ESCURA DOS CRISTAIS PERDIDOS, que nasce acolhido...
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Para Mariza Buslik Sou aficionado pela origem das palavras e pelos diversos significados que elas vão ganhando durante os desdobramentos dos...
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Depois que li esse poema toda minha concepção de poesia foi alterado. Não me satisfez a tradução que aparece no livro de Harold Bloom, Como ...