junho 25, 2006


Concedi entrevista à estudante de jornalismo Mara Tereza Gonçalves Puljiz, do IESB — Instituto de Educação Superior de Brasília. A íntegra da entrevista pode ser lida a partir daqui: "Só não posso ficar sem poesia"
Salomão Sousa revela sua história e seus planos para o futuro

junho 22, 2006

Enquete com os visitantes

O que não falta é teoria sobre a Poesia. Antonio Cícero chega a dizer que, no momento em que o poeta toma a natureza como elemento de composição, o verde pode ser branco. Será que é preciso teoria para compor poesia?

junho 19, 2006

É áspero o caminho, mas não me abdico da Poesia

Desde a primeira edição de A Moenda dos dias, de 1979 (portanto, há 25 anos), que temos procurado atender ao chamado de Carlos Drummond de Andrade, que em correspondência de 1980 nos intimou a "prosseguir" "no caminho áspero de exigir da poesia um testemunho do meio e do tempo". Agora, neste 19 de junho de 2006, recebo exemplares de Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia, publicado pela 7Letras. Nele, prossigo o caminho que escolhi rumo à Poesia, que nunca sabemos onde nos levará. E o destino é cada vez mais inglório com as armadilhas que, em vez de ajudá-los na trajetória, muitos procuram interpor na passagem dos poetas. Como digo em um de meus poemas: ninguém vem colocar o leite em nossa porta. Na porta dos poetas caem apenas as contas. Mas, como diz Fernando Pessoa: quem quiser usar, use; quem quiser abdicar que abdique. Não abdico. Não chego ao ponto de circunscrever "a mim a tragédia que é minha", como diz o heterônimo de Fernando Pessoa. Diversas injunções (processo político-cultural, novos rumos da mídia, interesses liberais) contribuem para a crise de linguagem e para o fracasso editorial da poesia, para a tragédia da leitura de poesia. Não abdico. A tragédia da poesia não é cavada só pela tragédia do poeta. No entanto, não abdico. Se houver tragédia, terei me divertido, me emocionado. Não terei derramado lágrimas. Se a minha poesia for fracasso, ela faz parte do fracasso do meu meio e do meu tempo. Se ninguém mais tocar no meu livro para abrir e ler, ali dentro estou com meu tempo e meu meio, como Carlos Drummond de Andrade me convocou a prosseguir. Vocês, que são do meu tempo e do meu meio, convoco para a vitória ou o fracasso: Ronaldo Costa Fernandes, Ronaldo Peixoto Alexandre, Herondes Cézar, Ronaldo Cagiano, Ana Ramiro, Vassil Oliveira, João Carlos Taveira, Robson Corrêa de Araújo. E outros mais ainda convocarei.

Correspondêrncias de Carlos Drummond de Andrade

Novo heretônimo de Fernando Pessoa em novo livro



Novo livro de Fernando Pessoa acaba de ser resgatado de seu espólio por Richard Zenith — Barão de Teive, A educação do estóico, pela editora A Girafa. O barão de Teive pode ser consideração outro heterônimo, aquele que não foi completamente desenvolvido por Fernando Pessoa, mas suficiente para expressar aqueles furos negros da alma, que a pessoa se nega a assumir com a própria individualidade. É através do barão de Teive que Fernando Pessoa nega a moral, pois reconhece que ela impede a completa realização individual, já que a ação não é totalmente imaculada. Mas, apesar de suicida, é um heterônimo que quarda forte personalidade diante da vida: "Tive, sim, esperanças, porque tudo é ter esperanças ou é morte". É um livro incompleto, rascunho, mas um rascunho que qualquer outro escritor gostaria de deixar para a posteridade.
Mais algumas frases:

Só tem parte na vida real do mundo quem tem mais vontade que inteligênia, ou mais impulsividade que razão. "Disjecta membra" disse Carlyle, " o que fica de qualquer poeta, ou de qualquer homem" (...) Quem usa, que use, quem abdica que abdique. Use com a brutalidade do uso; abdique com a absoluteza da abdicação. Abdique sem lágrimas, sem consolações de si mesmo, senhor ao menos da força da sua abdicação. Despreze-se, sim, mas ao menos com dignidade.
(Disjecta membra - esta expressão significa «membros despedaçados». Corresponde à expressão de Horácio (Sátiras, I, iv, 62) «disiecti membra poetae» (os membros do poeta despedaçado). Costuma referir-se aos fragmentos de uma obra literária que não esteja organizada coerentemente (obras aforísticas, por exemplo).

junho 15, 2006

Ordenamento de um texto

Dedicado à Lejânia Bello

Se comparados, os textos de Ítalo Calvino e de Fernando Pessoa manifestam algumas peculiaridades intrigantes. O primeiro autor produz um texto limpo, tudo no devido lugar, com elegância acuradíssima. Essa totalidade estilística de Ítalo Calvino aparece também em Nabokov, principalmente no livro Pessoa em Questão, de memórias. No segundo, as frases incompletas, versos onde faltam palavras, e surge o excesso de sinalizações. Fernando Pessoa não teve tempo de terminar a maioria de seus textos. No entanto, continua a sobrepujar a maioria dos escritores pela energia vital. Era tanta vitalidade que não sobrava paciência para preencher todos os vãos, retornar ao início para ordenar o verso, domá-lo numa estrutura espacial.
Diante dessa dicotomia na forma de mostrar o texto finalizado, a necessidade de adoção de postura redacional se torna imperativa. Quem não é Fernando Pessoa tem a obrigatoriedade de ordenar o poema, os parágrafos da ficção ou mesmo dos textos confessionais (não há maior elegância do que nas memórias fictícias de Pedro Nava, ou no romance Em busca do tempo perdido, de Proust, que tanto pode ser memória quanto pode ser ficção). Quando expressas, as memórias precisam apresentar parentesco com a ficção (será que são verdades as memórias de Vargas Llosa?, quer saber uma jornalista que lê o livro). A irresponsabilidade fica apenas para a comunicabilidade instantânea da internet — rápida, descompromissada, e até mesmo banal. O ordenamento aprofunda a elegância das idéias, extingue a banalidade, e aumenta a credibilidade que o leitor deposita no autor.
Quando uma idéia surge, pode acontecer de ser abordada com o apressamento da energia corporal. No entanto, ela não funcionará em plenitude sem maturação, sem que o autor viva a fase de podar os ramos excessivos, já que os parasitas quase sempre se depositam no meio das palavras exatas para sugar suas energias. Escrever é um serviço de jardinagem. O galho podre ou a planta daninha retiram toda a harmonia do canteiro. Assim, se há abuso das sinalizações, dos adjetivos, parece que as flores (as palavras exatas) ficam apagadas no meio dessas folhas mortas.
Assim, a jardinagem da poesia moderna (e também da ficção) exige a eliminação do excesso. Se os escritores atuais são herdeiros do concretismo, que liberou a visualização do espaço textual, eles têm de fazer jus a essa herança. A maiúscula tem de estar no seu lugar (o simbolismo agora é só tradição), nunca ser usada para grafar palavras específicas ou vir em repetições infinitas no início de todos os versos; abolição de sinalizações óbvias (algumas vírgulas, reticências, exclamações). Evitar metáforas comparativas. Até as crianças fazem versos com a palavra como ou com verbos de ligação (você é o sol da minha vida, você apareceu como o sol na minha vida). Outras opções de criatividade metafórica têm de ser cavadas para que as flores não sejam abortadas.
Há que se compreender que Helena Parente Cunha deu a largada para a junção do Concretismo com a retomada da expressão frasal, que resultaria nos atuais movimentos de pós-vanguarda. Ela, que ainda não está reconhecida por fazer esse trampolim, conseguiu na maioria dos seus livros de poesia esse feito através do despojamento vocabular e frasal. As palavras partidas e exatas, a frase incompleta para completar outra incompleta, mas tudo com o domínio, com decisão de expressar uma linguagem, e não por incompetência.
Na pós-vanguarda – que é o que os escritores atuais vivenciam ou chegam a praticar — as palavras, e mesmo as frases, não são mais as mesmas. As palavras e as frases se libertaram. Sem que disso tenham consciência, as palavras da pós-vanguarda são pré-socráticas – não dizem só o que está em suas raízes ou em seus complementos, não querem nada perto delas que possa atrapalhar a possibilidade de significação.
No livro Decir es Abissinia, Victor Sosa não usa vírgula ou dois pontos nessa frase — Decía por la boca acacia fresca (Dizia pela boca acácia fresca). Alguém poderia ficar tentado a grafar: Dizia pela boca: — acácia fresca. Mas ficariam perdidas a limpeza, a rapidez, a espacialidade concreta. Quando a frase é traduzida, desaparece um cia da assonância. E está tudo aí dentro desse pedaço de verso: sonoridade, sensualidade. E assim é quando Nabokov desdobra a palavra Lo-lita no primeiro parágrafo do seu romance famoso. Todos os leitores se sentem lambendo a ninfeta Lolita.
Os escritores da pós-modernidade não precisam transformar as palavras em objetos estranhos, escondidas entre penduricalhos, com excesso de partições, mas deixá-las abertas para a expressão total. Escrever não é nada mais que lamber as palavras com toda a sensualidade, com a sabedoria de desvesti-las, deixá-las nuas para todos os significados.

junho 14, 2006

Poema inédito [Salomão Sousa]

Poema que passou pelos seios de várias mulheres, a começar pelos seios da Jandira de Murilo Mendes):

Alguém sem pressa, com seios lerdos

assim sem repartir o leite ao fim do dia
assim chato de lembrar na hora decisiva
de abrir latas, comer as partes frias
Na decisão inconteste, ah! escorregar
cair onde ficar em definitivo
sem ter de mover uma palha
ou chamar por Dayla ou plantar adelfas
esfregar linóleos, ai, óleo nos lábios
nos decotes invisíveis, implausíveis
Ai! se vier a tromba d’água, ouvir as calhas
o orvalho silencioso nas dálias
Entre trempes, talhos encalhar
sem alguém para esquentar
as partes altas, as partes frias
Quantos anos tem o dia?

Quantos decotes a noite? quantas folhas?
Ah! os brotos vagarosos, os seios lerdos,
as cerdas, as cordas espichadas moles

As longas folgas na lentidão dos eixos
os colos sem ciências, sem superfície

e logo o amanhã se pronunciará
com a madeira podre, as fornalhas frias

Os não-crentes, de Fernando Savater

Citação de Fernando Savater, que está no livro "Os Dez Mandamentos para o Século XXI"

"Nós, os não-crentes, acreditamos em algo: no valor da vida, da liberdade e da dignidade, e em que o gozo dos homens está nas mãos deles e de ninguém mais. São os homens que devem enfrentar com lucidez e determinação sua condição de solidão trágica, pois é essa instabilidade que dá acesso à criação e à liberdade."

junho 13, 2006

ULISSES, de Tennyson

Depois que li esse poema toda minha concepção de poesia foi alterado. Não me satisfez a tradução que aparece no livro de Harold Bloom, Como e por que ler os clássicos, pois, para respeitar a métrica, acabaram cortando parte do enunciado - e isso refletiu na perda da dramaticidade. Fiz a minha adaptação livre a partir do espanhol. Auuuuuuau!!!!! Há uma tradução de Haroldo de Campos que saiu numa edição do Mais!


Fútil o ganho para um rei nada útil,
na calma do lar, à beira de penhas áridas,
unido a uma idosa esposa, a impor e dispor
iníquas leis a uma raça selvagem
que come, e amealha, e dorme, e de mim nem sabe.
A mim não resta senão viajar: beberei
a vida até o fundo. Sempre desfrutei
da fartura, e com fartura sofri, junto àqueles
que me amavam com amor ímpar; e, em terra,
arrastado pela corrente, as chuvosas Híades
agitavam o lúgubre mar: ganhei nome:
para sempre vagando com coração ávido,
vi, possuí, e muito conheci; cidades de homens
e costumes, climas, conselhos, governos,
nunca com desprezo, mas honrado por todos;
e brindei o prazer da batalha com meus pares,
longínquo ressoar nos vales da Tróia dos ventos.
Sou parte de tudo que encontrei;
ainda que toda experiência seja um círculo
em que brilha o mundo inexplorado com margens,
que sempre se desfazem sempre que avanço.
Que triste é deter-se, chegar a um fim,
enferrujar, enrugar, não brilhar com o uso!
Assim como respirar, era a vida! Vida cheia de vida
e de tudo fica um pouco, e de tudo para mim
poucos vestígios: mas a cada hora é salvo
desse silêncio eterno, um pouco mais,
um portador de coisas novas, e vil seria
se apenas três sóis me prouvessem e amealhassem
e este espírito grisalho com ânsias
de alcançar a sabedoria como um astro que se funde
antes de irromper o último pensamento humano.
Este é meu filho, meu Telêmaco,
a quem deixo o cetro e a ilha —
meu bem-amado, capaz de consumar
este trabalho, apaziguar com mansa prudência
um rude povo, e brando, passo a passo,
submetê-lo ao que é útil e bom.
Irrepreensível ao máximo, pronto para a domínio
dos deveres públicos, decente para não fracassar
em missões delicadas, e contribuir
com a justa adoração aos deuses de minha casa
quando eu partir. Eu lido a minha; ele, a sua lida.
Ali em frente o porto; a nave infla suas velas:
ali a penumbra do vasto escuro dos mares. Meus marinheiros,
almas no duro esforço, forjam, e fazem comigo —
sempre com festivas boas-vindas tomaremos
o trono e o sol, resistindo com
livres corações, sem desfaçatez —, somos velhos.
A velhice mantém suas honras e esforços;
a morte tudo conclui: mas há algo no fim,
por fazer ainda uma tarefa nobre pode haver,
nem só homens indecorosos em luta com deuses.
Começam a piscar as luzes frente às rochas:
apaga-se o largo dia, a lenta lua sobe: em volta
o fundo gemido das múltiplas vozes. Venham,
amigos, não é tarde para buscar um novo mundo.
Desatracai e, postos em ordem, batam
os sonoros encaixes; pois é meu intento
navegar além de onde o sol se põe, e se banham
os astros ocidentais, até a morte.
Talvez aqueles vorazes golfos nos devorem,
Talvez venhamos a alcançar as Ilhas da Fortuna
e vejamos o grande Aquiles, nosso conhecido.
Ainda que muito esteja perdido, muito nos resta;
e ainda que perdida a força dos velhos dias
que movia céus e terras; somos o que somos;
uma coragem única nos corações heróicos,
débeis pelo tempo e pelo destino, mas persistentes
em lutar, achar, buscar, jamais render.

Vida Breve, de Dowson

[O poema"Vida Breve", de Dowson, que aperece no filme Laura]
Não encontrei uma tradução confiável e nem sei se é confiável a minha adaptação, mas mesmo assim é belo:

Não são duradouros o choro e o riso,
o amor, o desejo e o ódio,
Penso que não fazem parte de nós
depois que passamos pela porta.

Não são duradouros os dias de vinho e de rosas:
saído de um enevoado sonho,
Nosso caminho emerge por algum tempo, e depois se fecha
dentro de um sonho

Poema [Salomão Sousa]


Algo ressoa na cidade, nos frutos
algo desfruta dentro de nós
somos os sinais em outros
Não vamos saber quando somos
a solidão em alguma lembrança
Sabemos só do algoz dentro de nós

Não saberemos do pó dentro do túmulo
do acúmulo de sementes após o fruto
Algo soa ressoa sina dentro de nós
Cascas secas ascos cascos. Crimes
A crina em algum dorso
Algum musgo de antigo gozo

Ainda que emudeça a voz
esqueça a semente que pede a cova. Ressoa
O que anda pela cidade, nos apelos
bordoadas atordoam
bordões de crimes, bordões de lobos
As tábuas de manhã. As tábuas doam

Ressoa algum bruto em nós.
Algo vem andando pela cidade. Um fruto

Poema [José Godoy Garcia]

Minha mão se fosse a sua minha lembrança
meu corpo se fosse o seu me abraçava.
Minha tristeza sua se fosse a minha
minha tristeza me cantava, minha mão
se fosse a nuvem me chovia,
minha carne se fosse a do tigre
me devorava, ela devora,
devora todo dia o meu sonho.
Mas antes, a carne de meu sonho
fica no varal e eu como, meu pé
caminha e sabe bem quem leva,
meu pé leva a Neurália o pó
que apanha nas estradas, um pó
que poderia contar histórias
de meu chão, uma manta de carne
no varal do mundo pra me comer!
O meu sonho no varal fica só osso

José Godoy Garcia, o mais importante poeta do modernismo do Centro-Oeste, lê poesia em um dos meus aniversários

Poema do livro Ruínas ao Sol [Salomão Sousa]

Navego e o mundo é só onde estou.
Dizem que há nortes com flores e flautas.
Dizem que há largos portos,
o prumo nas mãos dos nautas.

Amam nas águas as jias.
Dizem que para os mil filhos.
Não encontrei para as orgias
as garotas indo sem rumo.

Dizem que há os tálamos
à espera cobertos de goivos.
Foram vistos os acantos
e as garotas ainda navegam.

Navego num mundo sem prumo e sem nauta.

pequena visão sobre a poesia brasileira [salomão sousa]

Tópico de minha autoria em diálogo que mantive com Victor Sosa

Só a pós-vanguarda não arremata as vertentes da poesia brasileira, que vive, atualmente –e sempre foi assim, basta lembrar Auta de Souza, Sousândrade, Kilkerry, Sosígenes Costa, Zila Mamede, José Godoy Garcia–, peculiares situações periféricas, a maioria ainda rejeitada por ter atuado na província. Mas como lembra de forma correta Paulo Henriques Britto, em entrevista recente, há pluralidade de linguagens, mas acabaram as divergências, pois essas linguagens não mais obrigam os poetas a se firmarem em grupos ou a renegar correntes divergentes. Os suplementos e as revistas em circulação não fermentam nenhuma divergência ou vontade de definições mais ousadas. Sem que haja definição crítica, –há muito mais preocupação em saudações de compadrio–, há espaço para neo-simbolistas, numa lembrança rápida: principalmente em Goiás, com Valdivino Braz e Delermando Vieira; do maranhense Luís Augusto Cassas e do amazonense Aníbal Beça, que também se ajustam ao neobarroco e ao lírico modernismo. Espaço ainda para revitalizadores do Modernismo, com muita acolhida na grande imprensa, oriundos da poesia marginal –saudosistas de Leminski– e seguidores de Mário Quintana, Manuel Bandeira e Vinicius de Morais, além de reflexo da fluência de Fernando Pessoa em nosso meio acadêmico. E esses representam parcela significativa dos novos poetas brasileiros, exemplos podem ser encontrados em Chico Alvim, Nicolas Behr, Carpinejar, Ana Miranda, e tantos outros. Mas esses caem em lugares comuns, ou em flexões óbvias de situações do cotidiano. Os versos de comunicação explícita, só que de poética inconseqüente – veja em Ana Miranda: E Jesus desceu da cruz/para nos salvar. E ela, que pesquisou tanto a obra e a vida de Gregório de Matos, detinha grandes chances de ter se aproximado da vanguarda do neobarroco. Até uma poeta veterana como Adélia Prado –filha tardia do modernismo– se viu chamada a descambar para a “epifania”, comprometendo aquele fluxo inicial de galante lirismo e realidade, levado com justiça ao pedestal por Drummond. Há, ainda, espaço para aqueles que regridem para espaços formais já encerrados com a Geração de 45, como é o caso de Alexei Bueno e Bruno Tolentino. O grupo que transita em torno da revista Inimigo rumor e da Editora 7 Letras, com liderança de Carlito Azevedo e Ronaldo Polito, quase sempre pratica um modernismo minimalista, com impenetrabilidade, apesar de não tender para o surrealismo. Destaques merecem Micheliny Verunschk, Eucanaã Ferraz e Cláudio Daniel, que animam esperança para equilíbrio entre a tradição e a pós-vanguarda. Há juventude poética na jovem Verunschk, e certamente sua poesia logo alcançará resistente arcabouço formal. Há espaço para rebeldias líricas, em vozes femininas, aqui pode ser destacado com pertinência o lugar cativo alcançado por poetas como Orides Fontela, Hilda Hilst, Marialzira Perestrelo, Yêda Schmaltz e, no minimalismo zen, Cristina Bastos. Situação peculiar é a poesia de Iacyr Anderson de Freitas, que transita entre o classicismo e a pós-vanguarda lírica. Junto com Paulo Henriques Britto e Marcos Siscar, Iacyr redireciona a poesia brasileira para uma linguagem convincente, animadora de crítica, inventividade e emoção. Pois não basta ser herdeiro das vanguardas, do Modernismo, do Barroco e das vertentes do surrealismo. Não é necessário transgredir, mas progredir dentro da língua, nas possibilidades sonoras, significações, abundância de aliterações, sempre aliadas ao bordado das questões sociais, riqueza dos costumes, sincretismos religiosos, volume dos vocábulos que saem da natureza e desses sincretismos. Há displicência na maioria dos poetas brasileiros atuais –e eles poderiam se espelhar nos exemplos dos modernistas e dos concretos– quanto à compreensão de sua herança cultural e a definição de uma poética para uma postura produtiva a esse pós-tudo.

Poema [Victor Sosa]

[Este poema também foi traduzido por Cláudio Daniel para a coletânia de poema de Victor Sosa que acaba de ser editada no Brasil. Victor Sosa, uruguaio residente no México, é um dos mais importantes poetas surgidos nos últimos tempos]


Deixar de ser: sair
Não ser mais o pássaro na rama
nem a rã em sua lama; ser a pedra
de toque voraz, pedra rodada
pelo mundo: canto; não ser
mais a pedra ser a árvore presa
à curva terráquea, árvore
votiva, cheia de pássaros vazia de copa
árvore que fala em sussurros; não ser
mais a árvore ser o fruto
da estação que se anuncia, fruto
do trabalho e fruto proibido
do prazer; por exemplo: essa maçã
no sexo da garota; não ser
mais o fruto ser a garota
que olha na janela, o que olha a garota?
olha as costas da Argélia, olha as Costas do Marfim
olha! ali vai Ulisses; não ser
mais a garota ser Ulisses, ileso
de sereias em sua Ítaca; não ser
mais sua Ítaca ser Minotauro sem medo
e ferir a virilha da moça inglesa
que pode ser Ariadne, que pode ser o pássaro
quetzal ou Quetzalcóaltl, o deus que disse adeus
porque deixar de ser é ser como ele: se passar
por colibri e não se passar pela noiva
não pensar em Esperança quando chegar
a desesperança, e é certo
que a desesperança chega já que é afluente
é dilúvio e é pranto militar; deixar de ser
será desfazer o poema em seu iglu
declinar Juana de Ibarbourou, saudar
sobre a ponte do Brooklyn com a esquerda
e benzer com a direita; será
não dar as horas a César; dar graças
e fechar o serviço.

Deixar de ser: caminhar sobre as águas.

Tradução: Salomão Sousa

Dois poema do uruguaio Juan Cunha traduzidos por Salomão Sousa

COMO NÃO ESTAIS EM MINHAS ARTÉRIAS

Se és flor como não estás fixa num talo
Apenas balançada por este alento que abrasa

Se és pomba como arrulhando não foges
Quando vem o caçador roxo em roxa fúria

Se és vela como não vais ligeira
Como as velas que o rio eleva entre os dedos

Se és meu sangue como não estás em minhas veias
passando e repassando meu coração que não dorme

[Soneto sem título]

Venho paradizer tua primavera
Falo para nomear doce tuas aves
Para abrir em ti as flores que conheces
Para te fazer entre todas a devera

Era formosa a tarde e como era
Se a evoco assim rápido nela nem cabes
És tarde infinita já sem chaves
Estejas onde estiveres e eu te queira

E estás onde estou e te quero
E não me importarei em dizer eu morro
Pois não estará certo com certeza

Mas venho nada mais que para dizer-te
Que já não poderás partir nem morrer
Por mais que seja triste e faça noite

Poema [Salomão Sousa]

DAR-SE AOS PREGOS E ÀS LÉGUAS
ferrugem colada às lavas
perder-se salsugem nas águas
larva nas boas e más línguas

perder-se para se moldar
entre a marreta e a bigorna
perder-se na quentura do forno
pães nas esbórnias dos lábios

entornar o sangue
nos moldes dos trevos
e voltar a se perder
safra quebrada nas lâminas

perder-se para nascer
nas flores e nos olhos da terra
não ser o ferrolho inchado
o caruncho na madeira das íris

Salomão Sousa em encontro de escritores com Lígia Fagundes Teles e Carlos Herculano Lopes

Antes de tudo

Antes de tudo eram as andorinhas e o imenso céu, que eu via muitas vezes entre galhos de árvores. Andava pelos grandes caminhos afundados pelos animais me divertindo com os pequenos veludos vermelhos e brancos, de polpa doce. Os grandes cogumelos após as queimadas para as primeiras chuvas. As fugas das caninanas e dos cascavéis. E o prazer de recolher numa imensa bacia de flandres, com meus irmãos, nas nossas brincadeiras —, coleções de lacraias, pulgões, besouros, caracóis. E as permanentes revoadas de borboletas multicoloridas. Isso era na beira do rio Calvo, município de Silvânia, em Goiás, numa pequena fazenda de meu avô, que era hábil artesão em couro e madeira, e gostava de literatura de cordel. Ali, fui alfabetizado por Zé Ribeiro, um andarilho rezador, contratado por meu pai por três meses para ensinar as primeiras letras para mim e meu irmão Miguel. Até a fundação de um grupo escolar naquela localidade, estudei ainda por um mês na fazenda de meu tio Pedro Miguel. Aquele mês foi de completa festa. Eram uns doze primos e primas. Um grande pomar, com mexeriqueiras, daquelas pequenininhas (doces e cheirosas). Jambos. Como eram cheirosos os jambos! E o brejo onde colhíamos talos de buritis para armações de armadilhas e para tecer pequenos brinquedos. Mas, depois, com a inauguração do grupo escolar na fazenda do Zé Arnaldo, a minha rotina foi alterada. Andava uns três quilômetros a cavalo e ficava quase o dia todo naquele grupo escolar. Levava o almoço numa vaslha de alumínio. Talvez um ano, ou mais — não sei quanto tempo estudei naquela escola. Aí, como meu pai tinha decidido que nenhum filho dele poderia ser analfabeto como ele e minha mãe, mudamos para Silvânia. Lembro-me de nossa última noite na fazenda. Recebi a visita de minha professora do grupo escolar (tenho de resgatar o nome dela). Ela me anunciou que também estava deixando a escola, já que perdia o seu melhor aluno. Talvez essa tenha sido a homenagem mais honrosa que tenha recebido em minha vida. Não só pela declaração dela de partir por minha causa, mas também pelo cumprimento de sua promessa — pois realmente ela voltou para a cidade. Assim, em 16 de janeiro de 1964, cheguei na cidade. As boas vindas foram dadas com um gesto de intolerância. A casa em que ficaríamos por um mês, até ser desocupada a da rua Direita, que meu pai tinha comprado, ficava perto da Igreja. Enquanto meus pais organizavam a mudança, fui visitar a igreja com meus irmãos menores. Assim que entramos, o zelador gritou para nós: — Saiam daqui, seus caipiras. Da Revolução de 1964 eu tinha visto apenas os aviões passando no céu azul da fazenda e meu pai me dizendo que eram os militares indo para Brasília. Mas começava ali naquele ato de intolerância a minha revolução pessoal. Completei o primário no grupo Moisés Santana, e o ginasial no Ginásio Anchieta, dos padres salesianos. Portanto, uma formação cristã — avós e pais cristãos, que legaram o meu nome bíblico; um professor mestre em rezar terços e, finalmente, os padres salesianos. (Texto em resposta a uma entrevista a Mara Puljizz)