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Mostrando postagens de Junho, 2006
Concedi entrevista à estudante de jornalismo Mara Tereza Gonçalves Puljiz, do IESB — Instituto de Educação Superior de Brasília. A íntegra da entrevista pode ser lida a partir daqui: "Só não posso ficar sem poesia"
Salomão Sousa revela sua história e seus planos para o futuro

Enquete com os visitantes

O que não falta é teoria sobre a Poesia. Antonio Cícero chega a dizer que, no momento em que o poeta toma a natureza como elemento de composição, o verde pode ser branco. Será que é preciso teoria para compor poesia?

É áspero o caminho, mas não me abdico da Poesia

Desde a primeira edição de A Moenda dos dias, de 1979 (portanto, há 25 anos), que temos procurado atender ao chamado de Carlos Drummond de Andrade, que em correspondência de 1980 nos intimou a "prosseguir" "no caminho áspero de exigir da poesia um testemunho do meio e do tempo". Agora, neste 19 de junho de 2006, recebo exemplares de Ruínas ao sol, Prêmio Goyaz de Poesia, publicado pela 7Letras. Nele, prossigo o caminho que escolhi rumo à Poesia, que nunca sabemos onde nos levará. E o destino é cada vez mais inglório com as armadilhas que, em vez de ajudá-los na trajetória, muitos procuram interpor na passagem dos poetas. Como digo em um de meus poemas: ninguém vem colocar o leite em nossa porta. Na porta dos poetas caem apenas as contas. Mas, como diz Fernando Pessoa: quem quiser usar, use; quem quiser abdicar que abdique. Não abdico. Não chego ao ponto de circunscrever "a mim a tragédia que é minha", como diz o heterônimo de Fernando Pessoa. Diversas inj…

Correspondêrncias de Carlos Drummond de Andrade

Novo heretônimo de Fernando Pessoa em novo livro

Novo livro de Fernando Pessoa acaba de ser resgatado de seu espólio por Richard Zenith — Barão de Teive, A educação do estóico, pela editora A Girafa. O barão de Teive pode ser consideração outro heterônimo, aquele que não foi completamente desenvolvido por Fernando Pessoa, mas suficiente para expressar aqueles furos negros da alma, que a pessoa se nega a assumir com a própria individualidade. É através do barão de Teive que Fernando Pessoa nega a moral, pois reconhece que ela impede a completa realização individual, já que a ação não é totalmente imaculada. Mas, apesar de suicida, é um heterônimo que quarda forte personalidade diante da vida: "Tive, sim, esperanças, porque tudo é ter esperanças ou é morte". É um livro incompleto, rascunho, mas um rascunho que qualquer outro escritor gostaria de deixar para a posteridade.
Mais algumas frases:

Só tem parte na vida real do mundo quem tem mais vontade que inteligênia, ou mais impulsividade que razão. "Disjecta membra" d…

Ordenamento de um texto

Dedicado à Lejânia Bello

Se comparados, os textos de Ítalo Calvino e de Fernando Pessoa manifestam algumas peculiaridades intrigantes. O primeiro autor produz um texto limpo, tudo no devido lugar, com elegância acuradíssima. Essa totalidade estilística de Ítalo Calvino aparece também em Nabokov, principalmente no livro Pessoa em Questão, de memórias. No segundo, as frases incompletas, versos onde faltam palavras, e surge o excesso de sinalizações. Fernando Pessoa não teve tempo de terminar a maioria de seus textos. No entanto, continua a sobrepujar a maioria dos escritores pela energia vital. Era tanta vitalidade que não sobrava paciência para preencher todos os vãos, retornar ao início para ordenar o verso, domá-lo numa estrutura espacial.
Diante dessa dicotomia na forma de mostrar o texto finalizado, a necessidade de adoção de postura redacional se torna imperativa. Quem não é Fernando Pessoa tem a obrigatoriedade de ordenar o poema, os parágrafos da ficção ou mesmo dos textos confess…

Poema inédito [Salomão Sousa]

Poema que passou pelos seios de várias mulheres, a começar pelos seios da Jandira de Murilo Mendes):

Alguém sem pressa, com seios lerdos
assim sem repartir o leite ao fim do dia
assim chato de lembrar na hora decisiva
de abrir latas, comer as partes frias
Na decisão inconteste, ah! escorregar
cair onde ficar em definitivo
sem ter de mover uma palha
ou chamar por Dayla ou plantar adelfas
esfregar linóleos, ai, óleo nos lábios
nos decotes invisíveis, implausíveis
Ai! se vier a tromba d’água, ouvir as calhas
o orvalho silencioso nas dálias
Entre trempes, talhos encalhar
sem alguém para esquentar
as partes altas, as partes frias
Quantos anos tem o dia?
Quantos decotes a noite? quantas folhas?
Ah! os brotos vagarosos, os seios lerdos,
as cerdas, as cordas espichadas moles

As longas folgas na lentidão dos eixos
os colos sem ciências, sem superfície
e logo o amanhã se pronunciará
com a madeira podre, as fornalhas frias

Os não-crentes, de Fernando Savater

Citação de Fernando Savater, que está no livro "Os Dez Mandamentos para o Século XXI"

"Nós, os não-crentes, acreditamos em algo: no valor da vida, da liberdade e da dignidade, e em que o gozo dos homens está nas mãos deles e de ninguém mais. São os homens que devem enfrentar com lucidez e determinação sua condição de solidão trágica, pois é essa instabilidade que dá acesso à criação e à liberdade."

ULISSES, de Tennyson

Depois que li esse poema toda minha concepção de poesia foi alterado. Não me satisfez a tradução que aparece no livro de Harold Bloom, Como e por que ler os clássicos, pois, para respeitar a métrica, acabaram cortando parte do enunciado - e isso refletiu na perda da dramaticidade. Fiz a minha adaptação livre a partir do espanhol. Auuuuuuau!!!!! Há uma tradução de Haroldo de Campos que saiu numa edição do Mais!


Fútil o ganho para um rei nada útil,
na calma do lar, à beira de penhas áridas,
unido a uma idosa esposa, a impor e dispor
iníquas leis a uma raça selvagem
que come, e amealha, e dorme, e de mim nem sabe.
A mim não resta senão viajar: beberei
a vida até o fundo. Sempre desfrutei
da fartura, e com fartura sofri, junto àqueles
que me amavam com amor ímpar; e, em terra,
arrastado pela corrente, as chuvosas Híades
agitavam o lúgubre mar: ganhei nome:
para sempre vagando com coração ávido,
vi, possuí, e muito conheci; cidades de homens
e costumes, climas, conselhos, governos,
nunca com desprezo, ma…

Vida Breve, de Dowson

[O poema"Vida Breve", de Dowson, que aperece no filme Laura]
Não encontrei uma tradução confiável e nem sei se é confiável a minha adaptação, mas mesmo assim é belo:

Não são duradouros o choro e o riso,
o amor, o desejo e o ódio,
Penso que não fazem parte de nós
depois que passamos pela porta.

Não são duradouros os dias de vinho e de rosas:
saído de um enevoado sonho,
Nosso caminho emerge por algum tempo, e depois se fecha
dentro de um sonho

Poema [Salomão Sousa]

Algo ressoa na cidade, nos frutos
algo desfruta dentro de nós
somos os sinais em outros
Não vamos saber quando somos
a solidão em alguma lembrança
Sabemos só do algoz dentro de nós

Não saberemos do pó dentro do túmulo
do acúmulo de sementes após o fruto
Algo soa ressoa sina dentro de nós
Cascas secas ascos cascos. Crimes
A crina em algum dorso
Algum musgo de antigo gozo

Ainda que emudeça a voz
esqueça a semente que pede a cova. Ressoa
O que anda pela cidade, nos apelos
bordoadas atordoam
bordões de crimes, bordões de lobos
As tábuas de manhã. As tábuas doam

Ressoa algum bruto em nós.
Algo vem andando pela cidade. Um fruto

Poema [José Godoy Garcia]

Minha mão se fosse a sua minha lembrança
meu corpo se fosse o seu me abraçava.
Minha tristeza sua se fosse a minha
minha tristeza me cantava, minha mão
se fosse a nuvem me chovia,
minha carne se fosse a do tigre
me devorava, ela devora,
devora todo dia o meu sonho.
Mas antes, a carne de meu sonho
fica no varal e eu como, meu pé
caminha e sabe bem quem leva,
meu pé leva a Neurália o pó
que apanha nas estradas, um pó
que poderia contar histórias
de meu chão, uma manta de carne
no varal do mundo pra me comer!
O meu sonho no varal fica só osso

José Godoy Garcia, o mais importante poeta do modernismo do Centro-Oeste, lê poesia em um dos meus aniversários

Poema do livro Ruínas ao Sol [Salomão Sousa]

Navego e o mundo é só onde estou.
Dizem que há nortes com flores e flautas.
Dizem que há largos portos,
o prumo nas mãos dos nautas.

Amam nas águas as jias.
Dizem que para os mil filhos.
Não encontrei para as orgias
as garotas indo sem rumo.

Dizem que há os tálamos
à espera cobertos de goivos.
Foram vistos os acantos
e as garotas ainda navegam.

Navego num mundo sem prumo e sem nauta.

pequena visão sobre a poesia brasileira [salomão sousa]

Tópico de minha autoria em diálogo que mantive com Victor Sosa

Só a pós-vanguarda não arremata as vertentes da poesia brasileira, que vive, atualmente –e sempre foi assim, basta lembrar Auta de Souza, Sousândrade, Kilkerry, Sosígenes Costa, Zila Mamede, José Godoy Garcia–, peculiares situações periféricas, a maioria ainda rejeitada por ter atuado na província. Mas como lembra de forma correta Paulo Henriques Britto, em entrevista recente, há pluralidade de linguagens, mas acabaram as divergências, pois essas linguagens não mais obrigam os poetas a se firmarem em grupos ou a renegar correntes divergentes. Os suplementos e as revistas em circulação não fermentam nenhuma divergência ou vontade de definições mais ousadas. Sem que haja definição crítica, –há muito mais preocupação em saudações de compadrio–, há espaço para neo-simbolistas, numa lembrança rápida: principalmente em Goiás, com Valdivino Braz e Delermando Vieira; do maranhense Luís Augusto Cassas e do amazonense Aníbal Beça, qu…

Poema [Victor Sosa]

[Este poema também foi traduzido por Cláudio Daniel para a coletânia de poema de Victor Sosa que acaba de ser editada no Brasil. Victor Sosa, uruguaio residente no México, é um dos mais importantes poetas surgidos nos últimos tempos]


Deixar de ser: sair
Não ser mais o pássaro na rama
nem a rã em sua lama; ser a pedra
de toque voraz, pedra rodada
pelo mundo: canto; não ser
mais a pedra ser a árvore presa
à curva terráquea, árvore
votiva, cheia de pássaros vazia de copa
árvore que fala em sussurros; não ser
mais a árvore ser o fruto
da estação que se anuncia, fruto
do trabalho e fruto proibido
do prazer; por exemplo: essa maçã
no sexo da garota; não ser
mais o fruto ser a garota
que olha na janela, o que olha a garota?
olha as costas da Argélia, olha as Costas do Marfim
olha! ali vai Ulisses; não ser
mais a garota ser Ulisses, ileso
de sereias em sua Ítaca; não ser
mais sua Ítaca ser Minotauro sem medo
e ferir a virilha da moça inglesa
que pode ser Ariadne, que pode ser o pássaro
quetzal ou Quetzalcóaltl, o de…

Dois poema do uruguaio Juan Cunha traduzidos por Salomão Sousa

COMO NÃO ESTAIS EM MINHAS ARTÉRIAS

Se és flor como não estás fixa num talo
Apenas balançada por este alento que abrasa

Se és pomba como arrulhando não foges
Quando vem o caçador roxo em roxa fúria

Se és vela como não vais ligeira
Como as velas que o rio eleva entre os dedos

Se és meu sangue como não estás em minhas veias
passando e repassando meu coração que não dorme

[Soneto sem título]

Venho paradizer tua primavera
Falo para nomear doce tuas aves
Para abrir em ti as flores que conheces
Para te fazer entre todas a devera

Era formosa a tarde e como era
Se a evoco assim rápido nela nem cabes
És tarde infinita já sem chaves
Estejas onde estiveres e eu te queira

E estás onde estou e te quero
E não me importarei em dizer eu morro
Pois não estará certo com certeza

Mas venho nada mais que para dizer-te
Que já não poderás partir nem morrer
Por mais que seja triste e faça noite

Poema [Salomão Sousa]

DAR-SE AOS PREGOS E ÀS LÉGUAS
ferrugem colada às lavas
perder-se salsugem nas águas
larva nas boas e más línguas

perder-se para se moldar
entre a marreta e a bigorna
perder-se na quentura do forno
pães nas esbórnias dos lábios

entornar o sangue
nos moldes dos trevos
e voltar a se perder
safra quebrada nas lâminas

perder-se para nascer
nas flores e nos olhos da terra
não ser o ferrolho inchado
o caruncho na madeira das íris

Salomão Sousa em encontro de escritores com Lígia Fagundes Teles e Carlos Herculano Lopes

Antes de tudo

Antes de tudo eram as andorinhas e o imenso céu, que eu via muitas vezes entre galhos de árvores. Andava pelos grandes caminhos afundados pelos animais me divertindo com os pequenos veludos vermelhos e brancos, de polpa doce. Os grandes cogumelos após as queimadas para as primeiras chuvas. As fugas das caninanas e dos cascavéis. E o prazer de recolher numa imensa bacia de flandres, com meus irmãos, nas nossas brincadeiras —, coleções de lacraias, pulgões, besouros, caracóis. E as permanentes revoadas de borboletas multicoloridas. Isso era na beira do rio Calvo, município de Silvânia, em Goiás, numa pequena fazenda de meu avô, que era hábil artesão em couro e madeira, e gostava de literatura de cordel. Ali, fui alfabetizado por Zé Ribeiro, um andarilho rezador, contratado por meu pai por três meses para ensinar as primeiras letras para mim e meu irmão Miguel. Até a fundação de um grupo escolar naquela localidade, estudei ainda por um mês na fazenda de meu tio Pedro Miguel. Aquele mês f…